06/06/2016

Criolo fala sobre sua relação com Fortaleza, música e política

Filho de cearenses, o rapper Criolo esteve em Fortaleza e conversou com O POVO sobre engajamento nas ocupações, a importância do debate social e político, as reviravoltas na vida musical, as memórias afetivas da infância e sua relação com a Capital cearense
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Rubens Rodrigues rubensrodrigues@opovo.com.br

Como quem parecia estar em casa, Kleber Cavalcante Gomes, o Criolo, deixa transparecer suas raízes nordestinas em poucas palavras. De sorriso fácil e abraço espontâneo, o rapper paulista esteve com a agenda cheia em sua última passagem por Fortaleza, terra de Maria Vilani e Cleon Gomes, mãe e pai do artista. Ele recebeu o título de cidadania fortalezense um dia antes de lançar “Ainda Há Tempo”, reedição do álbum de estreia, na capital alencarina. Engajado, visitou as ocupações no Centro de Atenção Integrada à Criança e ao Adolescente (Caic) Maria Alves Carioca, no bairro Bom Jardim, e no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Conhecido por seu posicionamento político questionador, o músico falou, em entrevista ao O POVO, da importância do debate social, das reviravoltas que a música trouxe e a memória afetiva que traz a periferia cearense.
 

OPOVO - Você visitou o Caic Maria Alves, no bairro Bom Jardim, uma das escolas da rede estadual ocupadas por estudantes no Ceará. Qual a importância desse movimento no contexto político brasileiro?
CRIOLO - Eu e o (DJ) DanDan fomos até esse colégio e lá eu vi um lugar muito bem cuidado. Eu falei “me mostrem a escola” e eles foram fazendo assim: ó, ali fica o refeitório, ali nós estamos dormindo, aqui nós fazemos nossas reuniões, aqui tem as assembleias. Mostrando com muita, com muita agilidade, dinâmica, mas quando chegou na parte das plantas eles abriram um sorriso maravilhoso com um orgulho muito grande daquele caminho. E eu falei, nossa, quanta sensibilidade, né? Então, encontrei jovens que estavam cuidando da escola. Foi isso que eu encontrei. A escola tava muito limpa, eles muito organizados e aí depois eu fiquei ali quietinho, né? Que acho que o grande lance é esse. A gente vai num lugar desse não é pra ensinar nada pra ninguém, pelo contrário, a gente vai pra aprender. Eles falaram do bairro, que é um bairro de gente muito maravilhosa, de gente muito especial, mas é um bairro tanto quanto esquecido. Um bairro que merece carinho, atenção, pra que isso melhore a condição de vida de todos. Falaram que querem que melhore a escola, que querem mais dignidade pro professor deles. E foi isso que eu encontrei.

OP
- Você foi aluno da rede pública e atuou como educador. Como você tem colaborado com o movimento de estudantes em São Paulo e como a sociedade deve entrar nesse debate?
CRIOLO - Eu acho que a sociedade já está inserida neste debate. Existe uma fala da grande maioria da sociedade, mesmo de quem não concorda com as ocupações, de que o professor merece sim ser valorizado. Existe sim essa percepção de que a escola pública realmente foi abandonada e que merece ser cuidada. Então, isso é muito positivo. Isso é muito positivo. E eu acho que isso é um ganho gigantesco e essa relação que acontece no Brasil, as pessoas estão sim todos falando “eu quero um Brasil melhor”. Uns concordam com o jeito de como conduzir isso e outros concordam com o de outro. Mas, também, todos falam “olha, ninguém quer mais corrupção aqui. Ninguém quer mais esse monte de coisa errada que faz um monte de gente sofrer”. Isso é muito especial. É um momento muito especial mesmo porque daqui a pouco um tanto se acalma e o outro tanto se enfurece. Mas como saber balancear? Como levar a serenidade e oxigenar esse diálogo para algo mais positivo? E eu tenho muita esperança nisso. Muita esperança nisso.

OP -A sessão solene de entrega do título de cidadão fortalezense no Cuca Jangurussu homenageia também os garotos mortos na Chacina de Messejana. Morreram 11 e dois deles eram estudantes da instituição. Sua produção artística é fortemente relacionada às questões sociais. A arte tem essa capacidade de mobilizar as pessoas em relação ao Estado?
CRIOLO - Eu aceitei isso e me sinto muito honrado, não quer dizer que estou à altura. Mas quero celebrar com os meus, esse momento que pra mim é muito especial, pois pai, mãe, avó, família de pai e mãe, 90% é daqui, então é uma grande honra pra mim. Porque eu me recordo das nações africanas quando o filho do filho do filho também era daquela nação. Então, se tenho pai e mãe, avô e avó dessa terra, sou um tanto dessa terra também. E eu acho que a arte é uma das poucas- a arte é tão cortejada, ela é tão desejada por ser ainda uma das poucas coisas que lembra que você é ser humano. Porque a arte, em sua pluralidade, lhe toca. Alguma coisa te emociona. Alguma coisa faz você abrir um sorriso, faz uma lágrima nascer, seja por indignação, por inquietação, tristeza, mágoa ou esperança, fé, felicidade. A arte tem esse poder de mexer com os nossos sentimentos e de lembrar que somos ainda humanos. Então, é, sempre vai ter esse poder de ajudar nesse processo de juntar pessoas.

OP - Existe uma militância social e política muito forte que você faz parte. Você já sofreu algum tipo de retaliação?   
CRIOLO - Olha, meus pais, eles saíram daqui e foram pra São Paulo. Os primeiros seis anos da minha vida foram num barraco. E tinha córrego, logo na janela da cozinha tinha um córrego. Ele ia até lá embaixo. E na frente tinha um poço que era pra atender oito barracos. E tinha um banheiro coletivo. Então nós sempre sofremos interferências.  Agora, se existe, a pergunta que você fez são muitos os caminhos. E por que falo desse início? Porque quem inventou a favela? Quando você nasce numa terra tão grande, de um povo tão lindo e inteligente, quem não pensou nesse planejar o todo para todos? Então sofremos sim interferências.

OP - Você falou em interferências. Teve algum momento em que você sentiu na pele o preconceito?
CRIOLO - Ah, já passamos por muita situação, já passamos por muita coisa. Infelizmente, por ignorância de algumas pessoas que eu espero que hoje esse conhecimento já tenha vindo. É importante a gente saber que todo mundo pode melhorar a cada dia, né? Que somos uma espécie em construção. Já passamos por muita situação sim, pelo sotaque dos meus pais, em especial pela cor da pele do meu pai, que é um homem negro lindo. Já passamos, infelizmente. Ou pelo simples fato de sermos pessoas pobres. Pobre desse lado financeiro, né? Do dinheiro. Mas sempre fomos muito ricos em cultura. Cultura, amor, esperança. Porque meus pais trouxeram isso, né? Trouxe um tanto disso dessa terra com eles. E se eles não tivessem esse apego com essa fé, esperança, e com essa força de vontade que todo nordestino tem, eu acho que nada teria dado certo. E o dar certo pra nós era conseguir um ambiente dessa sub existência. Não esse dar certo de um estereótipo colocado pela sociedade.

OP - Como a música entrou na sua vida?
CRIOLO - Eu, desde pequeno, sempre ali com a minha mãe, minha mãe gostava muito de cantar. E pelo que minha mãe conta, minha avó era cantora reserva da rádio Dragão do Mar. Meu pai sempre teve lá em casa disco do Luiz Gonzaga, Moreira da Silva e do… eu gosto tanto dele, que ele fala: “ensaiei meu samba o ano inteiro, toquei surdo e tamborim, gastei tudo em fantasia, era só o que eu queria e ela jurou desfilar pra mim”. (Benito de Paula, sopra a assessora) Benito de Paula! Então, dentro de casa, muita música. E por tá num barraco, que é um pedaço de pau amarrado no outro, um pedaço de pau colado no outro, uma lona, um saco plástico, então você escutava o que vinha do rádio dos barracos do seu lado. Então, naquele pedaço de chão você tinha um Brasil, um recorte de Brasil. Pessoas da Bahia, do Ceará, do Pará, do Rio de Janeiro. Eu cresci escutando um monte de som. Agora, o lance de eu escrever algo foi quando eu vi um jovem fazendo verso e aquilo me deixou maluco. Eu, com 11 anos de idade, não tinha me ligado que as coisas podiam rimar. E depois numa rádio eu escutei uma música que tudo rimava e o locutor disse: isso se chama rap. E o rap falava, parecia que tava falando da minha família, do meu bairro, dos problemas que a gente vivia naquele momento. E assim tudo começou pra mim.

OP - Eu vou te jogar uma pergunta que na verdade é sua. Se o rap é pro bem, por que é que tanta gente atrapalha?
CRIOLO -Talvez, alguns, por ainda não entender o tamanho da construção positiva que o rap oferece.

OP
- Você falou em uma entrevista que seu grande momento foi se perceber. Como é que foi esse processo?
CRIOLO - Olha, cara, quando o rap veio pra mim e eu percebi que eu podia fazer um texto e que eu podia ler esse texto pra alguém, e mais, que eu poderia cantar isso, isso foi um choque muito grande. Então, isso é muito forte, quando você se percebe vivo. E esse se perceber vivo é se perceber capaz de construir algo e depois se sentir parte de algo. Saber que você existe é muito forte e a música trouxe isso pra mim.

OP - Você falou em várias entrevistas também que teve um momento da sua carreira que pensou em parar.
CRIOLO - Sim, é verdade.

OP - Você ainda tem essa percepção finita da carreira artística?
CRIOLO - Não é que é uma questão de parar com a carreira artística porque o olhar que eu tenho dessa construção de arte não me faz artista. Mas a construção de arte, poder viver, poder respirar e poder aprender com a arte, essa coisa que lhe visita, é arte construída por tantas pessoas. O que isso vai provocar na sua vida? Então, isso não é carreira. Isso é processo de vida. Isso está desligado. E quando eu disse a DanDan que não subiria mais aos palcos, já estávamos fazendo 20 anos da correria do rap. 20 anos de cantar nos palcos. Então isso já existia. Uma verdade construída por duas décadas. Mas eu entendia também que a gente precisava de muito mais tempo para esse sub existir.

OP - Foi uma decisão daquele momento?
CRIOLO -Assim, eu vou falar um pouco por mim, pela minha família. Eu não posso falar nem pelo meu vizinho. Não posso ser leviano. Cada cabeça uma sentença. Mas a nós, o que tinha, meu filho, era muita pobreza, era muita fome. A gente tinha que sub existir. Já cansamos de passar Natal, Ano Novo, sem ter o que comer. E estou falando pra você de datas comemorativas porque isso mexe com a sociedade, né? Parece que dói mais na pessoa quando fala que não tinha o que comer no Natal. E nos outros 364 dias do ano que não teve o que comer? Aí ninguém vai se sensibilizar porque não era Natal? Às vezes eu converso com os jovens: “não fique pra baixo se a sociedade tá ali pressionando que você tem que tá de roupa branca e nova na entrada de ano. Porque não é isso que vai fazer a diferença, cara. Não deixa ninguém te colocar pra baixo se o seu sapato tá furado. Isso não vai te fazer menos do que ninguém”. Esse momento de que era: como é que eu vou sub existir? Como é que a gente vai fazer? O sistema que nos é oferecido é feito uma morte cruel, né?

OP - E aí veio o Nó na Orelha. A que você atribui o sucesso que ele trouxe?
CRIOLO - Eu não sei te explicar não, até hoje, cara. Porque era uma coisa que eu ia ficar umas músicas pra mim, pra minha família, e era o (Daniel) Ganjaman, o Marcelo (Cabral) junto com o Ricardo (Costa), eles tavam olhando lá na frente que tinha algo que eu podia dividir com as pessoas. Até hoje a gente não sabe o que foi que aconteceu. Nós fizemos as músicas com um esforço muito grande do Ricardo que convidou o Marcelo que convidou o Daniel pra construir essas músicas e a gente não sabe. A gente jogou pro mundo, assim como a gente faz. A gente jogou pro mundo.

OP - O mais interessante é que o disco surge desse processo do parar como uma resposta e ele simplesmente acontece.
CRIOLO - É porque, assim, esse amar música, viver esse processo de arte, esse processo de criação, que não é maior ou menor que outro processo, mas é também um processo. Fazer ele por esse prazer que você tem porque isso é importante pra sua alma. Isso é bom, isso lhe faz bem, isso é algo sublime. Quando você tá ligado a essas coisas e do modo mais sereno possível, do modo mais natural possível, isso fica impresso no que você joga pro mundo. Muitas perguntas eu escutei nesse curto tempo do Nó na Orelha pra cá. Como foi o planejamento? O que você fez antes para chegar aqui? Quais os próximos passos? Como se a vida da gente coubesse numa planilha do Excel. Então, quando se pensa arte assim, e acredito que também seja um modo de existir, de coexistir, de fazer acontecer, mas com a gente não foi assim. Não tô falando que é melhor ou pior. Mas a nossa preocupação era e é sempre a de dividir nossos bons sentimentos com as pessoas e pedindo essa licença, né? Talvez também muito por isso que a gente deixa lá pra baixar gratuito porque ninguém tem obrigação nenhuma de escutar o que você fez. É um querer seu jogar a música pro mundo e as pessoas não são obrigadas a escutar. As pessoas já têm um 24 horas que é tão curto pra tanta coisa que o ser humano tem sede de absorver, de conquistar, de visitar.

OP - Em alguma medida, o sucesso incomoda?
CRIOLO - Olha, eu não sei se eu tenho sucesso não, cara. Eu não sei como que a palavra sucesso bate na cabeça de algumas pessoas. Eu sou uma pessoa que eu sou muito grato à música por me permitir vivê-la 24 horas por dia hoje que é algo extremamente recente na minha vida. Isso me deixa carregado de muita emoção.

OP - Ainda Há Tempo tem versos que dizem que “as pessoas não são ruins, só estão perdidas”.  Faltam políticas públicas para a juventude da periferia?
CRIOLO - Eu acho assim, cara. Eu vou tentar responder de uma outra forma mas acho que vai chegar no que eu tô tentando expressar. Eu tenho muita felicidade de ter o Cassiano Sena (DanDan) próximo a mim há mais de 20 anos, que é uma pessoa que me aconselha e me ensina muitas coisas. Eu tenho muita felicidade de ter um pai e uma mãe cearenses que são cheios de cultura porque isso é natural desse povo, e que me passam tantos ensinamentos. Então, eu acho que esse dividir boas coisas faz total diferença, entende? E também esse pensar coisas boas está ligado a uma bagagem de vida de cada um, uma bagagem cultural de cada um, e como é bom quando a gente tem oportunidade de ver o cruzamento dessas ideias e nem todos estão abertos a isso. Por isso que eu digo que as pessoas não são más, elas só estão perdidas. Não porque são perdidas porque quiseram se perder ou porque são pessoas negativas, mas porque esse mundo é muito grande e chega muita coisa e é bom a gente ter uma referência. Pra mim são meus pais e alguns amigos próximos. É muito duro porque se a gente for pensar ao contrário, cada bebê que nasce a cada segundo no mundo você já vai carimbar? Esse é ruim, esse é bom? Agora, se ele pensar do meu jeito, esse é bom. Agora, se ele pensar diferente de mim, ele já não é tão bom. Então, acreditar nessa inocência de cada um, acreditar e relembrar que somos uma espécie ainda muito jovem nesse planeta, somos uma espécie ainda em evolução. Temos muito a aprender. Eu acredito sim que com a luz do conhecimento muita coisa pode mudar pra melhor.

OP - Você já fazia música por muito tempo, mas antes de despontar você fez outras coisas. Com o que você trabalhou?
CRIOLO - Eu já fui empacotador de mercado, já fui faxineiro, já vendi doce na rua, cocada na rua, comprava roupa num bairro pra vender em outro de porta em porta. Fiz um tanto de coisas.

OP - Essas experiências se conversam hoje?
CRIOLO - Totalmente. Tudo é aprendizado e é riquíssimo. É uma escola de vida. Acho que esse tanto de coisas que eu passei pela vida, tudo muito digno, com esse ainda criança aprendendo com o rap, aprendendo o que é palco, o respeito que o palco oferece e o respeito que ele exige foi construído junto com a luta pela subsistência, junto com o aprendizado dentro de casa. Porque família pra mim é uma das coisas, se não a coisa mais importante na vida de uma pessoa.

OP
- Você é filho de cearenses nascido em São Paulo. Você visitou Fortaleza na infância? Como você conheceu a cidade?
CRIOLO - Eu visitei acho que com 3 anos de idade e com 13.

OP -  Qual é a memória afetiva mais antiga que você tem da cidade?
CRIOLO - A memória que eu tenho é de tá na casa da minha avó, que hoje, né, tá no ceúzinho dela lá. Minha avó e meu avô não estão mais nesse plano. Visitar ela e ver aquele quintal. Uma casa muito simples, mas cheia de gente. E todo mundo com… (pausa) com temperamento forte. As pessoas decididas, assim. As pessoas são bem decididas aqui. Não tem conversinha de lado, não. Aqui resolve é na lata mesmo, resolve é na hora. Então, eu tenho essa referência boa dos meus avós paternos e uma referência muito boa da minha avó materna. O meu avô materno eu não conheci. Ele faleceu quando minha mãe tinha cinco anos de idade.

OP - Em qual bairro eles moravam?
CRIOLO - Olha, cara, o que fica muito na minha memória é Messejana. Muitos parentes lá, muitas pessoas queridas. Messejana é um nome que pensou Ceará, pensou Fortaleza, primeira coisa. Muita gente fala das praias, muita gente fala de um ponto turístico. Falou Fortaleza já, a primeira coisa: Messejana.

OP - E quando você lembra de acontecimentos como a Chacina de Messejana, qual a é a relação que você faz com o passado?
CRIOLO - O Gog, que é um grande compositor de rap do nosso Brasil, ele é de Brasília, tem uma música dele muito antiga que fala “periferia é periferia em qualquer lugar”. Mas ele não estava analisando, ele estava falando que é um lugar onde tem muita gente muito digna, cheia de luz, lutando por dias melhores, sofrendo de um descaso social absurdo que tem como consequência tantas coisas negativas.

OP - Há diferenças entre a periferia de Fortaleza e a de São Paulo?
NOME - Meu filho, quando a gente fala de sofrimento, eu quero falar de duas coisas muito importantes. Esperança e sofrimento. No rosto das pessoas, no coração das pessoas, lá na favela das Imbuias (zona sul de São Paulo) onde eu fiquei seis anos. Nos rostos das pessoas de Messejana, no olhar, no brilho dos olhos daqueles jovens, eu vejo a mesma esperança e a mesma força pra lutar pela vida. E quando somos acometidos por coisas que o ser humano é capaz de um ápice de crueldade oferecer, eu vejo essa mesma dor e esse mesmo luto. O que eu quero lhe dizer, meu amigo, é quando a gente fala de amor, não existe amor menor ou maior. Amor é amor. Quando a gente fala de dor, não existe dor menor ou dor maior. Dor é dor.

OP - E hoje, qual é a sua relação com a cidade?
CRIOLO - Olha, a cidade de Fortaleza, a minha relação é de toda vez que venho levo umas pancadas de amor assim. Chuva, esperança, toda hora chega. Você veio agora, os jovens todos trazendo o que eles andam fazendo. Sua construção literária, sua preocupação com a sociedade, preocupação com a escola, preocupação com a família, a preocupação em fazer coisa boa. Toda vez que eu venho aqui, plau! Você vê, olho no olho, pessoas fazendo a diferença. A minha relação é eu, o aluno, e a cidade, o professor.

OP - Você fala da dona Vilani como uma grande leitora, além de tê-la influenciado a voltar a estudar em uma escola formal. O que mudou e o que foi que você aprendeu depois de três anos dividindo a sala de aula com sua mãe?
CRIOLO - Olha, é muito importante você ter perguntado isso. Quando a minha mãe foi à sala de aula lá no colégio Ester Garcia, em 1990, no Jardim São Bernardo, extremo sul da zona sul de São Paulo, eu tive a oportunidade de conhecer um ser total. Não só o olhar do filho pra mãe, mas entender que ela é uma mulher maravilhosa que é mãe também. Mas que é amiga, que é colega, que tem seus ciclos, constrói suas amizades. É uma mulher independente, uma mulher cheia de energia. Isso é muito maravilhoso. E ela lutou muito pelo direito de estudar. A minha mãe, ela aprendeu a escrever, como é que ela fazia? Antigamente ela comprava um peixe, um pedaço de carne que meus avós pediam pra ela ir comprar, e era embrulhado em jornal. O quê que ela fazia? Ela corria desesperada pra desembrulhar aquilo porque o sangue da carne ia molhando e tirando as letras do lugar. Então ela ficava desesperada. Ela corria, corria, e falou que era campeã de corrida na escola por causa disso aí. Então a pessoa que ama o saber, ama trocar, ama entender, aprender. Ela é demais. Poder ter contato com a minha mãe neste sentido fez eu enxergar ainda mais a grandiosidade que toda mulher tem. E eu muito jovem, né? Numa rotina dela, que era apenas o papel de mãe, mas poder ver ela na sala de aula foi uma experiência maravilhosa. Ela lutou muito pelo seu direito de estudar, sofreu muito preconceito, meu pai sofreu muito preconceito. Sofremos muito preconceito forte, pesado, por ela ter ido estudar, ela estudava no período noturno. Não foi fácil, não. Ela lutou muito pra mostrar pra todo mundo... e é muito louco isso, né? Você tem que provar pra todo mundo. Por quê? Tenho a todo o momento provar que sou tranquilo, né? Por que isso, gente? E ela lutou muito, sofreu muito pra mostrar pras pessoas que a grande parada dela era estudar e como é bom ser aluno, como é bom ter alguém perto pra ensinar coisas. Ela é um grande exemplo pra mim, ela é tudo. Ela e todas as mulheres do mundo são muito especiais. Cada mulher é de um jeito que é especial porque ela é mulher, cara, não adianta. Mulher é outro lance. É um dom dar a luz. É o ventre do mundo, coração do universo. É o brilho da estrela. É a silhueta da lua e a face oculta que faz o poeta se ajoelhar. É tudo, é o mistério, é geral, é o sol. Mulheres são. Mulher é. Mulher é um verbo. A gente fala verbo porque a gente ainda precisa de palavras pra tentar organizar esse nosso sentir. Palavras ainda não alcançam o total do nosso sentir. Mas é a ferramenta que a gente tem pra se comunicar e a gente vai nesse eterno balbucio.

OP -A dona Maria Vilani é ativista cultural e acabou de lançar um livro de poesias. É um projeto todo feito por mulheres. Ainda falta representatividade feminina no meio cultural?
CRIOLO - Minha mãe fez este quinto livro todo dedicado às mulheres, por perceber que nos outros quatro livros muitos homens participaram do processo. Representatividade não falta, tem de monte, de todos os cantos e de uma qualidade de encher os olhos de felicidade. O que falta, é o mundo sair desse poço profundo chamado machismo e se render de uma vez por todasà toda qualidade e a tantos trabalhos maravilhosos, que todos os dias nossas mulheres brasileiras oferecem ao mundo .

OP - Como você percebe a mudança de Governo do país?
CRIOLO - Quando você tem uma casa, por mais que ela necessite de concertos e reparos, você tem uma porta que se abre pro mundo e janelas para enxergar o céu de esperança, quando retiram as portas e janelas sobra um alçapão, e é assim que me sinto.

 

"Se perceber vivo  é se perceber capaz de construir e se sentir parte de algo. A música trouxe isso pra mim"

 

Perfil

Criolo nasceu em 1975, na favela das Imbuias, zona sul de São Paulo, onde viveu os primeiros seis anos de vida. Depois foi morar no Grajaú com a família, onde vive até hoje. Klebinho, como é chamado pela mãe, é filho de cearenses e bisneto de escravizados no Ceará. Escreveu o primeiro rap aos 11 anos, iniciou carreira aos 14 e, em 2006, criou a Rinha dos MCs, festa de hip hop dedicada às batalhas de improvisação. No mesmo ano lançou seu primeiro registro musical, Ainda Há Tempo, com tiragem de 500 unidades. Em 2011, veio o premiado Nó na Orelha. Com Convoque seu Buda, de 2014, Criolo se reinventou alinhando ritmos diferentes, como o samba ao rap. Ele acaba de regravar o álbum de estreia.

 

PERGUNTA DA LEITORA


Paloma Cabral, musicista, ilustradora, analista de Marketing e estudante de Administração.

 

LEITORA - Como você está se sentindo em relação a regravação do Ainda Há Tempo? O quão importante é essa releitura e como ela se encaixa no discurso do Criolo de hoje, em relação a 10 anos atrás?

 

Criolo- É que não muda. E o rap não é pautado em discurso. Discurso talvez seja um discurso de fala ou ideias que ajuda a gente a sintetizar algo, mas quando fala em discurso já lembra palanque, né? O rap não é palanque. O rap traz uma energia que ajuda você a se expressar, só que algumas pessoas esquecem que você também é um ser humano igual a qualquer outro, que você tem uma linha do tempo. Você também está vivendo, está se permitindo aprender, a crescer, a fraternizar. E isso acontece no seu processo de vida em tudo. Na arte não é diferente. Canções que foram escritas há 20, 15 anos atrás, hoje batem como se tivesse sido escritas semana passada porque infelizmente algumas pessoas insistem ainda em fortalecer algumas coisas que só fazem mal.

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