PATRIMÔNIO 11/01/2017

Jesus, Marias e Josés

Ocupação de prédio histórico por famílias sem teto completa seis meses hoje. Local oferece risco de desabamento, agravado pelas recentes chuvas
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Jáder Santana jadersantana@opovo.com.br
JÚLIO CAESAR
Famílias vieram de diferentes bairros da periferia de Fortaleza e aguardam serem beneficiadas por programas de habitação da Prefeitura


Depois da chuva do último domingo, 8, os espaços ocupados na Escola Jesus, Maria e José, no centro de Fortaleza, ficaram ainda mais exíguos. De suas quase vinte salas, erguidas há mais de um século para evangelizar crianças pobres, apenas duas estão devidamente fechadas para o tempo. Quem acordou na madrugada com a cabeça molhada, arrastou colchões e redes para buscar abrigo em outros espaços, superlotando as salas protegidas. No dia seguinte, as rotinas ainda estavam fragmentadas.


 

O Vida&Arte visitou o local na manhã de segunda-feira, 9, e encontrou moradores preocupados com as consequências da quadra chuvosa. O cheiro de mofo não desapareceu, a madeira dos pisos começa a ceder, as telhas e o forro despencam sobre as cabeças - há alguns dias, uma criança e um idoso foram atingidos enquanto dormiam. “Meu quarto está alagado, passamos dois dias limpando mas ainda tem muita infiltração. Perdemos muita coisa”, diz um dos moradores, que divide espaço com a esposa grávida e prefere não se identificar.


Os ocupantes começaram a chegar ao local no dia 11 de julho do ano passado, há exatamente seis meses. Eram 150 famílias, oriundas de diversos bairros da periferia de Fortaleza e apoiadas pela coordenação estadual do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB). “No início, as pessoas fizeram uma arrecadação coletiva de alimentos, mas eles acabaram, e agora é cada um por si”, conta outra moradora.


Das 150 famílias iniciais, permanecem no local 120. Além da chuva e da estrutura deteriorada do prédio, também é problema a falta de alimentação adequada. “A gente tem que ter esperanças, mas é difícil. Pra ter o que comer, minhas filhas vão pedir ajuda nas ruas, vão pedir frutas na Ceasa (Centro de Abastecimento do Ceará)”, lamenta Conceição Bezerra, que morava de aluguel no bairro Henrique Jorge antes de se mudar para a Escola com a irmã e duas filhas.


Os moradores também convivem com a sujeira acumulada na fundação do prédio. Em diversos cômodos, onde o piso de madeira cedeu, é possível ver lixo amontoado. A água infiltrada vem apodrecendo as estruturas, e as crianças apontam os lugares onde o assoalho está prestes a afundar. “Nós estamos morando com os ratos. À noite, vemos eles passeando pelo piso e pelas vigas no telhado”, conta Francisco Moura, que se somou à ocupação ao lado da esposa e que trabalhava vendendo cocos no bairro Antônio Bezerra.


Segundo Gleidson dos Santos, coordenador estadual do MLB, o movimento espera desde 2011 pela entrega de casas. “No ano passado nós conseguimos 33 delas, mas estamos esperando outras 100. A prefeitura já disse que vai suspender a reintegração de posse até que as casas sejam conseguidas, e disseram que até março vamos ter uma resposta”, afirma. Os moradores da Escola esperam ser contemplados com uma das unidades inauguradas pelo programa Minha Casa, Minha Vida no conjunto habitacional José Euclides, no Jangurussu.


Enquanto esse dia não chega, as famílias que ocupam o prédio ganham apoio de pessoas que simpatizam com a causa e compartilham da mesma necessidade. Dona Graça, do Antônio Bezerra, deixou marido e filha para se juntar à ocupação. “Meu esposo é manobrista e a gente paga um aluguel de R$ 300 por uma casa com dois cômodos e um banheiro. Eles apoiaram minha decisão, e eu estou aqui porque tenho a esperança de conseguir alguma coisa”, conta.

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