ANÁLISE 13/06/2018 - 08h29

Diálogo e empatia mais presentes nas relações entre pais e filhos

A web é uma das razões da mudança do comportamento familiar das gerações X e Z. Especialistas dizem que, apesar do estilo colaborativo, a tarefa de educar precisa continuar a ser preponderantemente dos pais
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Kelly Hekally kellyhekally@opovo.com.br
Tatiana Fortes
"Nós vivemos como que em uma república: a gente se encontra às vezes na hora do almoço, só à noite, pode até acontecer de ser só no dia seguinte", diz Katia Aragão

 Os conceitos de gerações baby boomers, X, Y, Z e alpha, de autoria norte-americana, ganharam espaço na sociedade e atualmente são ponto de partida para estudos em diversas áreas comportamentais. Em meio às possíveis análises, olhar para a maneira como as gerações X e Z lidam nas relações entre pais e filhos, comparando-as com a forma de educar da geração baby boomers para com seus respectivos filhos, em geral pertencentes à geração X, é bastante pertinente. Diálogo, empatia e conscientização política são atributos presentes na convivência de pais da geração X, que têm entre 38 e 58 anos, e filhos da Z, que têm de 9 a 21 anos.

"A relação que tenho estabelecida com meus filhos desde que eles eram pequenos é muito diferente da que meus pais tiveram comigo, em que pese haver algumas coincidências. São diferentes pela visão de mundo, pela questão do diálogo, que existe mais, e até pela educacional. Minha mãe não tinha essa coisa do conversar o que você quer ser. Não existia isso", exemplifica a funcionária pública e advogada Katia Aragão, de 49 anos, e mãe de David Aragão, 21, e Isabel Aragão, 15. Ela complementa que, em meio ao seu ciclo de amizades, é comum que os amigos tenham a mesma maneira de se relacionar com os filhos.

Para Andréa Carla Cordeiro, professora do departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), embora seja arriscado utilizar-se de nomenclaturas como as mencionadas acima, sob o risco de elas fazerem generalizações, é possível afirmar que o estilo parental que predomina na contemporaneidade se diferencia do dos momentos anteriores. "Primeiro, porque a nova geração tem muito mais acesso à informação que as crianças e adolescentes de algumas décadas atrás. Isso os torna mais autoconfiantes e destemidos ao lidar com os adultos em geral. Os pais, por sua vez, estão mais cautelosos e conscientes das possíveis consequências geradas a partir de como se relacionam com seus filhos", pontua.

Segundo a docente, os pais da geração X em diante, embora exista certo temor, estão bem conscientes sobre as responsabilidades inerentes aos seus papéis. "Parece que os pais sentem receio de tolher as liberdades pessoais ou de causar severos danos ao desenvolvimento de suas crianças e adolescentes, o que os faz mais cautelosos. As gerações mais velhas trazem mais que o acúmulo de informação: trazem suas experiências pessoais e coletivas que devem ser compartilhadas com as novas gerações não como modelo absoluto a ser seguido, mas como referência significativa para a construção de suas próprias escolhas e cabe a elas o papel de educar, o que significa definir regras e limites."

Professora aposentada do antigo departamento de Economia Doméstica da UFC, Célia Chaves Gurgel diz que as mudanças de relações entre esses grupos tratam-se de conflito de gerações. "Todas as gerações têm seus códigos, expressos nas roupas, linguagem e gestos. Uma geração mais recente muitas vezes não tem a aprovação da geração anterior. As gerações que vão se firmando, sobretudo quando alcançam a adolescência, adotam e tentam impor seu modo de ver e viver e criticam a forma de ser e de viver das gerações anteriores."

Ela, contudo, pondera que o recorte de classes sociais e o dinamismo cultural pesam na análise do perfil dessas relações. "Essas gerações trazem elementos marcantes que interferem nas relações familiares, tais como as tecnologias televisivas e digitais, que nem sempre são tão acessíveis a todas as pessoas de nossa sociedade. Outros elementos que influenciam nessas relações familiares são a cultura, as tradições e os espaços geográficos onde acontecem."

Sobre a ideia de que há menos imposição para com os filhos das gerações mais recentes, Katia opina que a evolução social, por si, vai fazendo do diálogo uma ferramenta importante. "Eu não concordo muito com a ideia de deixar por conta deles e criar os filhos sem muita direção. No meu entender, crianças e adolescentes precisam do famoso limite. E é exatamente nessa questão da disciplina que está a mudança com relação ao que os nossos pais colocavam. Meus pais só colocavam limites e não diziam o motivo. Pelo menos aqui em casa, desde eles pequenos, fazemos questão do limite e de explicar por que ele existe. Por isso, a gente conversa." A funcionária pública acrescenta que, sempre que há necessidade de falar sobre assuntos tidos como tabus, a exemplo do sexo, o diálogo é predominante.

Conscientizar para o papel social
O raciocínio de maior cumplicidade com os filhos, bem como de educação social deles, de Katia converge com o do esposo, Elder Aragão, de 58 anos. "Sempre vejo que pai e mãe devem dar o apoio, suporte para os filhos, mas sempre penso na questão do filho enquanto ser humano. Da utilidade, do que ele vai desempenhar dentro do coletivo, da sociedade. Minha preocupação maior é de ter gerado um filho, criado e depois eu não ver aquele resultado de inserção dentro de uma comunidade, de sociedade, e de contribuição. Minha maior preocupação é de se tornar uma pessoa que não é útil para essa sociedade. Qualquer que seja a escolha que eles façam profissionalmente precisa deixá-los imbuídos nesse trabalho de coletividade, de sociedade", diz o também funcionário público e advogado.

"A gente sempre fala de tentar devolver e melhorar a nossa sociedade. Porque, na realidade, essa melhora vem a partir disso daí e não do salve-se quem puder. Para o Davi, sempre que eu tenho um exemplo de como não deve agir um médico, trago à tona. A Isabel está no ensino médio, mas a gente sempre está colocando essa coisa do tratar as pessoas bem para ela. A gente sempre fala aqui em casa que todo mundo na sociedade tem o seu papel. Desde a pessoa que vem apanhar o lixo na porta da tua casa até o empresário. Todos têm um papel na sociedade. E nós só funcionamos porque cada um desempenha seu papel. Se um desses papéis começar a falhar, vai haver um certo caos no sistema", conclui Katia.

Sob a ótica dos filhos
Estudante do curso de medicina da UFC, Davi conta que percebe diferenças no relacionamento com os pais quando os amigos partilham suas vivências em casa. "Têm alguns que vejo que, mesmo já tendo 19, 20 anos, os pais são muitos preocupados. Quando sai, o pai tem que ligar para saber se está bem. Aqui em casa não. Eu ligo e aviso que vou para restaurante tal e a mamãe me pede para levar a chave. Isto demonstra que eles confiam em mim." Da relação com a irmã, ele fala que os pais sempre ensinaram que os dois devem respeitar os limites um do outro e que essa ideia contribuiu para a maneira como hoje os dois dividem espaços e
objetos em comum.

Sobre as vivências com a mãe, Isabel destaca que Katia, a exemplo da maioria das mães de suas amigas de escola, "se jogam bastante, principalmente em festa de 15 anos", e relembra o show do cantor Justin Bieber a que as duas assistiram em 2012, em São Paulo. "A gente fez um acordo: eu ia para o show e seria meu presente de aniversário. Fui uma das únicas que foi com a mãe. Na época, eu era muito próxima da minha mãe. Não que não seja hoje, mas, como eu era bem mais nova, a via como uma grande amiga. Estar com ela era estar com uma amiga." A estudante do 2º ano do ensino médio soma também experiências de diversão junto ao pai: tardes do final de semana dedicadas à culinária em casa. "Quem faz o prato sou eu. Ele acaba sendo meu auxiliar." Elder complementa. "Recolho e limpo tudo no final. Ela é a chefe."

Andrea destaca pontos positivos no perfil das gerações mais recentes, mas chama atenção para aspectos que precisam ser trabalhados. "Acho muito bacana essa nova geração que traz um senso questionador muito aflorado, mas me parece que lhes falta um pouco de conscientização quanto aos seus próprios pontos frágeis. Crianças e adolescentes que acreditam saber tudo e dominar tudo perdem a oportunidade de aprender com as experiências de quem já viveu um pouco mais do que eles. Quando se encontram numa situação em que a construção dessa resposta é um pouco mais complexa, essa nova geração fica confusa e muitas vezes não tem referência para construir novas respostas."

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