CD. LANÇAMENTO 08/10/2015

Elza sacode a poeira

Apontado como um clássico instantâneo, A Mulher do Fim do Mundo traz Elza Soares cercada da nova cena de compositores paulistanos
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Ellen Chelsea cotidiano@opovo.com.br
STÉPHANE MUNNER/DIVULGAÇÃO
Aos 78 anos e se recuperando de cirurgia na coluna, Elza Soares canta as dores e dificuldades da vida em álbum de canções inéditas

 

A primeira faixa, Coração do Mar (José Miguel Wisnik/Oswald de Andrade), é à capela. A voz de Elza Soares parece que vai falhar, mas nas sombras ela ilumina o início de tudo: “O navio humano, quente, negreiro do mangue”.


É o prólogo de um passeio pelos círculos do inferno de hoje. No já histórico CD A Mulher do Fim do Mundo, os sons e os versos das 11 canções inéditas são do núcleo de compositores e músicos paulistas formado por, entre outros, Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Romulo Fróes, Clima, Marcelo Cabral, Guilherme Kastrup e Celso Sim.


A primeira etapa da saga é Mulher do Fim do Mundo (Romulo Fróes/Alice Coutinho), Elza como a narradora que viu e viveu tudo, perdeu dois filhos e agora vai registrar o apocalipse sem meias palavras.


Na canção, a desintegração se dá no Carnaval, a “pele preta”, a voz e o resto espatifados na avenida. Elza agoniza mas não morre, pede que a deixem “cantar até o fim”, e as notas longas da segunda parte traduzem o cansaço e a persistência.


Maria da Vila Matilde (Douglas Germano) trata da violência doméstica. A mulher reage: “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”. Distorções sonoras se misturam à melodia. Samba ao rock e ao rap. Não é o fim da canção, mas a canção do fim.


Em Luz Vermelha (Kiko Dinucci/Clima), com rap e punk rock sobrepostos, o apocalipse é recortado em cenas de periferia, tiroteio, ruas esvaziadas. “O mundo vai terminar num poço cheio de merda”, diz a letra.


Palavrões

No CD, a favela (ou as “quebradas”) é o cenário do fim do mundo (ou do Brasil) e o lugar de onde ele pode ser reconstruído, pois ali se dão as maiores violências contra o ser humano. A reação ante a destruição sistemática é a chance de um renascer das cinzas, como Elza fez por toda a vida.

 

Se o disco é sobre um tempo sem delicadeza, palavrões são naturais. Um virou título, Pra Fuder (Kiko Dinucci), samba rápido em que o tesão é cantado sem frescura e alardeado pelo naipe de metais. Elza é quente, não é “Frozen”.


Lirismo também não tem vez em Benedita (Celso Sim/Pepê Mata Machado), sobre a transexual que traz no corpo todas as violências sociais, mas nunca se rende. Vive à beira do fim do caminho, em meio a paus e pedras. Guitarras distorcidas e metais dão o clima.


Em Firmeza?!, Rodrigo Campos tornou mantras as frases e gírias que deve ouvir no bairro de São Mateus, seu berço. Angústia e fraternidade saem da música, gravada por Elza em duo com o autor.


O tango Dança (Cacá Machado/Romulo Fróes) se situa depois do fim. A narradora está morta. Porém, já quase pó, insiste em dançar. Elza não desiste.


O Oriente chega na sonoridade e na letra de O Canal (Rodrigo Campos). O arranjo segue no ritmo da caminhada feita em busca de algo, talvez renascer.


Em Solto (Marcelo Cabral/Clima), como o título e as notas soltas indicam, a travessia é solitária, sem nada mais. “O meu corpo/ Caminha/ Na minha sombra.” É a única faixa sem guitarras ou distorções.


Elas voltam no início de Comigo (Romulo Fróes/Alberto Tassinari). O crescendo ruidoso estanca de repente, e Elza ressurge à capela, em tom de oração, de lamento sertanejo. “Levo/ Minha mãe/ Comigo/ Pois deu-me/ Seu próprio ser.”


E vem o longo silêncio do fim de tudo. Mas, no fundo, ainda se ouve a voz de Elza. Ela insiste. Um recado para nós. (Luiz Fernando Vianna, da Folhapress)

 

SERVIÇO

 

Elza Soares – A Mulher do Fim do Mundo

Participações de Celso Sim, Bixiga 70, Rodrigo Campos e outros

Circus/Natura Musical

11 faixas

Preço médio: R$ 30

espaço do leitor
Ademir Oliveira Silva 08/10/2015 16:12
Elza Soares é daqueles artistas que a critica adora elogiar, mas não compra o cd.
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