[an error occurred while processing this directive][an error occurred while processing this directive] Da bossa nova ao pós-tropicalismo | O POVO
ARTIGO 18/08/2013

Da bossa nova ao pós-tropicalismo

O PESQUISADOR Felipe de Oliveira desenha o contexto musical e político brasileiro que viu surgir Jards Macalé, Sergio Sampaio, Luiz Melodia, Jorge Mautner, Tom Zé e Walter Franco. O que queriam e o que esses nomes trouxeram à cena do País
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Desde a eclosão da bossa nova em 1959 com o disco Chega de Saudade de João Gilberto, o mercado cultural brasileiro vinha atravessando um período de ascendente efervescência e, ao mesmo tempo, conquistando reconhecimento e influência cada vez maiores no exterior. Consolidando-se como estilo musical e passando a atuar não só nas terras tupiniquins como chegando a terra do “Tio Sam”, e influenciando a música e a cultura de massas norte americana, tendo seu auge nas gravações do maior ícone da música norte americana, Frank Sinatra.


Como resultado dessa efervescência, nos primeiros anos de ditadura militar o País viveu a “Era dos Festivais”, período esse que vai de 1965 a 1972, ano do ultimo Festiva Internacional da Canção e auge da repressão pós AI-5 no governo Médici. Os Festivais da Canção foram responsáveis por revelar grandes nomes da Música Popular Brasileira até hoje consagrados, como: Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Raul Seixas, Geraldo Vandré, etc.


Como consequência do endurecimento por parte da ditadura militar e da atuação da esquerda tradicional brasileira, que por vezes comportava-se de forma excessivamente conservadora, xenófoba e retrógrada em questões estéticas, surgiu o tropicalismo, tendo como maiores mentores intelectuais Caetano Veloso e Gilberto Gil.


O tropicalismo tinha por finalidade tornar-se objeto de cultura de massas, e trazia consigo uma proposta de liberdade de criação artística unida à perda do nacionalismo exacerbado da época. Em um contexto criativo em que o artista ou fazia “música de protesto” ou fazia música de “apelo comercial”, os tropicalistas queriam ir além, objetivavam tanto fazer música de protesto, como canções de amor, como música de vanguarda. Assumir-se tropicalista significava ir além da turma da MPB e da Jovem Guarda, mas ao mesmo tempo, sendo MPB e Jovem Guarda.


Os compositores “malditos” da MPB surgiram e iniciaram suas carreiras sob a influência da Tropicália, não eram tropicalistas, pois apesar da repressão ser a mesma, o contexto era outro. Os “malditos” da MPB deram abertura a suas carreiras acrescentando não um novo movimento, mas um novo olhar, o “pós-Tropicalismo”.


Enquanto a Tropicália cantava a “Alegria, alegria”, a vida, a liberdade, a luz (como no trecho desta mesma canção de Caetano, “O Sol nas bancas de revistas”). O pós-tropicalismo trouxe canções de caráter “noturno”, a automarginalização, a solidão, a tristeza, a escuridão, a temática da morte e o sentimento de derrota. Sob uma conjuntura de exílio dos maiores símbolos do tropicalismo e da MPB, os pós-tropicalistas surgiram no mercado sob o impacto do baixo astral, da frustração dos sonhos de resistência e da própria derrota que a essa altura era fato consumado.


Porém o mercado necessitava de renovações e novas promessas musicais surgiram assim sob o impacto do pós-tropicalismo, nomes como: Jards Macalé, Sergio Sampaio, Luiz Melodia, Jorge Mautner, Tom Zé e Walter Franco. Artistas que foram rotulados em sua época e até hoje são conhecidos por nossa geração como “Os Malditos da MPB”.

 

O Rótulo


Os seguintes músicos não pertenceram a um “movimento” especificamente, como o movimento bossa-nova ou os tropicalistas por exemplo. Porém, eram eles os responsáveis pelas propostas musicais mais arrojadas e ligadas à vanguarda musical brasileira. Além da musicalidade bastante “exótica”, os “malditos” possuíam em comum traços de personalidade bastante forte e impulsiva.


Vendo essas características sob uma proposta comercial e direcionada a um público alvo, e a própria dificuldade de catalogação e enquadramento em estilos musicais específicos, as gravadoras encontraram nesses artistas uma possibilidade de venda de um produto, só faltava o rótulo, daí surgiu o apelido nada carinhoso de “maldito”. Apelido esse que inicialmente foi alimentado pelas próprias gravadoras, provavelmente buscando atingir uma juventude, cult, politizada e ligada as tendências contraculturais. Porém, a rotulação com o tempo foi entrando em desgaste e até mesmo voltando-se contra os próprios artistas.


Diferentemente do que muitos fãs e pesquisadores da época afirmam, “os malditos” objetivavam sim o sucesso. A TV, o rádio e as multidões eram o objetivo final de seus trabalhos, porém, o diferencial deles para com os demais artistas da época era o fato de eles não abrirem mão em hipótese alguma, de sua independência e liberdade de criação. E em virtude disso, alguns pagaram com suas próprias carreiras e caíram no esquecimento do grande público.

 

Felipe de Oliveira é aluno do curso de Licenciatura em Música da Universidade Estadua do Cerapa e Técnico em Música pelo Instituto Federal do Ceará.

 

PERFIS


Sérgio Sampaio (1947 – 1994)

Ex-membro da Sociedade da Grã-ordem Kavernista, quando trabalhou ao lado de Raul Seixas, o capixaba teve uma trajetória repleta de altos e baixos. Morreu aos 47 anos sem ter seu trabalho devidamente reconhecido. Teve canções interpretadas por Erasmo Carlos, Lenine, Zeca Baleiro e outros.

 

Jorge Mautner

Espécie de mestre da contracultura nacional durante os anos 1970, Mautner atuou ao longo da carreira como compositor, cantor, músico, escritor, palestrante e cineasta. No início de 2013, o filme O filho do Holocausto (Pedro Bial e Heitor D’Alincourt) levou aos cinemas suas canções, histórias e dilemas.

 

Saiba Mais


O músico e pesquisador Felipe Oliveira lista músicas essenciais da geração “maldita”:

 

Jards Macalé: “Gotham City” (FIC 69); “Farinha do Desprezo” (1972), “Movimento dos Barcos” (gravada posteriormente por Maria Bethânia); “Mal Secreto”, “Hotel de Estrelas”, “Vapor Barato” (todas gravadas no histórico LP Fa-Tal e Gal a todo vapor, 1971)


Sergio Sampaio: “Eu quero é botar meu bloco na rua” (FIC 72); “Filme de Terror”, “Pobre meu pai”, “Viajei de Trem” (1973); “A luz e a semente”, “Tem que acontecer”, “Quatro Paredes” (1976).


Luiz Melodia: “Pérola Negra” (gravado por Gal Costa), “Estácio Holy Estácio” (gravado por Maria Bethânia), “Abundantemente Morte”, “Magrelinha” (1973); “Juventude Transviada”, “Ébano”, “Congênito” (1976); “Presente Cotidiano” (1978); “Mistério da raça” (1980).


Jorge Mautner: “Radioatividade” (1966); “Olhar bestial” (1972); “Maracatu atômico” e “Herói das estrelas” (gravadas por Gilberto Gil), “Pipoca à meia noite”, “Samba dos animais” (1974); “Bomba de Estrelas” (1981).


Tom Zé: “2001”, “Que bobagem” (1969); “O riso e a faca” (1970); “Jimmy Renda-se”, e os discos memoráveis Todos os olhos (1973) e Estudando o Samba (1975).


Walter Franco: “Não se queima um sonho” (interpretada por Geraldo Vandré), “Cabeça” (FIC 72), “Me deixe mudo” (gravada por Chico Buarque em 1974); “Muito tudo”, “Mamãe d’água”, “Feito Gente” (1975); “Coração tranquilo” (1978); “Canalha” (1979).

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