Pedro Salgueiro 05/04/2014

Geografia invisível de Fortaleza

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Pedro Salgueiro pedrosalgueiro64@yahoo.com.br
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Meu relacionamento com Fortaleza passou por várias fases, variando do amor ao ódio, da tolerância à negligência, da frieza ao conformismo – como em qualquer relação: cheio de altos e baixos. No início dos anos 1980, recém-chegado do Interior, um entendimento razoável era impossível, que ainda estavam muito presentes em meu coração os anos “terrivelmente felizes” de minha infância rural. Eu, apenas um garoto saudoso frente à madrasta fria, necessitei ir morar em Recife para, enfim, descobrir dolorosamente uma pontinha de saudade dessa nossa loirinha desmilinguida pelo sol; ao voltar, passamos a ter um relacionamento mais respeitoso, porém sem os exageros da paixão, no máximo um contraditório e velado namoro, pautado pela desconfiança. Mas, como em todo casamento de conveniências, fizemos concessões, calamos mais que exigimos e temos nos respeitado pelas quase quatro décadas de tolerâncias mútuas.

 

E já temos bastantes lembranças em comum, sofremos juntos algumas amarguras, gozamos não poucas alegrias; não raro nos questionamos sobre besteiras, pontinhas de ciúmes e rancores – tudo culpa mais de fatores externos aos dois, que o nosso escroto mundo moderno vai nos infringindo, maltratando, empedernindo. Dos meus lamentos maiores, um se destaca: sua frieza de cidade que cresceu demais, ligeiro demais – bem antes do tempo correto de maturação –, à força, que nem fruta no etileno.

 

Fui criando gostares por certos oitões e ruas, casarões e praças; mas logo vi que não poderia me apegar, veloz que vão os quereres sugados pelas estúpidas garras do progresso, que parece andar de mãos dadas com a ganância e a falta de conhecimento; aos poucos fui guardando duas cidades dentro de mim, uma que resiste ainda aos desmazelos e tratores, outra que irremediavelmente foi desaparecendo; aquela – a que heroicamente resiste – está sempre em vias de terror de se ir também de vez, entretanto a já sumida resiste, por incrível que pareça; encontrou guarida num sítio vulnerável, porém eficiente: a memória dos saudosos amantes.

 

Um lindo Bangalô Azul, uma bucólica Chácara Flora, um apaixonado Palacete do Plácido, uma inacreditável Itapuca Villa, um lúdico Parque Americano, uma velha Sé vive(m) ainda nas lembranças de quase todos que conviveram com eles; pessoalmente recordo bem do belíssimo casario em que nasceu dom Hélder Câmara (ali onde é hoje o novo Mercado Central) e do não tão antigo Fórum ao lado do Forte de Nossa Senhora da Assunção, cuja demolição foi uma das cenas mais tristes que presenciei: em seu lugar jaz hoje uma fonte onde mendigos tomam banho e lavam suas roupas e – apontando para o céu, talvez para compensar a destruição – uma escultura de Sérvulo Esmeraldo.

 

Porém o que mais guardo na memória não são esses “grandes” símbolos da nossa cidade, tão violentamente surrupiados de todos nós: choro por algumas casinhas tristes de diversas ruas esquecidas nos subúrbios mais distantes, também uns belos casarões na Domingos Olímpio antes de ela ser alargada (quem não guarda em suas retinas as lindas casas demolidas na Santos Dumont e Dom Manuel?), alguns casebres com batentes altos e madeiramento de carnaúba que sobreviveram por muitos anos depois do aplainamento e alargamento das ruas do bairro José Bonifácio (ainda podemos encontrar quase no meio das ruas Floriano Peixoto e Major Facundo uns últimos e teimosos exemplares, com suas salas zombeteiramente invadindo o asfalto). Quantos de nós não pescamos ainda peixes imaginários nas soterradas lagoas onde hoje está o prédio da Procuradoria do Estado (no mesmo José Bonifácio) ou sob a desativada Cobal da Gentilândia (antiga lagoa do Tauape).

 

É (pelo menos) essa cidade imaginária que tentamos inutilmente preservar, com sua geografia invisível, em nossas boas lembranças – como forma de resistirmos ao incompreensível descaso com o nosso patrimônio, à imensa ganância imobiliária, e à tamanha incompetência de nossos órgãos de preservação do patrimônio. Talvez nos apegando às nossas fantasmagóricas arquiteturas consigamos também guardar em nossas narinas um pouquinho do antigo cheiro da cidade, e em nossos ouvidos os velhos pregões de rua, e em nossos olhos (junto com as lágrimas) as mesmíssimas paisagens já irremediavelmente perdidas.

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