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14/12/1999 23/04/2012 - 11h42

Na casa de Padre Cícero

Realizada a cerca de três anos de sua morte, quando sua influência política já havia de certa forma se arrefecido, a entrevista com Padre Cícero feita por Paulo Sarasate, além de servir de "mostruário" das idéias de Padre Cícero sobre o "momento nacional, o comunismo e outras questões da atualidade", comprova o peso mitológico e santificado que já pairava sobre ele.
Acervo O POVO
O coronel Alpheu Aboim, o jornalista Alpheu Aboim, Padre Cícero e Paulo Sarasate: barba feita para não parecer velho. (Foto Publicada no Jornal O POVO, em 14/12/1999)
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Jornal O POVO 14/02/1999

 

A foto que ilustra a entrevista publicada no O POVO em fevereiro de 1931, com os jornalistas Paulo Sarasate e Alpheu Aboim pousando ao lado do "Patriarca de Juzeiro", dá o tom de reverência com que o Padre Cícero (1844-1934) era tratado - fosse por fiéis, fosse por jornalistas. Realizada a cerca de três anos de sua morte, quando sua influência política já havia de certa forma se arrefecido, a entrevista de Paulo Sarasate, além de servir de "mostruário" das idéias de Padre Cícero sobre o "momento nacional, o comunismo e outras questões da atualidade", comprova o peso mitológico e santificado que já pairava sobre ele. Um peso que ainda perdura. Porém, tantos anos depois da morte do Padre Cícero, o que levaria este personagem a ainda permanecer vivo vivo no coração de multidões? Esta figura, das mais marcantes da igreja nordestina, continua sendo alvo de controvérsias. O fenômeno ainda é difícil de explicar e entender. É suficientemente complexo, a ponto de, na entrevista a seguir, Paulo Sarasate descrever o encontro, ao mesmo tempo com reverência e com ironia.

Os jornalistas Paulo Sarasate e Alpheu Aboim, que estiveram no interior do Estado, a serviço, desta folha, visitando há poucos dias Joaseiro, apanharam a seguinte entrevista com o Padre Cícero, escripta pelo primeiro, especialmente para O POVO:

Joaseiro, 12 (Via Postal) - Seriam precisamente 13 horas de hontem quando nos dirigimos à residência do Padre Cícero, com o intuito de entrevistá-lo para O POVO.
Transposta a grande praça em que se ergue, dominadora, a estatua do padre, dahí a alguns passos penetramos na travessa onde o mesmo reside, numa vasta casa, em companhia da beata Mocinha.
Era outro o ambiente. Inteiramente outro. Ao aproximar-se da residência do Padre Cícero, Joaseiro como se transforma subitamente. Toma outro aspecto. De cidade movimentada e alegre, empório comercial dos mais florescentes do sul do Estado, como se apresenta nas demais artérias públicas - transfigura-se ali, nas cercanias da mansão, patriarchal, num verdadeiro fóro de fanatismo. Não é mais a cidade clara e sorridente do Cariry, agitada pelo lufa-lufa quotidiano dos que trabalham: é o villarejo inculto e retardado, a nova e pacífica Canudos dos sertões nordestinos, com a figura tradiccionalmente discutida do padre e a ignorancia contristadora dos romeiros.
Defronte da casa e um pouco ao lado, quatro ou cinco tendas, armadas ao sol, recheadas de "santos, medalhas e rosários para vender", desafiavam o ambiente escuro com o berrante desencontrado das cores. Eram medalhas e santos de todas as qualidades, inclusive o "Santo do Joaseiro".
Na calçada ao longo das sete janellas e principalmente na porta que estava apinhada, cerca de quarenta romeiros aguardavam resignados a ocasião para elles benfazeja de avistarem-se com o Padre Cícero. Alguns esperavam de joelhos, resando, e um ou outro protestava contra a demora, especialmente uma mulherzinha nervosa, franzina, maltrapilha, que não se cansava de chamar pela beata, aos gritos, no anseio mystico de beijar as mãos milagrosas de "meu padrinho".
A beata Mocinha - lembre-se aqui num rápido parêntese - é a principal intermediária entre o padre e os romeiros. Sem a interferencia della, que tudo manda e tudo pode naquelle tecto, coisa alguma se consegue.

À Espera do Patriarcha
Mal conformados com a atmosphera irrespirável e repugnante que foramos encontrar ali deplorando profundamente aquelle estado criminoso de retardamento mental, homens, mulheres e crianças mergulhados no mais revoltante estado, conseguimos a custo entrar na residencia de Padre Cícero.
Fizemo-nos anunciar por um porteiro e ficamos na saleta de entrada à espera do nosso homem. A beata Mocinha que ali estivera a conversar com umas romeiras, assustou-se com a nossa presença e esgueirou-se manhosamente pelo corredor, desaparecendo de uma vez. Trancou-se em seu quarto, o que nos informaram e não fosse a nossa argúcia, não teria sido vista mais tarde, com o cabello cortado à la home, e as vestes negras, tumularmente negras, a escutar por tras de uma porta a palestra que mantivemos com o patriarcha do Joaseiro. Enquanto este chegava, puzemo-nos a examinar a sala de visitas. Admirávamos os retratos da mãe do padre e de seu pae, já falecidos. Olhámos uma photographia do mesmo ao lado do ex-senador João Thomé passamos a vista por outros quadros e dali a segundo estamos conversando com

Uma Contemporanea da Beata Maria de Araujo
Era uma mulherzinha já idosa, cabellos brancos, fala arrastada. Disse-nos que assistira os milagres da tão controvertida Maria de Araujo e nos jurou a pés juntos que tinha visto certa vez uma hostia jorrar sangue, quando um sacerdote acabara de tomá-la nas mãos para depô-la nos lábios da beata.
"Vi esse facto com estes olhos que a terra há de comer", disse-nos por fim a nossa interlocutora, com uma segurança quase convincente.

Com o Padre Cícero
Mais alguns minutos decorridos e lá se veio o padre à nossa presença. Pensávamos encontrá-lo abatido, dominado pelos 87 annos de idade que tem vivido, mas deparãmo-lo relativamente forte, andando ligeiro e falando apressado.
Abraçou-nos cordialmente, os lábios rasgados num riso franco e jovial, olhar prescrutador e conduziu-nos immediatamente a seu gabinete à direita do prédio.
- Padre Cícero - começámos geitosamente - somos do O POVO e queremos uma entrevista sua. Algumas palavras sobre o movimento brasileiro.
- "Não", respondeu-nos de prompto, com uma resolução que podia parecer definitiva, "Por óra não posso falar. Estou de resguardo..."

Um Espectador dos Acontecimentos
Rimos conjuntamente da pilheria e deixamos que elle prosseguisse.
"Eu agora sou apenas um espectador dos acontecimentos. Aprecio os factos e olho as coisas com uma grande vontade de que tudo se faça como eu desejo."
E iniciando sem pressentir a entrevista que solicitaramos;
"A futura Constituição, por exemplo, não deve ser athéa. O Brasil é uma nação catholica e precisa viver com Deus. Sou partidário da Egreja unida ao Estado, porque sou catholico, apostolico, romano, e me oriento pelo credo, que é o symbolo da Religião e da Fé. Deus é quem governa o mundo. Só o Creador é universal e absoluto."
Resolvemos cortar a digressão philosophica do padre, que prometia prolongar-se, e interpellámo-lo sobre o movimento revolucionário.
"É agora" - respondeu-nos com um desembaraço de phases que bastante nos admirou e que se fez sentir em toda a palestra - é agora o momento oportuno para se fazer um Brasil novo, com um futuro brilhante e cimentado em princípios divinos.
Como se vê, o Padre Cícero raramente se afasta da idéia de Deus. Toda a sua conversa, desenvolta e não raro brilhante, é pontilhada desse espírito religioso dessa quase obsecação theologica.
E assim continuou elle a falar cobre

O Movimento revolucionário
- "A Revolução foi uma intenção que Deus entregou aos brasileiros para se libertarem. (Nota: Padre Cícero refere-se ao movimento revolucionário de 1930, que reuniu mineiros, gaúchos e paraibanos e derrubou o então presidente Washington Luiz e levou Getúlio Vargas ao poder). Os homens põem e Deus dispõe. Os homens deram impulso à Revolução e Deus ordena que se faça um Brasil novo e grande, debaixo de princípios que sejam a manifestação da vontade do nosso povo. Eu desejo que os novos governantes sejam sobretudo administradores e não donos de uma grande fazenda, como vinha acontecendo até agora. Que a nação os faça, os eleja zeladores e defensores da Pátria e do povo e não senhores de uma senzala, para venderem-na aos pedaços, a quem mais dér."
Tudo isso o Padre Cícero ia dizendo pausadamente, medindo as palavras, mas com gestos largos e repetidos, extendendo e abrindo os braços, principalmente o esquerdo, que elle movimenta com mais freqüência, óra puxando o lenço, óra ageitando os óculos. Os óculos de tartaruga esverdeada com que procura aliviar-se da catarata impertinente que lhe annuvia a vista, enbranquecendo-lhe o azul brilhante dos olhos...

Juarez Távora
- Que pensa de Juarez Távora? (Nota: Juarez Távora era então ministro do governo Getúlio Vargas, no qual esteve entre 1930 e 1933. Mais tarde, em 1964, Távora foi ministro de Castelo Branco. Como militar, participara desde 1922 de levantes contra o Governo Federal, inclusive a Coluna Prestes. Em 29, rompeu com Luis Carlos Prestes, depois que este assumiu sua adesão ao comunismo, e participou do bloco de sustentação da Revolução de 30)
- "É um homem distincto e bravo" - explicou vivamente quase a nos cortar a pergunta.
E insistiu, sempre dominado pela mania religiosa:
- "É um dos elementos que Deus destacou para fazer uma Pátria nova e feliz.
- Confia por inteiro na acção de Juarez?
- "Tanto assim não posso adentrar. Mas conheço sua família e a sei catholica. Sou até padrinho do Adhemar, irmão do Juarez, e da Benigna, irmã delle. Tive cuidados e vexames enormes quando elle vinha como um dos chefes da Revolução, em vinte e seis. Já desejava é que elle se salvasse, se desligasse della, para não morrer. Também me preocupei muito, naquelle tempo, com a sorte do dr. Távora, que esteve perseguido.
E passou o padre a contar a história de um positivo que mandara a Fortaleza, naquelles tempos sombrios da 2° Revolução, destinado exclusivamente a avisar ao actual interventor do Ceará que se retirasse do Brasil, porque do contrario seria preso.
- "Mandei até dizer-lhe - concluiu - que não se fiasse absolutamente na proteção de Moreirinha, que esta não valeria nada.

Vocês sabem melhor do que eu...
Qual seria a opinião do Padre Cícero Romão Batista sobre os governos depostos? A sua opinião de agora?
Atacamos o assumpto.
- Que pensa do sr. Washington Luiz e seu governo, padre?
- "Não penso nada. Não quero emittir juízo sobre quem já morreu."
E prosseguindo, contou-nos sorridente que já estava até de amizade encerada com o Cattete succedendo o mesmo com relação aos srs. Julio Prestes e Matos Peixoto (Nota: o paulista Julio Prestes, apoiado pelo Governo Federal, disputou as eleições de 1930 contra Getúlio Vargas. E venceu. Mas o movimento de outubro de 30 impediu de assumir a presidência. Precisou pedir asilo ao Consulado da Inglaterra). Nunca lhes desejou mál nem o deseja agora, porque costuma mesmo pedir bençãos para todo mundo.
- "O que eu quero - disse-nos textualmente com aquella philosophia toda sua - é que os máus se convertam e vivam. Cada indivíduo seja bom e perfeito - e progrida.
Nada conseguiramos a respeito do sr. Washington. Seria conveniente tentar ainda a sua opinião sobre o sr. Peixoto? Arriscamos: - Que diz do governo Peixoto? (Nota: Matos Peixoto havia sido eleito presidente do Estado do Ceará em 1928).
- "Também não digo nada - replicou o nosso entrevistado. E explicou com um traço mal disfarçado de ironia: - Não digo nada porque vocês sabem melhor do que eu..."
A seguir, como alguém avançasse na roda que o casal Matos Peixoto era atheu, o Padre Cícero, satisfeito, vaidoso, procurou convencer-nos de que modificara o pensamento anti-religioso do ex-presidente e sua senhora, quando ambos visitaram o Joaseiro.

Getúlio e Epitácio

Faltava ouvir o pensamento do padre sobre o chefe do governo provisório. Foi o que fizemos a seguir, para obter a seguinte resposta:
- "Desejava calar sobre o dr. Getúlio Vargas porque estamos muito longe. Más só tenho razões para julgá-lo um homem de bem. Já tive até relações com elle, por telegramas, quando era ministro da Fazenda e mesmo quando foi presidente do Rio Grande. Desejo-lhe, pois, muitas felicidades e digo isso sinceramente, muito sinceramente.
Conheciamos a admiração do padre pelo sr. Epitácio Pessoa e por isso não foi com surpresa que o ouvimos logo depois desfazer-se em elogios ao ex-presidente da República, um dos maiores homens do país segundo o seu modo de pensar.

Os Ministérios do Padre Cícero
Muito loquaz, espantosamente loquaz, o patriarcha do Joazeiro tomara gosto pela palestra e não se cavala mais um segundo. Era uma verdadeira machina falante, a emitir opiniões sobre os mais variados motivos. E destarte, por sua conta, atacou a questão dos ministérios.
- "Em vez de se salvar o país com impostos e empréstimos (o Padre Cícero é um ardoroso inimigo dos empréstimos e das concessões estrangeiras em vez disso, os dirigentes da pátria devem criar um novo ministério, destinado especialmente a desenvolver as nossas riquezas naturaes, as grandes riquezas que Deus nos deu. Faça-se, pois, um Ministério das Minas e Florestas. É assim que se deve crescer e não vendendo o país aos estrangeiros. Elles comem as bananas e nos atiram as cascas.
Outra impressionante faceta do espírito do Padre Cícero é o seu apegado ao amôr pelos acontecimentos históricos e pelo que se passa nos países de além-mar. Em seu gabinete, pouco abaixo de uma photographia sua, ainda seminarista, vê-se, colorida, uma estampa intitulada "Pantheon universéle des personages más celebres". No decorrer das palestras, de vez em quando elle cita um facto histórico, relembra outro, evoca um heroismo, de modo a mostrar erudição no assumpto.
E nestas condições, para defender a thése do Ministério das Minas, foi parar connosco na longinqua Persia.
- "Calculem - accentuou-nos - que um homem semi barbaro, como o imperador da Persia, tratou do assumpto, em seu país, e organizou várias commissões para explorar as minas daquella região. Imitemos, pois, o imperador dos persas".
Concordámos habilmente com a maioria de pensar do velho sacerdote - elle proseguiu:
- "E, se fôr possivel, criamos também um Ministério de Culto, Ensino, Sciencia, Hygiene e Bons Costumes, para melhor realizar a reconstrução moral do país. Feito isso, eu ficaria satisfeito, certo de que tudo estava nos eixos."

A Punição dos Culpados
- "Qual a sua opinião sobre o Tribunal Revolucionário?"
- "Eu me calo a respeito, porque não conheço substancialmente os seus princípios de existência.
- Mas acha que os culpados devam ser punidos?
- "Nessa matéria - replicou o padre, sustentando os óculos - nessa matéria eu não sou professor certo. Theoricamente, em princípio, sou pela punição. Mas na prática, a meu ver, as cousas não saem certas. E a condemnar inocentes é preferivel perdoar, que é sempre melhor e mais agradável.

O Imposto territorial
Tratando-se, no momento, de assumptos políticos exclusivamente, há de parecer estranho aos leitores o sub-título acima: o imposto territorial. A verdade, no entanto, é que, sem querermos, fomos forçados a ouvir uma longa exposição do Padre Cícero a respeito dessa tributação, que elle considera iniqua, odiosa, injustificável. Tem uma verdadeira ogerisa ao referido imposto e está obsecado, profundamente obsecado pela idéia de combatê-lo.
E é somente por isso, unicamente pela vontade do entrevistado, que se tóca aqui na matéria tributária em apreço.

O Communismo, o Apocal'ypse e o Fim do Mundo
Para encerrar a palestra, que já se prolongava, interrogámos o thaumaturgo do Joaseiro sobre o communismo. E foi com extraordinária vontade de rir que lhe escutámos a opinião.
- "O communismo - afirmou espontaneamente o Padre Cícero - foi fundado pelo demonio. Lucifer é o seu nome e a disseminação de sua doutrina é a guerra do diabo contra Deus. Conheço o communismo e sei que é diabólico. É a continuação da guerra dos anjos máus contra o Creador e seus filhos.
Tomou alento e prosseguiu mais pathetico:
- "Conheço a Russia desde a minha meninice e sei que ella é um campo imenso de assassinatos, commetidos por governos que querem destruir moral e mentalmente a nação. Lenine foi um sargento do exercito e nada mais. Era, além disso, um judeu pelo espírito e pelo sangue. Só os seus discipulos consideram-no um grande homem. Os espíritos sensatos não pensam desse modo. O partido de Lenine é o partido do Anti-Christo, dito e annunciado por S. João, no Apocalypse. E chegar a governar o mundo, quando faltarem três anos para o incendio final, porque tudo isso está escrito nos livros santos...

A Vaidade do Padre Cícero
Estava terminada a entrevista. Convidamos, então, o Padre Cícero pra se deixar photographar ao nosso lado. Elle accedeu de bom grado, alegremente, mas insistiu numa coisa: fazer a barba e mudar a batina para não apparecer velho na photographia...

O Retrato retirado
Dahi a pouco, ao sairmos da casa do bondoso padre, ouvimo-lo accentuar na despedida, como se alguém lá dentro tivesse aconselhado quando elle foi mudar a batina: - "Olhem bem: eu não sou inimigo do Peixoto!"
Um dos presentes, porém, chegou-se-nos ao ouvido e apontando para a sala de visitas adentrou-se maldosamente que não estava mais ali, como de costume, o retrato do presidente deposto...

"Eu também sou rico"
Saímos. À porta era maior o número de romeiros. A onda avolumara-se pouco a pouco, para augmentar, talvez, a nossa desolação ante aquelle ambiente asphyxiante de miseria e fanatismo.
E um homem palido, barba crescida, immundo e asqueroso, revoltado por não ter merecido ainda o favor de ser recebido pelo "padrinho", atirou à nossa passagem estas palavras ironicas e morzades humanamente philosophicas:
- "Deixem-me entrar que eu também sou rico! Eu também sou rico!"

Do Crato e Juazeiro
Padre Cícero nasceu na Vila Real do Crato, no dia 24 de março de 1844. Decidiu tornar-se padre já aos 12 anos, quando fez votos de castidade. Estudou no colégio Padre Rolim, em Cajazeiras (PB) e, depois, no Seminário da Prainha, em Fortaleza, onde se ordenou em novembro de 1870, aos 26 anos. Dois anos depois, fixou residência no então povoado de Juazeiro do Norte.

Líder político
Durante boa parte de sua vida, Padre Cícero foi extremamente influente não somente no plano religioso, mas também nas suas concepções sobre política e economia. Por aliar-se às forças ditas conservadoras do Estado, o "Santo de Juazeiro" foi muitas vezes chamado de coronel. Líder político da região do Cariri e do restante do Estado, o sacerdote foi eleito prefeito de Juazeiro, deputado federal e vice-presidente do Ceará, cargos que não assumiu "para não abandonar os fiéis".

Sinal de Deus
Foi a partir dos fatos extraordinários de 1889, quando a hóstia teria se transformado em sangue no instante da comunhão da beata Maria de Araújo, que a legenda se cristalizou de vez. O milagre potencializou o mito. Os desvalidos foram em massa para Juazeiro do Norte. Na opinião da Igreja Oficial, o milagre seria uma farsa. Porém, na visão popular, aquilo era um sinal de Deus. A figura do mito tornava-se irreversível.

"Padim Cícero"
Padre Cícero foi padrinho, amigo e protetor de Lampeão. Em 1926, providenciou para que Lampeão fosse nomeado capitão pelas autoridades federais, com o objetivo de combater a Coluna Prestes. Os cangaceiros, sabe-se, tinham como forte marca a religiosidade.

Floro Bartolomeu
Para muitos, Padre Cícero tinha o seu alter-ego: Floro Bartolomeu, apelidado de "Satanás de Juazeiro". Implacável com seus inimigos, Floro ganhou a confiança do sacerdote e tornou-se seu mentor para assuntos políticos.

Sedição de Juazeiro
Padre Cícero foi uma das figuras centrais de um movimento no Ceará chamado "Sedição de Juazeiro". Com o pretexto de acabar com o fanatismo e o banditismo no Cariri, o então presidente do Estado, Franco Rabelo, entrou em rota de colisão com Padre Cícero. Foi entre 1913 e1914. Tropas enviadas por Franco Rabelo ao Crato tentaram invadir Juazeiro do Norte, em combates que duraram um mês. Juazeiro resistiu com as tropas formadas por beatos e cangaceiros fiéis a Padre Cícero, comandadadas por Floro Bartolomeu. O "Batalhão Patriótico", como ficou conhecido, chegou a Fortaleza em março de 1914 e derrubou o governo de Franco Rabelo.

Juarez Távora era então ministro do governo Getúlio Vargas, no qual esteve entre 1930 e 1933. Mais terde, em 1964, Távora foi ministro de Castelo Branco. Como militar, participara desde 1922, de levantes contra o Governo Federal, inclusive Coluna Prestes. Em 29, rompeu com Luís Carlos Prestes, depois que este assumiu sua adesão ao comunismo, e participou do bloco de sustentação da Revolução de 30.
O Paulista Júlio Prestes, apoiado pelo Governo Federal, disputou as eleições de 1930 contra Getúlio Vargas. E venceu. Mas o movimento de outubro de 1930 o impediu de assumir a presidêmcia. Precisou pedir asilo ao consulado da Inglaterra.
Matos Peixoto foi presidente do Estado do Ceará entre 1928 e 1930.

Rebeca Sousa rebeca@opovo.com.br
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Ionaldo Teles 30/07/2012 16:40
Parabéns ao "O Povo" por disponibilizarem material histórico tão importante.Excelente iniciativa!
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Ionaldo Teles 30/07/2012 16:32
Parabéns pela disponibilização virtual da nossa história através das páginas de "O povo".
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Ionaldo Teles 30/07/2012 16:31
Excelente documento!
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