[an error occurred while processing this directive] As brochadas de todos nós | O POVO
LIVRO 21/01/2016

As brochadas de todos nós

Em seu novo livro, Jacques Fux cria personagem autorreferencial para investigar um dos grandes tabus da sexualidade masculina
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Jáder Santana jadersantana@opovo.com.br


O escritor mineiro Jacques Fux fala sem reservas de suas brochadas. Ou quase isso. Coloca na pele de seu personagem, Jacques, as desventuras sexuais que tiveram lugar em sua cama. Um Jacques que, assim como ele, ganhou um importante prêmio literário e foi estudar nos EUA. As semelhanças abundam, cabendo ao leitor separar ficção e realidade. Em Brochadas, Fux, Prêmio São Paulo de Literatura com Antiterapias, visita um dos maiores tabus do universo masculino. Na entrevista a seguir, entre reflexões sobre inspirações e anti-heróis, o autor se antecipa: a brochada é universal.

 

O POVO – De onde surgiu a ideia de escrever um livro sobre brochadas?

Jacques Fux – Será que foi depois da minha primeira, ou será que foi depois da minha centésima brochada, que me interessei de fato pelo assunto? A verdade é que esse tema permeia a cultura desde sempre. Tanto na Bíblia quanto no mundo grego e romano, já encontramos diversas referências às nossas inexplicáveis brochadas. Porém, apesar de normal e comum, ninguém havia dedicado tanto tempo em descobrir todos os motivos, histórias e referências para as brochadas. É uma tentativa ousada de buscar um tema ainda inédito. Além disso, o livro tem como meta dar voz às mulheres. Esse tema sempre foi muito centrado no homem, mas são as mulheres que vivenciam isso o tempo todo. A história se esqueceu da visão e da voz feminina. Assim, o Brochadas apresenta a voz forte, intensa, inteligente e incisiva da mulher.

OP – Por que usar o recurso da autoficção? As brochadas do Jacques são as tuas brochadas? As nossas brochadas?

Jacques – Quando escrevi meu primeiro livro, Antiterapias, usei a primeira pessoa. Apesar de muitas invenções e citações, todos consideraram que estava falando de mim mesmo. Mesmo discutindo a questão da memória, das limitações literárias, as pessoas gostam de acreditar que tudo é “verdade”. No Brochadas levo isso ao extremo. Uso o meu nome, meu e-mail pessoal, os nomes das minhas ex-namoradas, as datas. Tudo isso para dar um gostinho de realidade, deixando que o leitor se pergunte sobre “veracidade” e a “coragem” da obra. Essas brochadas são todas minhas. Mas são também de todos nós. São as brochadas diante da vida, das relações humanas, da crueldade e contingência da cultura.

 

OP – Por que falar de falhas em tempos de heróis? De onde vem a humildade desse personagem?

Jacques – Atualmente todos, como já dizia Fernando Pessoa, são heróis em tudo. As redes sociais mostram um mundo de fadas e alegrias. Mas, talvez, a única verdade do mundo seja a brochada. Brochamos o tempo todo, não há como fugir disso. Temos, portanto, que aprender a continuar caminhando mesmo diante da falha e da impotência. Muitas pessoas têm se encontrado no livro por conta dessa humildade, dessa autoanálise e sinceridade. Será que não é isso que está faltando no mundo atual? Nos reconhecermos limitados, impotentes, fracos, mas mesmo assim querendo (e precisando) continuar? Será que aceitar tais fatos não torna a vida mais leve e, quem sabe, mais fácil? Acho que é isso o que o Brochadas procura fazer, mostrar que não há nem heróis nem mocinhos na vida real.


OP – Como você conduziu a pesquisa para escrever o livro? Em que ela se baseia?

Jacques – Apesar do tema ser um tabu, muitos filósofos, escritores, pensadores e poetas já falaram sobre o isso. Fiz minha pesquisa na biblioteca de Harvard, um verdadeiro paraíso. Durante meu pós-doutorado, além de pesquisar a questão do testemunho literário, fui atrás de livros e textos sobre brochadas. Sempre que encontrava uma referência, acabava descobrindo muitas outras coisas. Além disso, entrevistei muitas pessoas e fiz pesquisa de campo! Assim, acabei me tornando o maior especialista teórico e prático do mundo em brochadas! Desculpe a arrogância, mas duvido que tenha alguém que queira compartilhar esse título comigo!

 

OP – Você fala em Santo Agostinho, Platão, Montaigne, Hemingway e Freud. Que importância eles dão à brochada? Ao longo dos tempos, ela sempre foi encarada do mesmo modo?

Jacques – A brochada sempre foi encarada de forma misteriosa. Ninguém nunca soube o real motivo desse “descontrole” masculino ou feminino. Durante muito tempo, acreditavam que a brochada estava relacionada à bruxaria, ao olho gordo. O livro, em forma de troca de cartas entre Jacques e suas ex-namoradas, explora todos esses motivos. Desde Platão, que dizia não saber controlar os desejos desencontrados de seu “Platinho”, passando por Santo Agostinho, que acreditava que no paraíso o homem podia ter ereções quando quisesse mas, com a punição de Deus, o homem passaria a brochar, até as questões sobre os cheiros e odores que Freud levanta. Algumas passagens dos livros de Hilda Hist também aparecem, para dar voz às mulheres.

OP – Que recado você deixaria para os brochadores de primeira viagem?

Jacques – Novos brochadores e brochadoras, uni-vos! Vocês não estão sozinhos. Mesmo que ninguém revele, todos, desde de sempre, brocharam e continuarão brochando! Leiam nossa nova Bíblia, Brochadas. E, amém!

 

SERVIÇO

 

Brochadas

De Jacques Fux

249 páginas

Rocco

Preço: R$ 29

 

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