RESENHA. LITERATURA 08/01/2015

Turbilhão de dores de amores em primeira pessoa

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LaCarne: livro reúne estilos literários em tom de desabafo
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Cada história de amor desempenha uma missão no mundo. A uns, completa, ilumina, resgata, revive. A outros, despedaça, aturde, enrijece. O que restará é decisão de quem ama. O escritor Antônio LaCarne, 31, escolheu fazer do coração partido, o seu e os outros de quem tomou as dores, o mote para uma poesia debochada e romântica, honesta e cínica.

 

Salão Chinês (Editora Patuá) é isso, uma grande poesia descrita em 100 páginas de prosa. Mistura de carta desaforada com fragmento, conto, diário de quem foi deixado mais de uma vez e ainda assim manteve o amor próprio. Dança literária capaz de combinar pares tão incríveis quanto improváveis.


Como não se surpreender quando dá certo o encontro da literatura de blog com o resultado da labuta de dois anos sobre um trabalho genuinamente literário? Ou, ainda, quem imaginaria achar numa mesma obra o ator pornô Pavel Novotny e a poeta americana Anne Sexton (1928-1974), referência da poesia confessional ao lado de Sylvia Plath (1932-1963) -- outra referência presente em Salão Chinês. Tudo é matéria para o autor e estreante cearense: da mais consagrada Literatura ao mais baixo teor moral.


A autoficção de Antônio LaCarne, junção de pessoa e persona, vai do gosto pelo gesto mais banal ao interesse por “cultura pop, os filmes da Sofia Coppola, uma música da Kylie Minogue versus La Mamma Morta da Maria Callas -- alguém que me encanta pelo drama em si da coisa”, explica o escritor. Salão Chinês às vezes lembra o ar cult da poesia de Ana Cristina Cesar e o tom escancarado do seu amigo, Caio Fernando Abreu. E o que fica disso, dessa costura, é a certeza de que tudo pode servir ao dizer artístico.


“Trato muito do rancor e das injustiças do destino, além de dramatizar coisas que ouvi de terceiros e que pude trazer pro meu próprio mundo. O livro surgiu de um amor real fatídico e de muitos imaginários, além de relações passadas. Juntei toda a merda e tentei dar um toque de glamour decadente, porém voltado aos dias atuais”, diz LaCarne.

 

Ativismo

O amor, tema mais batido e fundamental desde a.C., é abordado por um autor/personagem que parece querer tirar do armário toda obra de arte que não se digne a representá-lo, bem como a seus amantes: homens, todos homens. Daí LaCarne, em sua poesia-prosa confessional, tratar da canalhice, do sentimento desmedido, da indiferença mais profunda, do rancor mais violento com o mesmo desaforo com que trata da hipocrisia heteronormativa, da homofobia travestida de bons costumes. Uma escolha que fala menos de categorias literárias que de ativismo contra qualquer tipo de preconceito.

 

“Escrevo sobre as desilusões amorosas entre homens porque além de fazer parte da minha vida, esse é um tema que deveria ser bem mais explorado por aí, pois tudo o que esperamos diante de um filme, de um livro, de um poema é a identificação com nós mesmos. Você quer se ver ali, fazer parte daquilo, ser tocado”, reclama.


Lançado pela editora paulista Patuá, uma das pequenas e mais destacadas casas editoriais do País, com foco em autores contemporâneos estreantes, Salão Chinês ainda deve desbravar muitos espaços. Tem potencial para despertar discussões as mais diversas - a depender do ângulo escolhido. É um livro sobre o amor, as desilusões de quem ama, mas nem de longe se encerra aí. Tem uma batida pop-sexy-vulgar que não deixa o leitor ficar quieto. (Raphaelle Batista - raphaellebatista@opovo.com.br).

 

Serviço

 

Salão Chinês

Antônio LaCarne

Editora: Patuá

100 páginas

Quanto: R$ 35 + frete

Vendas pelo site: http://editorapatua.com.br/

TRECHOS


alô, hoffman?

“ele, o trágico amor descalço, é um filho insensato que não respeita conselhos de mãe, madrasta, meretriz. & ainda me perguntam sobre as foices do destino. as foices do destino descosturando flores enquanto caio de quatro na calçada.”

 

tarântula

“pois me perfumei com desdém ao me negarem companhia na cidade que não é fofa, nem clean. de uns tempos pra cá, dei prioridade ao silêncio, congelei o mundo, segreguei os desafetos, pus a cabeça no forno, quis imitar sylvia com o maior respeito possível.”

 

boyfriend

“projeto: obssessão, terror & glória. 

25 de fevereiro de um ano qualquer: a vida é um fist fucking cravejado de diamantes pontiagudos.”

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