O POVO LOUNGE 05/01/2018 - 15h09

"É preciso discutir sobre o que as pessoas têm medo"

Com quase 20 anos de pintura, o artista plástico Rian Fontenele tem a poesia como uma de suas principais influências e encontrou no trabalho braçal uma maneira de acalmar os pensamentos inquietos
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Gabriela Custódio gabrielacustodio@opovo.com.br
Fotos: Camila de Almeida / O POVO

Os desavisados que cruzam a rua Maranguape, na Praia de Iracema, não imaginam que aquele galpão de quase 100 anos, aparentemente abandonado, não apenas guarda vida como é palco para a criação de inúmeras narrativas. Desde 2012, o pintor Rian Fontenele mora e trabalha no antigo armazém de algodão. Entre uma brincadeira e outra com a boxer Corona, o anfitrião recebe as visitas em seu ateliê com um espresso feito na hora, antes de contar sobre sua odisseia com a arte.

O começo com gravuras em metal e desenho, assumiu a pintura e se define pintor. Em uma de suas técnicas, pinta e espera secar. Pinta novamente. Repete o processo. Passa horas, dias e meses se dedicando a um conceito. Filho e neto de artesãos, herdou o gosto pelo fazer manual e pelo trabalho braçal, que o acalma. Diante da tela em branco, um momento de silêncio, no qual mergulha em si — e nos muitos Rians que carrega — antes de imergir na pintura. “É como se na minha cabeça tivesse um milésimo de segundo em que se precisa de consciência para fazer um gesto”, explica. E, então, surgem corpos que contam histórias que podem ser de Rian, mas também de qualquer um que os observa.

Depois de quase 20 anos de carreira, Rian lançou, em novembro de 2017, seu primeiro livro, intitulado Ausência [Memórias ancoradas]. Na obra, apresenta todas as linguagens pelas quais caminha: xilogravura, desenho, poesia e até bordado. Em entrevista à revista O POVO Lounge, o artista fala sobre sua formação como pintor e os temas que o inquietam, conta sua relação com a literatura e se posiciona acerca dos tempos atuais para a arte.


Você vem de uma família de artesãos. Como esse fazer manual está presente na sua produção artística?
Cresci vendo o ateliê do meu pai cheio de pedras e madeiras e aquilo me trouxe certa herança de ofício. O processo artesanal é importante porque sou extremamente inquieto. Sou disléxico, então minha cabeça é um pouco confusa e os pensamentos são um pouco intrusivos, mas o exercício braçal, de passar horas fazendo determinada coisa, acalma-me os sentidos. Meu trabalho artístico é de labuta. É um processo que me ajuda a me silenciar do mundo e das coisas e uma forma de mergulho comigo. O exercício braçal, a literatura e a poesia, sobretudo, são meios que utilizo para chegar ao silêncio de que tanto falo em boa parte do meu trabalho; um silêncio não mudo, não passivo; um silêncio de gestação da ação, do gesto.

Você começou com desenho e gravura. Como foi o processo de se aproximar da pintura?
Estudei primeiro xilogravura e depois gravura em metal, quando morei fora (em Barcelona). É um processo que ainda existe: não eram etapas para a pintura, tudo era paralelo. Sempre me dispus a ser pintor, mas demorei muito tempo para assumir a pintura como eu gostaria de fazê-la, e ainda estou aprendendo. Minha pintura tem paleta muito reduzida, é muito sóbria, austera, o que foi uma lição também da poesia, que é meu grande lastro. Ela me deu a possibilidade, entre outras coisas, de entender que, em duas pequenas estrofes, se pode falar sobre uma civilização inteira, sobre milênios ou sobre uma vida de paixão e morte. E eu trago na pintura isso de falar com um mínimo de elementos, seja pelo tamanho, pela cor, pelos temas.

Como essas outras linguagens, além da pintura, estão presentes no seu trabalho?
Todas se mantêm. Eu também escrevo, continuo fazendo gravura e desenhando. E me permito, cada vez mais, experimentar. Por exemplo: tenho um trabalho que é uma bandeira bordada. Quem borda sabe que a frente e o verso são os mesmos ou pelo menos têm a mesma trama. Eu bordo, mas não sei bordar, tanto que o mais honesto é mostrar o verso (que é diferente da frente). Aquilo [a diferença], para mim, é extremamente encantador e é um processo importantíssimo, porque a única coisa que posso ofertar a quem observa meu trabalho é a honestidade do que eu quis, do que eu me propus, do que eu consegui fazer.

Você trabalha com séries longas. Como percebe que o conceito se esgotou e é hora de começar outro projeto?
Não sei. Em algum momento, não consigo mais fazer o que fazia no começo da série. Chega um momento em que aparecem outros questionamentos, em que aparecem outras formas de construir, outras formas de diálogos, outras referências. Às vezes, no meio do trabalho, paro e tenho um hiato porque alguma coisa me chamou a atenção e eu tento trabalhar um pouco sobre isso. Então, isso nunca é muito claro.

Houve impacto da formação acadêmica em arquitetura na sua produção artística?
Arquitetura e arte não têm nada a ver. Como arquiteto, preciso levar em conta uma série de fatores, como a tecnologia que vai ser empregada, a cidade, a legislação do local, o orçamento, o cliente. E, em relação às artes, não devo nada a ninguém. Mas a arquitetura, tanto quanto a marcenaria, me deu uma ideia de planejamento, de metodologia. E talvez ela me ajude muito mais em como me fazer viável como artista, em construir o cotidiano de um ateliê para viver de arte e me planejar, do que na criação. Um arquiteto, por excelência, é um bom administrador. Nunca vou saber o quanto devo à arquitetura, mas, talvez, minha composição tenha uma influência.

Como você percebe que seu trabalho vem mudando ao longo dos seus quase 20 anos de carreira?
As mudanças acontecem de uma forma muito lenta, mas em que cada etapa e cada nova série se soma ao trabalho anterior. No final, não são bem mudanças. É uma trajetória, um atravessamento, um percurso. E, como percurso, você não consegue ler por um, dois ou três trabalhos.

Quais foram suas principais influências ao longo da formação?
A literatura. A escultura, de certa forma. São linguagens outras que não a pintura ou o desenho. Meu trabalho é figurativo. E, como é figurativo, é narrativo, assim como a palavra. A possibilidade de me aproximar da figura e a necessidade que eu ainda tenho dela é porque isso faz eu me aproximar da narrativa. Posso falar de poetas como Paul Celan, Orides Fontela, Hilda Hilst e João Cabral de Melo Neto. Todos eles têm uma linguagem austera, sóbria e isso me influencia muito. E, claro, posso dizer vários artistas, como o escultor basco Eduardo Chillida. Pode parecer arrogante, mas, de certa forma, nunca percebi alguém a ser espelhado, nunca tive heróis. Tem pessoas que eu admiro, em quem eu acho coerência e também encontro incoerências.

Já que há toda essa influência da literatura, por que seguiu pela pintura e não só pela literatura?
Porque eu sou visual. A palavra não me completa, não basta, não me diz tudo. A pintura consegue abarcar um pouco tudo isso. Como é que você lê? Você lê por imagens. Se te descrevo uma cena, você vai transformá-la em uma imagem. Eu realmente não consigo separar em dois universos completamente diferentes. Para mim, são coisas muito próximas, as duas coisas são narrativas.

Suas obras falam muito sobre pessoas e a relação entre elas. Que temas te inquietam?
A ausência, a memória, a reconstrução dessa memória, as possibilidades. Então, falo de palavras como atravessamento, odisseia, navegação, oceano, flama, desejo, desvelo. Todas trazem esse universo de gestos e ações. De certa forma, tem um pouco de recontar uma memória que não é literalmente a minha, esse caminho de amor e morte pelo qual todos passamos. É o que nos torna sensível ao outro, porque remete a um gozo ou a um pranto que nós tivemos. É essa matéria que eu trago, [além da] ideia do silêncio. De novo, o silêncio de presença em si. Acho que em poucos momentos da humanidade foi tão importante discutir sobre o silêncio como agora. Esse carrossel de imagens a que somos bombardeados traz a impossibilidade de nos colocarmos em frente a uma fotografia ou a um quadro e nos permitirmos adentrar nas sutilezas da obra. Hoje, mal nos observamos e a arte dá essa possibilidade. Acho que ela é feita para questionar, para mexer um pouco com você. E, aí, entra o processo em que é necessário discutir sobre censura e liberdade de expressão. Estamos vendo esse retrocesso de atacar a nudez, mas é preciso questionar. Toda arte erótica é política, porque traz um pouco essa insurgência. E meu trabalho também tem esse questionamento.

Como você avalia o atual cenário para a arte no Brasil?
É um momento extremamente delicado, em que é preciso posicionamento contra uma onda conservadora. Você só pode fazer debate se considera o outro e as circunstâncias dele. Quando isso não acontece, não há debate; há um acirramento de posições, um embate até que alguém ceda. Eu não discuto o que é arte e respeito que o outro seja contrário ao meu pensamento, mas não posso ser criminalizado, proibido ou forçado a uma restrição sobre o trabalho. É uma censura que começa de forma sutil e depois vira uma violência incrível. Tem acontecido isso sistematicamente em exposições de arte em 2017! Eu entenderia isso há 20, 30 anos. É um retrocesso e é preciso discutir sobre o que as pessoas têm medo, o que elas negam, por que negam e por que isso agride. O que deve ser censurado, de fato, é a pobreza, a corrupção, esse levantamento de muros e paredes, a insensibilidade e a violência com o outro. Isso, para mim, é extremamente agressivo. A arte é um convite a um diálogo, a um debate para o que é necessário ser dito, o que é incômodo. E, de forma geral, as pessoas mais conservadoras não se permitem o questionamento.

Você vai lançar seu livro em outras cidades. Como percebe a abertura no cenário nacional para o seu trabalho?
Há algum tempo, seria impossível viver de arte na periferia do que é hegemônico. Hoje é mais fácil, pela internet e pela possibilidade de trânsito. Faço essa ponte entre São Paulo e Fortaleza, que é necessário fazer, mas estar aqui [em Fortaleza] tem uma importância enorme, porque posso construir novas relações e é aqui que posso fazer alguma diferença. Muito mais do que um lugar de produção, o ateliê é um lugar de reflexão, de debates, de discussões. Não me restrinjo a Fortaleza, sempre faço exposições itinerantes e vou conversar sobre o livro em vários locais. Essa possibilidade é muito rica, porque eu não tenho uma pintura local. Não sou um pintor cearense, sou pintor. Então, me sinto confortável de caminhar um pouco por aí.

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