Edgar Linhares 30/03/2014

- AS DENÚNCIAS -

Edgar Linhares, presidente do Conselho de Educação do Ceará
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"Em 1964, eu estava no segundo ano de professor de Português na UFC. Fiz um esforço grande para desenvolver a quantidade de leitura dos alunos e a capacidade de analisar - e criticar - o que eles viam. Para muitas pessoas, ensinar a pensar é uma forma de fazer subversão. A ditadura sobrevive com todo mundo pensando como os ditadores pensam. Isso é exatamente o inverso do trabalho de um professor de Português. Eu não era propriamente um subversivo, eu era um pensador. Ensinava a pensar. Fui muito marcado.

O reitor da época me chamou e aconselhou a fazer o mestrado. Eu indaguei, disse que ainda não queria fazer. ‘Não, vá fazer, agora está bom para você ir’, me diziam. E resisti muito tempo. Até que, em certa altura, fui fazer o mestrado. Essa perseguição cessou, pois desapareceu a minha presença como subversivo. (...)

Em mim não ficou nenhuma herança (de 64 e 68). Tenho algumas lembranças de pessoas com quem eu convivia. Uma amiga, que era próxima do responsável pelo comando à subversão, me recomendou que fosse falar e ouvir. Fui para essa entrevista. Ele (comandante) mandou um subordinado falar comigo. Perguntou se eu conhecia o Lauro Oliveira Lima. Uma conversa muito tranquilo. Me disseram que havia uma acusação escrita de subversão na educação de adultos. Ele mostrou escondendo a assinatura da denúncia com a mão, mas eu puxei e vi o nome do denunciante (risos). Era um dos chefes da minha repartição. (...)

Eles não perseguiam os mais jovens. A perseguição era com a liderança. Queriam me controlar. Mas o mais interessante é que as denúncias – cheguei a saber de quase todas – vinham de colegas. Eles nos viam como concorrentes profissionais; era uma forma de colocar a gente de lado. Mas eu nunca tive medo dessas coisas. Nunca me preocupei em salvar emprego. (...)

Os jovens que mais discutiam as coisas eram considerados subversivos. Eu realmente fui considerado assim por alguns grupos. Duas razões: primeiro, eu era da Juventude Universitária Católica. E nós, da JUC, nos considerávamos muito mais subversivos do que o conceito de subversão imposto pelos militares. Eles tinham as razões do ponto de vista de segurança pública. Nós tínhamos as razões do ponto de vista de percepção de mundo.

Os meus adversários pessoais, do ponto de vista técnico e pedagógico, entenderam de me denunciar. Os militares estavam preocupados. Vendo de hoje, se eu estivesse no Exército, também ficaria. Pois havia essa divisão entre a democracia americana e o comunismo russo. Naquela época, eu não queria saber de política. Minha política era educação. Não me envolvi e não me deixei ser envolvido pela perseguição."

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