VIDA & ARTE LEU. ABAIXO DO PARAÍSO 23/08/2016

Reencontro de almas áridas

Em novo romance, André de Leones escreve sobre fuga e reconciliação em um cenário de corrupção na administração pública
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Jáder Santana jadersantana@opovo.com.br
ROSELI VAZ/ DIVULGAÇÃO
Nascido em 1980, em Goiânia, André de Leones já colaborou com publicações como Bravo!, O Globo e Jornal do Brasil

 

Cristiano, o protagonista de Abaixo do Paraíso, é um tarefeiro a serviço do esquema político local no interior de Goiás. Clandestino, resolve problemas, transporta amantes, garante acordos, cuida de tudo o que não pode ser visto. Assim como os pacotes que leva e traz, que só existem nos quartos abafados de hotéis, em encontros secretos nos bares de subúrbio e apartamentos vazios, Cristiano é um fantasma - está em corpo, mas lhe falta a presença.


A linguagem crua de André de Leones - com parágrafos de puro fluxo e ideias que se atropelam - ajuda a construir a presença fantasmagórica do personagem e sua existência sem propósitos. Levado pelos dias, vagando entre cidades e quartos de hotel, é na violência e no sexo que encontra redenção, que estabelece contato com o real. Precisa disso para saber-se vivo. Como um John Fante do centro-oeste brasileiro, o autor desenha figuras marginalizadas sobrevivendo aos seus pequenos dramas suburbanos.


A eterna fuga de Cristiano e sua tentativa de se situar no mundo - segundo ele, tudo não passa de “uma crisezinha existencial” - ganha nova urgência quando um serviço dá errado e um crime de grandes proporções acontece. Mas é com apatia que o protagonista executa e assiste às consequências imediatas do ato que poderia arruinar sua trajetória. Como o narrador inconsequente de O Estrangeiro, de Camus, Cristiano vive seu delírio momentâneo, e a muda confusão dos minutos que se seguem revela um autor com pleno domínio de seu arco narrativo.


As reflexões engatadas pelo protagonista após o crime pouco a pouco se dissolvem. A culpa que em algum momento pareceu sentir dá lugar ao alívio pelo abandono do marasmo. Nessa fuga continuada, acaba chegando à fazenda do pai na zona rural de uma pequena cidade do interior goiano e mergulhando em um ambiente de reminiscências pessoais e familiares que trazem para o romance um gosto perdido da melhor literatura regionalista.


Em meio às rotinas provincianas e à profusão de fofocas, mexericos e histórias contadas em tom de segredo, percebemos o quanto há em Cristiano das tradições e genéticas perpetuadas. É nessa segunda parte do romance - a partir das relações estabelecidas com os personagens peculiares do interior - que conhecemos a “goianidade” do protagonista. Cristiano só se encontra quando volta às suas origens.


Em sua obra de espírito árido, André de Leones distribui momentos que parecem insinuar uma suavidade que jamais se concretiza. São esses os pontos altos da narrativa - os encontros com a meia-irmã, os diálogos de resgate com o pai e a conversa com uma tia, que serve de mote para o reconhecimento de angústias e a remição de segredos.


Deparado com o cenário de sua infância e juventude, o narrador escreve que “a cidade era uma Jerusalém sem a possibilidade do Messias”. Não há chão de promessas em Abaixo do Paraíso.

 

SERVIÇO

 

Abaixo do Paraíso, de André de Leones

256 páginas

Preço: R$ 29,50

Editora Rocco

 

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