Artigo 10/03/2013

A poesia-pensamento de Leminski

Em primeira mão, trecho da apresentação escrita por Manoel Ricardo de Lima para a antologia de Paulo Leminski intitulada Yo iba a ser Homero, a sair em Barcelona, pela Kriller71 Ediciones, com tradução de Aníbal Cristobo
Compartilhar


No final de um pequeno ensaio intitulado “México”, Paulo Leminski escreve acerca do rei de Texcoco no século XV, Nezahualcóyotl, e de algumas inovações teológicas que este teria imposto como, por exemplo, o fim dos sacrifícios humanos e, em seu lugar, o sacrifício de cobras, borboletas e a destruição de objetos de jade: “O testemunho é suspeito. O que não pode ser posto em dúvida, porém, é a condição de poeta do rei Nezahualcóyotl. Dele, esta queixa sobre a impermanência das coisas: ‘Vivermos, será que na vida se vive? / Não para sempre na terra, / só um pouco no tempo. / Jade sela, jade quebra, / ouro, desdoura, / pena de quetzal, pena voa. / Não para sempre na terra, / só um pouco no tempo’.”

 

As imagens do ‘testemunho suspeito’ e da ‘impermanência’, como aquilo que sobrevive no tempo, dizem muito do trabalho de Paulo Leminski. Escritor brasileiro singular, nascido filho de negra com polaco, 1944, em Curitiba, ao sul do Brasil, cidade tardia, fincada sobre a serra e muito gelada. Curitiba é mais uma cidade exemplar da deriva inespecífica e muito própria da composição antropológica e cultural brasileira (com essa gente ainda desterrada em sua própria terra): enquanto cumpre o lugar incerto da mestiçagem também figura a convicção deliberada de sua atribuição social errônea.

 

Leminski nos avisa num outro pequeno ensaio, intitulado “Momentos da criação”, que “Assim como não há raças puras, também não há códigos puros.” Ele defende o tempo inteiro como política incondicional a partir de sua própria persona a ideia de uma contaminação possível da literatura consigo mesma e com outras linguagens: “outros códigos, outros recursos, outros meios. Nem que seja só em pensamento.”

 

Morto em 1989, num misto de sagração e mistério posterior porque muito jovem, aos 44 anos, como Fernando Pessoa, estabeleceu-se aí duas doses díspares à condição simplória sob a qual ainda se lê a escritura de Leminski: primeiro, como autoridade recheada de um pathos recuperado da tarefa pouco cumprida pelo projeto romântico da modernidade brasileira, projeto que desaguaria diluído em alguma poesia mal formada e notadamente anódina praticada principalmente no centro econômico do País nos anos 1970; e depois, como um eixo localizado no improvável desse período, num país esmagado pela ditadura militar, da imposição de que era preciso ajustar-se a um lado da política de representação, direito ou esquerdo.

 

Leminski opta, com o seu trabalho de escritura, por uma “resposta criativa”, como ele mesmo sugere, numa tentativa de interrupção da catástrofe. Daqui em diante já podemos começar a entender que todo o trabalho de Leminski em nenhum momento pode ser lido apenas num resumo que se vincula aos poemas que escreveu e que agora são apresentados em Toda Poesia. Com esses poemas é possível mover e expandir a sua escritura no que ela nos impõe como impulso para fora da história e, ao mesmo tempo, composição de um alter, de uma alteração, que aparece – por exemplo – nesse primeiro fragmento do poema intitulado “Contranarciso”: “em mim / eu vejo o outro / e outro / e outro / enfim dezenas / trens passando / vagões cheios de gente / centenas // [...]”.
É diante dessa suspeição, a importância de tocar esse UM

 

OUTRO, que vale lembrar o gesto, como registro, de sua participação na Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em 1963, na cidade de Belo Horizonte, sudeste do Brasil, quando tinha então 19 anos. Leminski se lança para conhecer os poetas que mais lhe interessavam naquele momento, os concretistas brasileiros – Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari – e alguns críticos, principalmente Benedito Nunes. Dizem que Leminski, quando soube da Semana, teria ido até lá de carona. E mesmo que isto seja um fato já faz parte da consagração e do mito; mas o pathos é outro: Leminski não foi oficialmente convidado para a Semana.

 

A extremidade do gesto a-funcional e anti-institucional, que tem a ver diretamente com a atribuição da poesia, tem a ver também com o que ele postula interrogativamente ao compreender que há uma violência paradoxal na cultura letrada brasileira: “A cultura letrada já tem um destino, no Brasil. Uma história, uma direção, um sentido.” E argumenta: “De momento, porém, como falar sobre público para um povo em sua maioria como o nosso?” Ou seja, num país como o Brasil é preciso ensinar a ler e a escrever e também, num esforço de contato, trabalhar por uma sofisticação máxima da cultura letrada.

 

Há uma possibilidade aí de pensarmos que Paulo Leminski é um poeta-crítico dos mais vinculados ao seu tempo, às questões mais impertinentes da cultura e à certa tradição de literatura produzida no Brasil. O seu trabalho nos coloca o tempo inteiro no plano do inespecífico, na insuficiência da linguagem, numa memória ativa sem mecanismo ou domesticação.

 

Por isso, sua escritura solicita ser lida em sua zona contaminada, logo sofisticada e desejante; na armadilha do indistinto entre o poema, o ensaio, a narrativa, a letra de canção etc, provocando uma temporalidade impermanente que podemos chamar de POESIA, de invenção, de trabalho de poeta: “uma maneira de sair da maioria”. Talvez por isso, só em 1983 publica o seu primeiro livro de poemas, depois da experiência do Catatau e no mesmo ano de Agora é que são elas, intitulado Caprichos & Relaxos. Depois, em 1987, publica Distraídos Venceremos.

 

Há ainda os livros de poemas com publicação póstuma, La vie en close, de 1991, e O ex-estranho, de 1996. As cartas que escreveu para o amigo e poeta Régis Bonvicino, que as organizou em dois volumes procedentes: Uma carta uma brasa através, 1992, e Envie meu dicionário, edição fac-similar, 1999.

 

Numa dessas cartas, que são também uma zona contaminada entre o ensaio e o poema seguindo os paradoxos do fragmento, Leminski escreve: “fazer poemas não é a coisa mais importante / mas para quem faz é / e tem que ser assim” e “não quero fazer carreira literária / acho que estamos depois da literatura”. No meio disso tudo, o belo livrinho Guerra dentro da gente, de 1988. E uma série de traduções com soluções interessantíssimas: Ferlinghetti, John Fante, Joyce, Petronio, Mishima, John Lennon, Alfred Jarry, Beckett etc. E os dois volumes de ensaios a que chamou generosamente de Anseios Crípticos, como um anúncio do acerto impreciso de sua poesia-pensamento.

 

A poesia de Leminski é ainda uma zona de atrito, tem a ver com a vida das formas, com erotismo e desespero. É quando o poema ensina a resistir, a cair, para manter a sua “infinita estranheza (o impoder da literatura, a qual, recusando submeter-se a qualquer modelo, também não pretende provocar qualquer submissão), relação que não classifica, não hierarquiza”. A poesia de Paulo Leminski é uma articulação daquele que entende que para operar o poema num enlace com a modernidade precisa-se constituir um processo histórico impermanente, descontínuo e anacrônico; ou seja, a modernidade é aquilo que leva a nada: “Todos os homens são, enfim, herdeiros da produção cultural de todos os homens, de todos os povos, de todas as épocas”, afirma ele num ensaio que recupera a sobrevivência do quase invisível, da miniatura; ensaio intitulado, não à toa, de “Bonsai”. (Edição e publicação autorizadas pelo autor)

Manoel Ricardo de Lima é poeta, professor de literatura (UNIRIO). Publicou, entre outros, Entre Percurso e Vanguarda – alguma poesia de P. Leminski [(nnablume, 2002) e Jogo de Varetas (7Letras, 2012).

Compartilhar
espaço do leitor
Nenhum comentário ainda, seja o primeiro a comentar esta notícia.
0
Comentários
300
As informações são de responsabilidade do autor:
  • Em Breve

    Ofertas incríveis para você

    Aguarde

ACOMPANHE O POVO NAS REDES SOCIAIS

Erro ao renderizar o portlet: Barra Sites do Grupo

Erro: cannot identify image file <cStringIO.StringI object at 0x42ceb58>

O POVO Entretenimento | Vida & Arte