TENDÊNCIA 05/02/2018 - 07h00

Feminismo tem tudo para ser destaque em 2018

Eleito, de acordo com pesquisa norte-americana, o "termo de 2017", o feminismo deve ser discutido com intensidade ao longo deste ano. Redes sociais e eleições são apontados por especialistas como razões para que o vocábulo esteja em evidência
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Kelly Hekally kellyhekally@opovo.com.br
Divulgação
Especialistas acreditam que pautas progressistas serão discutidas com mais intensidade em 2018

O dado é do final de 2017, mas a palavra, de acordo com especialistas, deve continuar em evidência nos próximos meses. Segundo levantamento anual realizado pelo dicionário norte-americano Merriam-Webster, "feminismo" foi o termo mais buscado na plataforma online da publicação durante o ano passado – no site, a procura pelo vocábulo chegou a ser 70% superior que o interesse por ele em 2016. Para a Merriam-Webster, acontecimentos como "Marcha das Mulheres" pós-eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e produções cinematográficas a exemplo de "Mulher Maravilha" contribuíram para esse cenário.

Há quem acredite que o interesse pela palavra tem tudo para manter-se em alta em 2018, entre outras razões, pelo fato de ser este um ano eleitoral, no qual pautas sociais, sobretudo as progressistas, são trazidas com mais força às discussões. "Estamos vivendo a Primavera das Mulheres, que bate de frente com pautas conservadoras. O mundo das redes sociais deu fôlego a esse momento, pois, com elas, houve uma renovação", opina Monalisa Soares, 32, professora de sociologia da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e integrante do Laboratório de Estudos em Política, Eleições e Mídias (Letem) da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Pensamento semelhante é o de Carla Vitória, 26, militante da Marcha Mundial das Mulheres. A advogada defende que haverá um crescimento de reações conservadoras ao feminismo, principalmente de cunho fundamentalista, é que por isso é previsível que o termo seja discutido com intensidade em 2018. Integrante da Sempreviva Organização Feminista, com sede em São Paulo, Carla acrescenta que o feminismo tem popularizado-se nos últimos anos, sobretudo em meio à juventude, por conta das redes sociais.

"A juventude tem acesso a várias ideias que o feminismo propõe. Há, contudo, outro lado, que é o da mídia incorporando o feminismo como instrumento do mercado. O feminismo é uma luta por igualdade. Quando falamos de feminismo, falamos de uma transformação no conjunto da vida das mulheres e não somente em alcançar condições de poder. Queremos uma transformação estrutural."

Estilos e pluralidade ideológica
Artigo publicado no jornal Le Monde no início deste ano e assinado por 100 mulheres - entre elas a atriz Catherine Devenue e a escritora Catherine Millet, ambas francesas – criticou o movimento #metoo (#eu também, em português), criado em 2017 para estimular que mulheres de diversos países fizessem posts nas redes sociais sobre situações de assédios sexuais por que passaram. Nele, as signatárias, que posteriormente se retrataram, defenderam a ideia de que, em geral, os homens têm sido interpretados como agressores e que isso os têm deixado com pouca liberdade para com as mulheres.

"Nós defendemos a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual", diz o título do documento. Este é um dos exemplos em que pensamentos divergentes da causa são trazidos à tona. Monalisa explica que existem pontos de conflito entre militantes feministas e que, em razão disso, falar em feminismo é falar em pluralidade de sentido. "A própria ideia de que ele não pode ser uno existe porque as trajetórias das mulheres que se engajam no feminismo são diversas. A condição hierárquica nos impõe uma experiência comum, mas é natural que haja uma clivagem de gênero e divisões transpassadas por outras experiências", opina.

Camila de Almeida
Monalisa Soares é professora de sociologia da Uece e integrante do Laboratório de Estudos em Política, Eleições e Mídias (Letem) da UFC
 

Sobre o movimento #metoo, Carla observa que ele é de grande valia para a causa, mas que existe uma parcela de mulheres não contempladas com ações desse estilo. "Vivemos dentro de um sistema patriarcal que educa homens para serem machistas e mulheres para aceitarem as situações de assédio. É muito importante que as mulheres falem de casos de assédio que sofreram, mas e aquelas que precisam e não podem falar? Que não podem expor, por exemplo, seus patrões? Estamos em uma cultura de superexposição dos assediadores, porém se esquecendo do mais importante: o apoio às mulheres que foram hostilizadas." 

Divergência que constrói
No Brasil, os movimentos feministas, desde o surgimento, procuraram fortalecer-se entre eles, pondera Monalisa. A docente destaca que houve um momento em que o feminismo foi muito caracterizado pela classe média, o que impedia que muitas mulheres aproximassem-se do movimento, mas que a realidade atual é de fortalecimento graças aos diversos grupos que o compõem.

"Esse conflito dá vivacidade ao movimento. Apresenta perspectivas. Esse desenvolvimento e essa agregação têm aprimorado no sentido de que mais e mais mulheres estão próximas. É preciso entender que as mulheres estão em muitos lugares de articulação e que se faz necessário criar cenários para que estejamos sempre dentro do debate, afastando as possibilidades de uma realidade em que as mulheres estejam à margem”, conta Monalisa.

O "papel do homem" no feminismo é também razão de divergência entre militantes. Carla argumenta que, como a desigualdade entre homens e mulheres não está apenas no plano do pensar, e sim é parte da estrutura da sociedade embasada em um modelo patriarcal, os homens são naturalmente vistos como superiores. "Entre as ações que os homens podem tomar para ajudar a luta feminista está o seu papel de contribuir como uma divisão de tarefas justa e adequada. Cuidar da casa, dos filhos, dos idosos, por exemplo, são algumas delas", finaliza.

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