[an error occurred while processing this directive][an error occurred while processing this directive] A saga do leão do norte | Páginas Azuis | O POVO Online
OSWALDO LENINE MACEDO PIMENTEL 01/06/2015

A saga do leão do norte

Dos festivais de Pernambuco aos palcos da Europa, Lenine lembra a trajetória do garoto que largou a Engenharia Química para se tornar músico e cidadão do mundo
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Marcos Sampaio marcossampaio@opovo.com.br
Chico Alencar
Um dos compositores mais atuantes da música brasileira atual, Lenine conta que está sempre atento à cena: "Quando ouço uma coisa muito bacana, fico no frisson para ligar para os amigos, de ser o primeiro a apresentar"
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A voz é a mesma que deu vida a sucessos que já grudaram na cabeça do público, como Paciência, Leão do norte e Jack soul brasileiro. Seja sussurrada, como quem canta uma balada, seja forte, com o peso do rock, Lenine conversa como se interpretasse um personagem. Junto com os expressivos olhos claros e o gestual expansivo, sua comunicação é ampla e hipnótica. Curiosamente, são esses os mesmos recursos usados nos palcos do Brasil e do Mundo.

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Foi assim, para falar de corpo inteiro, que Lenine recebeu a equipe do O POVO antes da passagem de som do seu show em Fortaleza. Entre a sobriedade de um príncipe e a graça de um moleque, ele contou sobre a infância em Recife, onde morava com o pai ateu e comunista, a mãe católica e macumbeira, e os três irmãos. Seguindo a prosa, ele lembrou os primeiros shows, os parceiros e a chegada ao Rio de Janeiro, onde mora há mais de 30 anos. Comentou, ainda, sobre o amor pelas orquídeas e o asco pela política brasileira. Muitas facetas de um artista que não tem dúvida do seu papel como cidadão: “Eu não faço só entretenimento, cacete. Eu tenho um papel de educador nessa história. Ouso e prefiro acreditar que passa pela educação o que eu faço”.

O POVO – Como começa sua história com a música? Quem foi o primeiro ídolo musical?
Lenine – Acho que é no núcleo familiar, a música já estava presente. Não me lembro quando. Só me lembro de estar ouvindo música, sempre. Nos finais de semana, tinha a coisa do (aparelho de som) ABC Voz de ouro, do meu pai. Aquele com as canelas finas, que era vitrola, rádio. Era o três em um. Rapaz, as memórias mais antigas que eu tenho, mais longevas, a música está presente.

O POVO – E o que tocava nessa vitrola?
Lenine – Tudo (enfático)! Éramos quatro filhos e meu pai e minha mãe. Cada um tinha seu gosto. Tinha tudo, cara. E todo mundo gostava de cantar, todo mundo tocava algum instrumento, todo mundo tinha seu caderninho de músicas preferidas. Então, não bastava você tocar só as suas músicas. Você tinha que tocar o caderninho do outro. Isso dá uma abrangência muito grande por que tinha músicas de vários nichos. Tinha uma intimidade com essas canções. Não me lembro de a música não estar presente na minha vida desde novinho.

O POVO – Seu pai tinha formação comunista...
Lenine – (interrompendo) E ainda vive e ainda tem esse sonho utópico. Ele foi quem me ensinou que entre o cristão e o socialista, a diferença é só a morte. Enquanto um trabalha pra depois da morte ter o paraíso, o outro quer o paraíso aqui, antes de morrer (risos).

O POVO – E sua mãe uma católica praticante...
Lenine – E macumbeira! E macumbeira! (mais risos) Então eu sofro desse sincretismo na base da minha formação.

O POVO – Pois você já adiantou a pergunta. De que forma essas vertentes antagônicas se encontravam no cotidiano?
Lenine – Meu pai é ateu. Ele chega à ideia de socialismo, ele era seminarista. Ia ser padre. Então, é uma série de eventos que gerou esse núcleo familiar. Foi muito bacana por que eles dois foram muito visionários em educarem e criarem os filhos da maneira que criaram. Instigando o conhecimento, instigando diversão, humor. Ainda hoje estão vivos, 94 (anos) o papai e 90 (anos) a mamãe.

O POVO –
E de que forma esses elementos se misturaram na tua cabeça?
Lenine – Não se mistura não. É presente. No que diz respeito à religiosidade, eu tenho um interesse antropológico. E no sentido mais político das coisas, eu tenho um interesse espiritual (gargalha). Agora, ritualizei o que eu faço a ponto de ser uma missa, digamos assim. Fazer música foi a maneira que eu ritualizei o que eu faço a ponto de ser um momento especial, celebrativo, de comunhão e tal. Fazer junto, por isso que é tão importante pra mim. Por isso que o coletivo é tão fundamentalmente importante em tudo que eu faço.

O POVO – E você nasceu em durante o Regime Militar. Como um filho de comunista lidou com essa situação?
Lenine – Por isso que eu sou Oswaldo Lenine. Por que, naquele momento, o tabelião podia exercer a função de pequeno tirano. “Não, esse nome não. Arrume outro. Nome composto eu boto, mas só Lenine não vou botar” (imitando o tabelião). E minha mãe, em homenagem ao pai dela, colocou o Oswaldo, e ficou esse creme rinse com abacate.

O POVO – E alguém da família teve problema com Ditadura?
Lenine – Sim, meu pai foi um. Eu lembro muito da minha mãe fazendo fogueira de livro dele e aquele fumação. Eu era muito novinho, né? Eu sou de 1959. Enfim, eu tenho essas memórias fragmentadas de perseguição. Mas, papai sempre teve essa coisa do poeta, uma sensibilidade muito grande, um olhar artístico sobre as coisas. Então, as pessoas fizeram muita vista grossa por ele. Ele foi preso, mas não foi torturado.

O POVO – E com 20 anos, você trancou o curso de Engenharia Química e foi pro Rio de Janeiro tentar a sorte na música. Antes, queria saber por que escolheu esse curso.
Lenine – Tranquei, achando que ia voltar. Eu gosto muito de Engenharia Química. Eu sou da época que a gente tinha primário, ginásio e científico. Faz tempo (risos). E no final do científico, no terceiro ano, você fazia num cursinho preparatório para vestibular. Então, já naquele momento, eu fiz alguns profissionalizantes, que era uma maneira de tomar conhecimento com alguma coisa que você gostava pra te ajudar a escolher na hora que você fosse fazer um vestibular. Já naquele momento, eu fiz petroquímica, geologia e todos eles tinham o viés da química. Isso continuou comigo. Eu tenho o interesse pelas coisas. Eu sou curioso, cara. Quando entrei na faculdade, cheguei a fazer estágio em análise cromatográfica com antibiótico, coluna e tal. Pude aprofundar um pouco esse universo.

O POVO – E nessa mesma época, você já mexia com música.
Lenine – Eu já tinha feito algumas coisas pontualmente, estudando e morando em Recife. Já tinha feito disco independente, com o (grupo) Flor de Cactus. Mas, naquele momento, sofríamos todos com uma síndrome de vira-lata. O Nordeste no Brasil especialmente. O autoflagelativo, “a gente não faz nada que preste”. Não tinha muito mercado e você tinha duas opções naquele momento: era Rio ou era São Paulo. E eu quis testar realmente. Quis saber o que, realmente, seria um futuro possível para mim. E, em Recife, não dava por que tudo que eu podia fazer já tinha feito.

O POVO – Isso tudo já com um trabalho autoral?
Lenine
– Isso já iniciando, compondo. Nesses cursinhos tinha muitos festivais de música. E eu participei de alguns deles. Aquele momento era um termômetro pra mim.

O POVO – E que impacto teve dentro de casa quando você decidiu largar o curso, aos 20 anos, para fazer música?
Lenine – Eu lembro muito disso. Estava no terceiro ano. Na mesa de jantar, onde a gente tinha plenária pra tudo, eu soltei a bomba. Disse assim: “eu vou trancar a faculdade e vou pro Rio”. Eu passei muito cedo (no vestibular), com 17 anos, e a família, de uma forma muito carinhosa, porque eu sabia o quanto isso era difícil pra eles, me deu uma passagem para ir visitar os primos no Rio. Aquilo foi marcante pra mim porque eu pude respirar um pouco uma cidade efervescente, plural. Eu achava. Hoje, morando, depois de tantos anos, vejo que é bem provinciana. Talvez, a única cidade cosmopolita no Brasil seja São Paulo. Mas, naquele momento, eu me apaixonei pelo Rio. Então, passou um tempo, e, três anos depois, eu cheguei e disse: “ó, pai, vou trancar a faculdade, vou pro Rio, vou testar”. Silêncio total, e ele falou: “por que demorou tanto? Três anos e meio estudando um negócio. Podia ter feito esse teste antes”. Ou seja, até nisso ele é sábio. Jogou tudo na minha mão e eu fui, achando que ia ficar um tempo.

O POVO – Ainda achava que iria voltar...
Lenine – Isso. Era só um teste. Tranquei a faculdade... Essas coisas não têm volta. Coincide com as descobertas do ser humano. Você com 20 anos, a vida... Aí o filho já nasce em seguida. João (Cavalcanti, músico) eu tive com 21, e ele já está fazendo 37. Todos os meus filhos são cariocas. São três. E, na verdade, eu não fui pro Rio. Eu tive a sorte de cair numa cidade do interior, a 50 metros do Rio de Janeiro que é a Urca (risos). É mesmo. Eu tenho conta no padeiro, no cara da farmácia, no barbeiro, no jornaleiro. Dos 38 anos que eu tô no Rio, tô há 30 na Urca. Nos outros oito anos, eu fiquei entre Jardim Botânico, Santa Tereza e Botafogo.

O POVO – E em Botafogo, você morou na Casa 9, que dá nome ao seu selo? (A casa da Rua Teresa Guimarães também abrigou nomes como Jards Macalé, Sônia Braga e Hélio Oiticica, todos em início de carreira).
Lenine
– Ali era uma república, né? Não era a casa onde eu morava. Era uma Faixa de Gaza. Um território ocupado, de paraíbas. E quando eu falo “paraíba” tem essa abrangência. Tô falando no Nordeste, porque, para alguém que não conhece, pode achar que eu tô só restringindo. Não, eu tô abrangendo. Quando digo “paraíba”, é do Maranhão até o São Francisco.

O POVO – Queria saber mais sobre sua chegada ao Rio de Janeiro. Já tinha uma turma esperando lá?
Lenine – Não, todo mundo chegou um pouquinho depois, no final de 1980, 1981. Eu cheguei no final de 1979. Muito dessa ligação se deu porque estávamos distantes de casa. E aí você aproxima naturalmente. Criou-se ali um núcleo duro de criação que gerou muitos trabalhos e que, até hoje, parte desse núcleo é de parceiros meus. Próximos, queridos e cúmplices.

O POVO – E era uma turma de pernambucanos?
Lenine – Tinha tudo. Mais nordestinos. E era assim, dava pra cair (se aproximar). Qualquer pessoa que tivesse de passagem pelo Rio podia cair. Então, era um ponto de encontro de nordestinos. Mas, nem eram só nordestinos, porque ali terminou com a gente se encontrando com vários núcleos de várias regiões do Brasil tentando um espaço, como nós também estávamos. A gente descobre ali que o Rio tinha essa coisa, como São Paulo, de agregar vários brasis ali convivendo. Então, rapidamente, deixou de ser uma coisa nordestina pra ser mais dos excluídos, dos que estavam permeando o acontecimento. A moçada nova querendo um lugar ao sol.

O POVO – Seus dois primeiros trabalhos são divididos. O Baque solto (1983) com o Lula Queiroga e o Olho de peixe (1993) com o Marco Suzano...
Lenine – (interrompendo) Até hoje meus discos são divididos. É porque, no decorrer do processo, você assina uma autoralidade. Mas, essa autoralidade está dividida em vários momentos e de maneiras diferentes em tudo que eu faço. Aqui é a coisa da missa. Como eu ritualizei isso ao ponto de o ajuntamento de várias assinaturas compreendem uma outra maior. Sacou? Tudo meu sempre foi coletivo. Talvez fique mais evidente porque dividimos, no Baque solto (1983) Lenine e Lula Queiroga. Mas, ali, no próprio desenho, tá todo mundo documentado. Ivan Santos, Bráulio Tavares, tá todo mundo ali. Fomos nós dois porque a gente tinha feito um show e o Roberto Menescal viu e disse: “eu quero gravar isso”. Gravamos praticamente ao vivo dentro do estúdio. Mas, sempre foi um núcleo, sempre foi um coletivo.

O POVO – E como foi essa primeira gravação?
Lenine – Foram uns 20 dias, um mês. Mas, era uma coisa em que estávamos testando no palco. Então, o Baque solto foi o início de tudo. O palco, eu já tinha uma vivência com ele. Eu já vinha dialogando com ele e incrementando esse processo. Já tinha algum chão andado com o palco. Com o disco não. Então, o Baque solto sofre muito com essa desinformação. A gente, dois garotos de 21, 22 anos. Isso tudo pesou. A gente não teve ninguém produzindo. Quem nos ajudou num determinado momento foi Luiz Roberto Bertrami. Foi carregado de imaturidade aquele primeiro momento. E só fomos nós dois porque o Menescal viu o show e éramos nós dois. Fazíamos isso à meia-noite no Teatro Ipanema, depois da última sessão de teatro, que terminava tipo umas 23h. A gente tinha que esvaziar tudo, montar o PA, alinhar, passar o som, pra meia-noite começar. Era uma correria.
 
O POVO – E do Baque solto para o Olho de peixe são 10 anos.
Lenine – Isso. Parece um hiato, né? Mas, nesses 10 anos, eu peguei algumas cadeiras cativas nos trabalhos de alguns intérpretes. Elba Ramalho, por exemplo. Eu exercitei a composição de uma maneira muito mais profunda e passei a me encontrar nessa categoria de compositor, mas do que qualquer coisa. Só fiz o Olho de peixe com parte de uma produção que eu me sentia capaz de interpretar. Eu não me sinto capaz de cantar tudo que eu componho. Mais de 50% do que eu componho não canto. O exercício da composição é muito mais abrangente, muito maior. E o filtro é outro. Como intérprete, eu sou péssimo ator. Se eu não estiver 100% entronizado em cada palavra que eu tô dizendo, eu não consigo dizê-la. Como compositor, não. A equação é outra. É tentar entrar na cabeça do outro e imaginar palavras que possam soar verdadeiras e que ele nunca disse. É meio psicótico, velho. É você se projetar. Tem a ver com psicofonia. Tem algumas músicas que parece que foram psicofonadas, que não são minhas, não. Tava ali, eu peguei e, se eu não tivesse pego, o cara da esquina pegava.

O POVO – O som do Lenine mistura influências pop com a tradição nordestina. O mesmo tipo de olhar sobre a tradição, mesmo que com resultados diferentes, foi feito uma década antes por nomes como Fagner, Ednardo, Zé Ramalho, Alceu Valença. Como nunca te ouvi falando que inventou esse ou aquele som, queria saber de que forma essa geração de compositores te influenciou?
Lenine – Não existe ineditismo que resista a uma boa pesquisa bibliográfica. Novo é aquilo que a gente esquece, por isso tem sabor de novo. Meu desejo não é inovar, é aumentar o nível do papo. É só o que eu desejo (risos). A geração anterior também sofreu de uma certa solidão. Eu também senti isso, mas tive a sorte de encontrar com algumas pessoas muito generosas que me ensinaram um outro caminho, de aposta numa coerência. E aí me remonta também ao núcleo familiar. Eu fico me lembrando do meu pai dizendo: “pergunte sempre três coisas: o que você faz? Por que você faz? E pra quem você faz?”. E isso eu nunca deixei de perguntar, mesmo antes de ousar achar que poderia ser músico, compositor ou intérprete. Isso não tem a ver com as gerações. Tem a ver com o ser humano, a tua formação, a maneira como foi criado e a maneira como você acredita nisso tudo. E também por acreditar, em decorrência disso, que eu não faço só entretenimento, cacete.

O POVO – E o que mais cabe no que você faz?
Lenine – Sabe, eu tenho um papel de educador nessa história. Ouso e prefiro acreditar que passa pela educação o que eu faço. Eu prefiro acreditar que, de cada 100 pessoas, duas, quando termina o show, depois de dançar muito e de cantar comigo, vão pra casa e “porra, cara. Ele tava falando sobre isso, isso e isso”. Que são questões que incomodam ou que comovem ao ponto de você se perguntar o que tá fazendo nesse planeta que não tá querendo muda-lo pra uma coisa melhor. Isso, eu não acho que tenha a ver com geração. Isso tem a ver com informação. De que material você é feito. Agora, evidentemente, quando você tem o desejo de fazer música, aí você vai ver o que está acontecendo em volta. E foi justamente Massafeira, Rodger Rogério, aqueles movimentos que estavam acontecendo. Tinha esse intercâmbio entre Olinda, que fazia um festival Chaminé. Eu vi Fagner a primeira vez ali. Vi Ednardo, novinho, todo cabeludo. Riponga ainda.

O POVO – O que você acha dessa noção de geração, de movimentos?
Lenine – As pessoas são levadas a falar sobre movimentos. Mas, todo movimento estético é muito segregacionista. Movimento é um bando de garoto dizendo que “tá tudo uma merda e eu é que tô fazendo a melhor coisa do mundo”. Sempre é assim. É separatista. E eu fico me perguntando é dos solitários. Onde se encaixa aí um Djavan? Onde se encaixa aí um Gonzaguinha? Onde se encaixava aí um Raul Seixas? Onde se encaixa Jorge Ben? O Brasil tem um caminhão de exemplos dos solitários. Eu tenho a impressão de que os solitários são mais solidários por causa dessa coisa. Foi difícil, tem uma hora que acontece, aí você mensura a história, aí já está resolvida uma série de coisas. Já não acreditam no que se fala, para o bem ou para o mal. Tem a coerência de saber o que faz, onde faz e por que faz, e continua sentindo o mesmo desejo e estímulo. Por que, no final das contas, para um criador, se não tiver isso, você deixa de criar. É desejo e estímulo. Rodei, rodei, rodei e nem me lembro o que você perguntou (gargalhadas).

O POVO – Estávamos falando da geração anterior à sua. Mas, eu queria pular para algumas gerações depois. Nos anos 90, você dividiu o palco com Moska, Suzano, Zeca baleiro e Chico César no projeto 5 no Palco.
Lenine – É, foi um projeto da Universidade de São Carlos (SP) que compreendia na gente montar um espetáculo do zero e isso ser exposto. Todo o processo. Todo dia você mudava a lotação do teatro, que era de 400 lugares, por núcleos de estudantes de esferas diferentes, medicina e não sei o que lá. Era muito bacana isso. No final disso aí, a gente montou um espetáculo. O projeto foi tão bacana que a gente rodou São Paulo.

O POVO – Eu lembrei esse trabalho para falar sobre a geração de artistas da qual você faz parte. O que a turma de compositores dos anos 90 trouxe de novo para a música brasileira?
Lenine – É injusto falar isso aí por que eu sou um pouquinho mais velho. Eu e Suzano.

O POVO – Mas essa não é uma geração que surge forte nos anos 1990?
Lenine – Pra você (enfático). Como estou envolvido na história, eu tenho que te dizer. Na verdade é Pedro Osmar (artista paraibano) que é o mentor intelectual de um Chico César. Pedro era meu parceiro de geração. Chico é mais novo que eu (cinco anos). Agora, não faz mais diferença, mas naquele momento fazia. Então, Chico, Zeca e Moska é uma geração um pouquinho depois da minha, cronologicamente. Eu conheci Chico ainda fazendo as primeiras canções. Conheço os primórdios por que sei a alma propulsora, que foi Pedro Osmar. Pedro era mais um desse núcleo duro daqui da minha geração. Eu, Bráulio Tavares, Ivan Santos, Tadeu Mathias, Lula Queiroga, Fubá, Alex Madureira, essa é a minha geração.

O POVO
– Que impacto o disco Da lama ao caos teve na sua vida quando você o ouviu a primeira vez?
Lenine – O impacto não se deu com o disco não. O impacto se deu muito antes deles gravarem o disco, quando eu tava de passagem por Recife e fui assistir num lugar estranho pra caralho, inclusive, que era um galpão esquisito, central, no meio de uma pizzaria. Passava um corredor lá fora e tinha um puta galpão onde eles estavam tocando. Foi muito impactante. No Rio de Janeiro também estavam acontecendo algumas coisas muito... (procurando palavras) Quando a gente fala no Manguebeat, e a gente já falou de movimento e eu te disse que movimento é segregacionista, o Manguebeat não é um movimento por excelência. É uma movimentação maravilhosa, porque não tinha essa unidade estética que todo mundo achava que tinha. Quando a gente fala de Nação (Zumbi), embora seja mangue, é da geração do Planet Hemp, do Rappa. Acho que esse trio aí forma uma trindade de uma música rock contemporâneo que surgiu, praticamente, junta. Só que Chico, como estava isolado lá em Recife, formou junto com uma turma a celebração pelo fazer. Apesar das faltas de condições. O Manguebeat tem essa coisa muito bacana de se ajudar no fazer. Os caras se ajudaram e foi um grande exorcismo. Repare. Minha Recife não fede. Pro Mangue, teve que haver o exorcismo. “Recife fede”, “a lama, “o caos”, “a podridão”. Eu, como saí muito antes, o que levei de Recife não fede. Só cheira bem (risos). Então, tem diametralmente essa coisa. Como eles estavam lá, e a dificuldade de realizar era tamanha, houve um grande exorcismo. Acho belíssimo o que aconteceu com o Manguebeat, mas eu tenho que dizer que não foi um movimento. Foi uma maravilhosa e generosa movimentação, e que abrangeu não só uma expressão estética, mas muitas. A gente pega de um Lirinha a um Mestre Ambrósio, tudo é Manguebeat pra todo mundo. Mas, um é solar, o outro é lunar. Um é interiorano, o outro é litorâneo. Mas, é tudo Mangue. O genial foi isso. Foi um arquétipo. É difícil fazer, né? A gente consegue. Esse tipo de coletividade que surge com o Mangue é que foi pra mim impactante e impressionante. Se você botasse, antes do Mangue, dez caranguejo numa lata, o primeiro que tentasse subir os outros nove puxavam pra baixo. O Mangue chega exorcizando isso. Então o Mangue tem uma coisa muito mais generosa, muito mais abrangente que eu aplaudo.

O POVO – Seus discos apontam para influências e parcerias no mundo inteiro. Como é o trabalho que você desenvolve no exterior? Que impacto esse nordeste pop tem na Europa, América do Norte?
Lenine – Bacana você perguntar isso por que corre simultaneamente com o meu trabalho de uma maneira geral no Brasil. Tinha essa coisa de um diálogo, que começou já no Baque solto, com uma música contemporânea. Porque, na verdade, minha grande influência foi Milton Nascimento. Minha universidade de música foi o Clube da esquina, cara. Foi ele que me deu uma base harmônica, melódica, rítmica, chique e refinada. Aí eu descobri, já no primeiro disco e, depois, confirmei isso no Olho de peixe, esse diálogo que eu poderia estabelecer com essa contemporaneidade. Tinha gente parecida comigo espalhada pelo mundo todo e fazendo uma música contemporânea, misturando esses elementos. De lá pra cá, isso só se intensificou. E eu, realmente, faço isso, tenho vários parceiros espalhados pelo mundo. Tenho lugar pra cair em qualquer lugar desse planeta.

O POVO – Seu Acústico MTV mostra bem isso, com vários parceiros internacionais.
Lenine – Tem sim. Porque você acaba se esbarrando. Esses festivais, principalmente na Europa, acontecem ou no verão e, depois, se você tem uma resposta bacana, você migra e vai pra outros festivais que acontecem no outono, no inverno. Aí, são mais específicos, menos celebrativos, digamos assim. Porque, no verão os caras têm três meses. Então, o músico que toca importa, mas importa mais ou menos. O cara tá ali celebrando o sol, velho. Os festivais de outono e inverno não, que geralmente são em teatros. Você tem um público que é diferenciado. Então, eu fui, ao longo dos anos, de alguma maneira, pulverizando o que eu faço em vários nichos diferentes. Não só na música popular e no rock, ou na world music, mas também na música acadêmica, com orquestras. Isso abre um leque de possibilidades e eu adoro. A gente está lançando agora o Carbono, mas eu já sei que, até o final do ano, já vai ter umas duas ou três experiências que envolvem outras coisas completamente diferentes. Com núcleos completamente diferentes. Isso eu faço sempre e gosto. Me sinto mais vivo sabendo disso. Sabe aquele jogo War? Eu tenho a tabela do War e só falta conquistar a Oceania. É muito bacana, fazendo o que eu faço, gostando imensamente do que faço a ponto de continuar me divertindo e tendo essa certeza de que é um passaporte poderoso. E é bacana por que, na maioria, esses festivais são hippies, digamos assim. Todo mundo come junto. É uma outra cultura. Você, realmente, troca. Tocamos juntos Asian Dub Fundation, Massive Atack. Aí você come junto, janta junto. Isso também é uma puta experiência, uma qualificação. E tem essa coisa bacana de você não estar sozinho, de não ter muito essa distância, que você acha que tem. As coisas são muito menores do que a gente imagina. Tem sido uma constante na minha vida.

O POVO – E com a internet, o mundo diminuiu. O público do mundo inteiro pode ter acesso à música do Lenine.
Lenine – É, mas quando eu comecei não tinha isso e não tinha o euro. Aí, nas turnês que eu fazia, eu saía com o “xequerê local”, como a gente chamava. Eu saía com uns saquinhos (de dinheiro), chegava e dizia, “qual é a grana daqui?” “Aqui é a libra”. Opa! Era uma complicação. Na mesma semana, você cruzava por três ou quatro países.

O POVO – O que mudou na visão do exterior em relação à cultura brasileira?
Lenine – Ah, já mudou bastante. A gente sofre também dessa expectativa generalizante de “o país tropical das bundas”. Existe isso, mas no futebol a gente já se fudeu (gargalha). Já teve um sete a um (na final da Copa do Mundo) que ninguém vai esquecer mais. Em compensação, a gente está há vinte anos numa hegemonia no vôlei e ninguém celebra isso como deveria celebrar. Acho que tem essa coisa. O Brasil começa a ser descoberto, mas o próprio brasileiro começa a descobrir o Brasil, que eu acho que é mais importante. É essa parte do próprio brasileiro médio ter a dimensão real do que é este continente chamado Brasil. Nós que somos felizardos e que viajamos, mesmo assim, a gente não conhece.

O POVO – Há alguns anos, um grupo de compositores se organizou no Procure saber e a pauta que acabou chamando mais a atenção foi a questão das biografias. Você está na foto da Associação, no perfil do facebook. Qual sua opinião sobre toda a discussão que girou em torno do grupo?
Lenine – Você vê como são as coisas. O Procure Saber não surgiu por conta da biografia. A biografia é por causa de Roberto (Carlos) e todo mundo bateu de uma forma insana. Pela primeira vez, um grupo de criadores se reuniu em torno de uma coisa pra tentar entender. Todo mundo bateu o pau. É benéfico pra muito que estejamos isolados. O Procure Saber, que a gente pode chamar agora de “saiba procurar”, é a tentativa da classe de trocar informação. De entender e questionar o que é isso de nuvem. Que negócio é esse de digital. Por que as leis anacrônicas no analógico migraram para o digital dessa maneira? Você vê a incongruência. A gente só quer transparência e entender o que a gente faz. O Procure Saber é essa procura do que é comum a todos e, sob essa égide, transformar transparente o que é obtuso, escuro e oculto. No Brasil, as rádios ainda são por amostragem. Hoje, qualquer nerdzinho tem um software pra identificar a música quando ela toca dois compassos. Ainda hoje, ficam anotando num papelzinho. Escolhem, no meio de 30 rádios, cinco pra fazer uma audição e uma projeção de estimativa. A gente está em 2015, gente! Então, existe um anacronismo muito grande que, associado à falta de interesse de nós criadores, se perpetuou. E tá na hora da gente tomar pé da situação e entender o que foi feito em nosso nome, e o que está se perpetuando em nosso nome, nós criadores.

O POVO – Você é um conhecedor e criador de orquídeas. Como começou essa história?
Lenine – As minhas orquídeas estão a uma hora e pouco da Urca, num sitiozinho que eu tenho na região serrana do Rio. Eu sempre fui um ser litorâneo e não tinha essa descoberta. Por conta dos filhos terem começado a crescer, eu e minha parceira pensamos “a gente podia ter um lugarzinho onde pudesse ver os meninos crescerem, plantar um pomar, fazer um negócio”. Compramos um sítio e a primeira coisa que eu fiz, como ele estava há muito tempo fechado, foi ver o que tinha ali. Aí fui vendo as espécies botânicas que tinham ali. Pra minha sorte, tinha uma planta estranhíssima agarrada numa árvore. O que é aquilo? O caseiro da época disse :“ah, isso é um parasita, tem muito aqui”. Como tava começando o negócio do São Google, aí foi uma paixão fulminante. Descobri esse universo, a especificidade dessa planta, o endemismo associado às minhas turnês, então passei a catalogar associados aos shows que faço.

O POVO – E como está esse catálogo?
Lenine – Virou um banco de memória. Eu parei de contar depois das cinco mil plantas. Cada uma tem uma etiqueta dizendo que espécie é, onde ocorre – eu preciso saber a altitude e a umidade necessária – quem me deu, quando eu ganhei, portanto relacionado ao show que fiz. Então, qualquer época do ano, quando eu vou ao orquidário, eu tenho ali entre 40 e 80 flores diferentes, porque elas são de tempos diferentes, lugares diferentes e florem em tempos diferentes. Eu não sei tudo de cór, então eu vou lá e vejo. “Essa aqui quem me deu foi Dona Beatriz, em Belém, quando eu fiz o Falange canibal”. Então tem esse banco de memória afetiva, que está associado a esse cultivo de plantas. Não sei... Essa paixão foi reverberando de tal maneira que ela não apazigua. Sempre aumenta.

O POVO – Segundo o seu site, já são cinco Grammy Latino, dois da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), nove Prêmios da Música Brasileira...
Lenine – E tu acha pouco? (risos)

O POVO – Não, mas queria saber o que isso representa?
Lenine – O trabalho coletivo. O prêmio só é bom quando a gente ganha. E só é bom mesmo pra gente dividir com quem apostou no fazer. Cada um desses prêmios corrobora o meu caminho, as parcerias e a minha turma.

O POVO – Que leitura você faz do Brasil de hoje, cultural e politicamente?
Lenine – A política é um nojo. Um nojo. Ainda mais agora com a possibilidade que a gente teve de conhecer um pouco mais a Câmara, o baixo clero, o Senado, e ver o quão é rasteiro, o quão aquilo está tomado. Estou generalizando, mas a sensação é horrível, desesperadora porque eu tenho medo de um “foda-se” que possa rolar ou que possa estar rolando há muito tempo no Brasil. E as pessoas se individualizando cada vez mais e gerando um foda-se geral. A “Lei do Gérson” cada vez mais presente e o resto que se foda. Eu não posso acreditar nisso como um futuro possível, cara! E isso passa pelo quê? Pela educação. A gente está vendo aí 16 anos de perpetuação. Os caras falaram, falaram, falaram. Agora, Mujica (presidente do Uruguai) no livro dele dizendo que (o ex-presidente) Lula disse “pra governar você tem que comprar todo mundo” (imitando a voz de Lula) e isso passa impune (Mujica, depois, negou as declarações que estariam em seu livro). São 16 anos, velho! E a base de qualquer civilização é educação. Nesses 16 anos, você viu algum movimento para mudar a educação? Não. A educação exige muito investimento e a resposta disso vem depois. É a próxima geração que vai ter. Mas não tem ninguém fazendo, é tudo imediatista. Eu, realmente, tenho nojo quando abro um jornal diário. Me dá ânsia de vômito a impunidade nesse país.

O POVO – E culturalmente?
Lenine – Culturalmente a gente nunca andou tão bem. Nunca se produziu tanto, à revelia e a reboque dessa elite tacanha. Nunca se ouviu tanta música e agora eu tô puxando a sardinha pra minha praia. Isso é bacana.

O POVO – Mesmo tendo acabado de lançar um novo disco, para onde sua música está apontando agora?
Lenine – (depois de um tempo pensando) Rapaz, não sei muito não. Até porque são tiros diferentes, miras diferentes. No Carbono é um mergulho, no palco é outro. Agora que eu tô começando no palco e tudo leva a crer que eu vou passar uns três anos de estrada, rodando o planeta. Acho que ele tem um futuro promissor.

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