José de Castro Moreira ( Gildo) 09/02/2015

Entrevista com Seu Gildo, o homem da bateria da Unidos da Cachorra

Presidente da bateria Unidos da Cachorra, seu Gildo nunca havia tocado instrumento, muito menos fabricado um. Aprendeu na folia
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Raphaelle Batista raphaellebatista@opovo.com.br
Foto: Tatiana Fortes
O presidente do bloco Unidos da Cachorra, Gildo, é um encantado pela alegria e pelo ritmo dos Pré-Carnavais e Carnavais de Fortaleza
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Na tarde quente do terceiro sábado de Pré-Carnaval, ao som de cuícas e batidas de surdo, seu Gildo, o presidente da bateria Unidos da Cachorra, saiu da rotina de afinação de instrumentos para colocar a cadeira na calçada e conversar. O velho hábito deu o tom da prosa com O POVO. Nada de formalidade, riso solto, talvez um tanto de aperreio -- era preciso finalizar os preparativos do desfile da Cachorra, que abriria a passagem dos blocos pela Rua dos Tabajaras.

 

Um dos personagens mais dedicados ao Pré-Carnaval de Fortaleza, festa que reavivou os dias oficiais de folia na Cidade, José de Castro Moreira (Gildo é apelido “de berço”, herança do avô Ermenegildo) viu a Cachorra nascer. Ali, na porta de casa, na rua Marechal Deodoro, antiga Cachorra Magra. Sem saber tocar, tampouco fabricar instrumentos, aceitou “a responsabilidade” de estar à frente de um grupo de ritmistas. Aprendeu tudo com a bateria. É assim até hoje, durante o ano todo, com ou sem Carnaval.

Veja galeria de fotos com o presidente da bateria Unidos da Cachorra, seu Gildo

O POVO - O senhor veio para Fortaleza com quantos anos?

José de Castro Moreira ( Gildo) - Eu deveria ter 14 a 15 anos. Era agricultor da mata mesmo, papai tinha uma fazendazinha lá em Ibaretama e a gente nascia e ficava por lá. Tinha uma irmã que casou, veio pra Fortaleza e ela foi trazendo os irmãos, dos mais velhos aos mais novos. Eu era o caçula dos homens, fui um dos últimos a vir. Por sinal, achando muito ruim. Acostumado dentro da mata, aquela coisa muito simples, muito silenciosa e chegar a uma metrópole dessa, a gente estranha, né? Aí chegou o tempo, depois, de não querer mais voltar, a não ser nas férias.

OP - Quando chegou, o senhor já foi morar no Benfica?

Gildo - Não. Eu vim morar no Porangabuçu com a minha irmã Nair. Mais precisamente, na rua Nunes de Melo. Até que eu conheci uma jovem, que hoje é minha esposa. E que eu amo demais, faço questão de dizer, minha companheira de 32 anos. Ela se chama Odilva e me deu um filho maravilhoso, o Gildo Filho. Aí, quando casei fui morar no Benfica, na rua Marechal Deodoro, que antes era chamada Cachorra Magra.

OP - Antes de o senhor casar, como era a sua relação com o Carnaval?

Gildo - Sempre gostei de ir para os clubes. Sou casado há 32 anos e conheci minha esposa num Carnaval em Quixadá, no chamado Balneário, que era um clube. Mas naquele tempo era só marchinha. “Bandeira branca, amor” (abre os braços e o sorriso enquanto canta)... aquela coisa mais calma, dentro do clube, com as fantasias e tal. Mas eu sempre gostei da palavra Carnaval. No meu tempo de rapaz, era só clube, como aqui em Fortaleza. Mas eu ia sempre pra lá. Era sagrado: na quinta-feira, véspera de Carnaval, já tava arrumando as malas. A gente tinha um terreno lá, eu ficava na fazenda e à noitinha pegava o transporte e ia pra Quixadá. Aí no outro dia, voltava pra fazenda. Mamãe querida fazia o famoso caldo de caridade. O filho chegava todo ressaqueado e ela dizia: “Chegou agora, meu filho? pois tem um caldinho pra você lá na panela!”. Ô, rapaz! Revigorava tudo! (risos) Eu ainda ia tomar um banho de açude. Quando chegava a Quarta-feira de Cinzas, tava eu lá, morto de triste, sem nem um tostão no bolso, ressaca, mas com saudade do Carnaval. “Daqui um ano de novo!”, pensava. Ave Maria, era uma eternidade! (risos) Aí eu casei com a minha esposa e fui já saindo um pouco. Lá o Carnaval de clube foi acabando também e a gente ficava aqui na Capital. Ia pros clubes aqui, mas era raro, ficava mais vendo as escolas de samba pela televisão.

OP - Como começa a sua relação com a bateria do bloco Unidos da Cachorra?

Gildo - Antes eu não sabia nem o que era uma bateria, a não ser pela televisão. Eu sou autônomo, trabalho com vendas e como artesão na fabricação de instrumentos de percussão. O artesanato que eu pratico até hoje é devido à bateria. Como morava na Cachorra Magra, que é um celeiro, um reduto de artistas, um bairro muito cultural em matéria de samba, comecei a conhecer. Como eu lhe falei, a rua cheia de artistas que gostavam do samba e tal, surgiu um bloco chamado Porra da Cachorra. Era um grupozinho de percussionistas que tinha mais metais, tocava marchinhas. Isso em 1998. O presidente era o Paulo Brasil. Eu, como morador, ainda jovem, ia pra calçada ver a marchinha. Era muito bom, sempre acompanhava, todos os sábados. Aí eu fui olhando, gostando, gostando, pegando as amizades, quando foi em 2002 a Porra da Cachorra parou. A Marechal Deodoro ficou sem Carnaval pras famílias.

OP - Foi aí que surgiu o bloco?

Gildo - Então, a gente ficou pensando: “E aí, por que parou? O que vamos fazer? Rapaz, vamos fazer aqui um blocozinho pra gente continuar a brincadeira, é família, muito bom, todo mundo gosta. Mas vamos fazer um estilo diferente? Não vamos colocar só marchinha, vamos fazer bateria! Vamos arrumar uns instrumentos”. Aí pega daqui, pega dali. Aquela coisa improvisada, que é muito bom. Improviso é muito bom, né? Aí começamos, 15 a 20 pessoas fazendo batucada na rua. Mas precisava de uma pessoa pra assumir as responsabilidades. Como a minha casa antes era a sede de outros blocos, como As Bruxas, que meu cunhado tomava conta, eu falei com a minha esposa. Porque a mulher é a dona da casa e ela é quem manda, né?! Eu disse: “minha filha, você aceita eu assumir a bateria como presidente, vai ter um trabalhozinho, você me ajudando numa coisa e outra?”. Ela disse: “assuma pra que a gente tenha nossa brincadeira”.

 

OP - Já nasceu como Unidos da Cachorra?

Gildo - Não. Aí fomos fazer um plebiscito pra escolher o nome. Mas nós tínhamos que deixar Cachorra. Podia ser Unidos da Cachorra, Nossa Cachorra, Cachorra Marechal, Cachorra do Benfica, mas tinha de ter a palavra “cachorra” pela história da rua. Aí fizemos a votação e ficaram três nomes: Nossa Cachorra, Cachorra Marechal e Unidos da Cachorra. Votaram, votaram e escolheram Unidos da Cachorra. E é até hoje. Desde 2003. No dia 5 de novembro de 2003 foi quando a Unidos da Cachorra aflorou. Começou pequenininha, mas graças a Deus foram chegando outras pessoas que gostavam e que entendiam. Porque tem uma relação muito boa entre entender e gostar. Você faz uma coisa, mas se você gosta você faz com mais ênfase, com mais vontade. Como a rua já era um celeiro de artistas que gostavam (de samba), foram surgindo outros amigos que vinham, chegavam, gostavam e ficavam, dando mais apoio, mais qualidade e crescendo em quantidade e qualidade. Até hoje nós estamos crescendo, sempre melhorando, porque ninguém é perfeito, e a Cachorra não é perfeita. É uma bateria de brincadeira, de irreverência, de você chegar e ficar bem à vontade. Eu sempre digo que a Cachorra é uma outra família que você você vai escolher. Eu tenho essa bateria como meu terceiro amor. Como diz aquele cantor (Fernando Mendes), “eu tenho dois amores”, mas eu tenho três amores. Minha esposa, meu filho e essa bateria.

OP - O senhor disse que antes só assistia ao bloco na rua, que só conhecia bateria pela tevê, mas como o senhor assumiu o Unidos da Cachorra? Sem saber tocar?

Gildo - Exatamente. Eu era leigo em qualquer samba, só fazia ouvir. Sempre gostei de samba como gostava de qualquer música. Dependendo do ambiente, do horário. Eu adoro forró, adoro samba, adoro Roberto Carlos, música romântica eu adoro. Mas tinha de ter uma pessoa pra assumir, que tivesse um ponto de apoio pra que fossem feitos os instrumentos, as reuniões. Aí como a minha mulher disse “fique à vontade”, então eu tava com o queijo, a faca e a vontade de sambar! (risos) Aí comecei. Depois enraizou. Essa Cachorra é aqui dentro (bate no peito) e não vai sair nunca.

OP - E qual foi o primeiro instrumento que o senhor aprendeu a tocar? Alguém o ensinou?

Gildo - Foi o surdo de terceira. Olha, o importante é você ter ouvidos, aprende de ouvido. Se você tiver ouvidos você aprende a tocar qualquer instrumento. Ter perspicácia de ouvir a batida pra ter noção. Aí fica mais fácil de aprender, bem mais fácil, principalmente percussão.

OP - E o senhor já tinha o instrumento? Ganhou?

Gildo - Todos os instrumentos desta bateria foram feitos por um rapaz chamado Gildo, esse que vos fala. Não sabia tocar, nem sabia fazer. Pra tocar, é ouvido. Pra fazer, a gente pega o molde, vai fazendo, vai errando, vai consertando, até chegar a um bom instrumento. E, modéstia à parte, meus instrumentos são bons. Já fiz pra todas as baterias aqui de Fortaleza e as de fora. Uso o couro de bode pras marcações. Sempre vem mestres aqui que a gente convida e ficam lá em casa, veem a minha oficina. Eu faço porque eu gosto de fazer, eu gosto de samba, gosto da bateria e gosto de fazer instrumento. É unir o útil ao agradável.

 

OP - Depois que foi criada a bateria Unidos da Cachorra, vocês ainda ficaram um bom tempo na Marechal. Como acontece o movimento para a Praia de Iracema? Por que decidiram migrar?

Gildo - A gente dava uma voltinha na rua. Não era ainda fomentado pela Prefeitura, pela Secretaria de Cultura, era a ajuda dos vizinhos pra fazer um estandarte, criar um abadá, qualquer coisa. Já fazíamos o Pré-Carnaval, não como hoje, mas a gente fazia, por espontânea vontade. Sempre nos sábados, à tardinha pra noite. Mas a Marechal Deodoro se tornou pequena pra bateria, porque ela foi crescendo tanto em qualidade como em quantidade de ritmistas e as pessoas foram chegando, chegando. A rua não comportava. E alguns moradores começaram a não gostar, chegavam no domingo batendo na porta da minha casa dizendo: “Seu Gildo, seu Gildo! A bateria é muito boa, você para na hora certa, mas o problema são os garotos do carro-de-som, que ficam depois da bateria até altas horas da noite tomando cerveja!”. Então, isso foi criando um problema social na rua. Espaço pequeno, bateria crescendo, muito querida, então ia chegando gente de todo canto. “Vamo pra Cachorra, vamo pra Cachorra!”. Foi quando surgiu o primeiro Pré-Carnaval ditado pela Secretaria de Cultura, em 2007.

OP - Foi quando vocês saíram da Marechal.

Gildo - Isso. Aqui no Dragão tem uma boate chamada Buoni Amicis, do Célio (Paiva). Por intermédio do (jornalista e sambista) Felipe (Araújo), que falou com ele, disse como era lá, o Célio foi ver. Aí viu a boa qualidade da nossa bateria, já eram uns 60 ritmistas, então ele chamou a gente pra vir tocar no espaço dele. Nós viemos. Foi uma explosão. Uma multidão, uma coisa maravilhosa, nós só podíamos agradecer ao povão que nos acolhia.

OP - O que o senhor sentiu quando viu a Cachorra tomando essa proporção tão grande?

Gildo - Eu senti um medo! Porque a coisa cresceu tão rápido, e em boa qualidade, que é o mais importante. Cresceu em qualidade e em quantidade. Quando a bateria ia sair, eu ficava tenso. Tava crescendo numa proporção que, sei lá, demais. Vixe, Maria, será que vai dar certo? E aí fomos fazendo mais instrumento, mais instrumento, mais instrumento, e aparecendo mais gente. Ficamos no Célio dois anos, depois viemos pra Órbita, passamos mais dois anos, mas nesse tempo ninguém ia pro Aterrinho. Aí depois passamos a finalizar no Aterrinho.

OP - Mas o senhor queria sair da Marechal?

Gildo - Aí eu digo pra você: sair da Marechal, pra mim, não foi bom em termos de conforto pra mim, era na porta da minha casa, guardava tudo lá, 22h30min parava. Mas, principalmente, porque ela (a bateria) nasceu lá. Eu não queria que tivesse saído, mas devido a estar crescendo, crescendo e absorvendo muita gente, tivemos de vir pra cá. Mas aqui é muito bom. E no Benfica não morre.

OP - O senhor tem vontade de levar essa bateria da Cachorra pra tocar de vez em quando lá?

Gildo - Posso ser sincero com você? Eu não tenho vontade, não, eu morro de vontade! (risos) Agora, infelizmente, a Secretaria (de cultura de Fortaleza) não aceita, assim, porque lá já tem os blocos, a rua não suporta. Mas eu queria, não voltar definitivo, mas ter a oportunidade de levar para onde nasceu a bateria, para aquelas pessoas que sempre perguntam “Seu Gildo, quando é que vem aqui a Cachorra?”. Mas a gente não pode, porque tem o edital, as regras que a gente gosta de cumprir.

OP - Seu Gildo, o senhor contou que quando a Cachorra começou a Prefeitura ainda não apoiava. Hoje o Pré-Carnaval conta com outros blocos de bateria, ganhou uma proporção até maior que o Carnaval de Fortaleza. O senhor acha que a Unidos da Cachorra ajudou a criar esse outro momento do Pré?

Gildo - Hoje o Pré-Carnaval de Fortaleza é muito importante pra cultura popular, pra cultura do samba, pra essa irreverência carnavalesca que existe no Brasil todo. O Pré-Carnaval de Fortaleza nasceu, cresceu e não vai morrer nunca. A não ser que as autoridades queiram parar de vez. Mas eu acho que mesmo parando, essa bateria vai fazer alguma coisa, nem que seja no meu quintal, mas esta aqui não morre nunca. O Pré é de uma importância muito grande pra cultura, pros turistas. A gente faz o ensaio aqui, todos os sábados vem turistas de todas as qualidades, olha, samba, brinca. Isso pra gente é a coisa mais importante do mundo.

OP - O senhor já teve de fazer algum sacrifício pela bateria?

Gildo - A minha mulher diz assim: “Meu filho, você já tem 60 anos e não perde um sábado nessa bateria”. Aí eu digo pra ela: “É a minha diversão”. Eu saio de casa meio-dia, todos os sábados, independente de Pré-Carnaval, pra vir pra cá (o local de ensaio, na rua José Avelino). E é realmente bem quentinho, como você tá vendo (a entrevista aconteceu às 14 horas, na calçada). Aí eu venho, com meu jeitinho de ser, pego meu “onibuzinho”, venho, depois volto pra casa 19 horas. O ano todo. Então, o sacrifício é esse. Mas tem outra página: o prazer de ver as pessoas brincando, extravasando. O que dá prazer à gente é isso. Não se faz Carnaval, nem Pré-Carnaval pra ganhar dinheiro. Se faz Carnaval e Pré-Carnaval pra se divertir!

OP - O que o senhor acha que o Carnaval de Fortaleza ainda precisa?

Gildo - Precisa de muita coisa. De vontade dos políticos, da Secretaria de cultura, tanto de Governo (do Estado) como de Prefeitura. Tem muita gente que ainda viaja pro Interior. Se aqui tivesse um Carnaval bom, bem estruturado, bem organizado, não digo só pelo dinheiro, não. Não é só isso. (Que) Ajudasse e exigisse a qualidade. Aí você ia ver pouca gente sair pras cidades do interior. O Carnaval da (avenida) Domingos Olímpio é bom, é povão, mas não é assim uma coisa que chame você, pra você dizer que “adorou”. Mas poderia ser muito bom, porque tem blocos, tem afoxés, tem maracatu. Que são as raízes da gente. Pra crescer mesmo, tínhamos de ter muita boa vontade, não só financeiramente, mas em termos logísticos em geral, apoio, estrutura, organização. Tudo isso tem, mas poderia ser bem melhor.

OP - O senhor se imagina sem a Unidos da Cachorra?

Gildo - Se um dia eu tiver que sair dessa bateria não vai ser por minha vontade. Às vezes a saúde impede, mas falei pra você que eu tenho três amores, minha mulher, meu filho e essa bateria. Se, por ventura, acontecer de o Gildo ter de se ausentar da bateria, temporário ou definitivo, eu vou sentir muito… porque eu amo essa bateria! Essa bateria quando sai eu fico todo arrepiado. Eu lhe digo com toda sinceridade, independente de eu ser o presidente, porque nós somos presidentes, todos que fazem essa bateria são presidentes, todos são iguais. O importante é fazer essa bateria melhorar cada vez mais, crescer em todos os sentidos, com qualidade, respeito, decência, irreverência e, acima de tudo, paz. Nessa bateria, nunca vi uma desavença. Isso qui é uma família, você só venha pra cá com o sorriso aberto, pra sair de casa e dizer assim: “vou ali na minha outra família, vou sambar na Cachorra, vou me divertir na Cachorra”. Quando eu chego em casa, depois do percurso, eu chego em casa morto de feliz! Porque deu tudo certo. Estafado um pouco, mas morto de feliz!

 

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