Dança 04/07/2013

O corpo sem pudor

Corpornô, novo espetáculo da Cia Dita, estreia amanhã (5) com a proposta de inquietar o público para pensar sobre o erotismo/pornografia. O trabalho tem direção do coreógrafo Fauller
WLÁDINA FERNANDES / DIVULGAÇÃO
Cena de Corpornô: cenas construídas a partir de experiências individuais dos bailarinos da companhia
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Ora muito bem vestidos em figurinos impecáveis, ora vestidos de uma nudez crua, corpos em cena reproduzem experiências individuais que ganharam interpretação cênica para a montagem de Corpornô, o novo espetáculo de dança da Cia Dita, que estreia amanhã, no Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno, às 20 horas. Ao público que assiste cabe decidir se as imagens construídas em cena são eróticas ou pornográficas. “Corpornô é um projeto corajoso que transita entre a pornografia e o erotismo. A gente deixa uma linha bem tênue entre um e outro e depende muito do público que vê pensar se é erotismo ou pornografia”, instiga corégrafo Fauller, diretor do espetáculo.


Apesar da linha tênue, Fauller explica que usa a nudez para despertar no público questionamentos sobre a sua própria sexualidade, a forma como vê e lida com a nudez, com o seu corpo e o corpo do outro. “O que eu evitei foi ficar no lugar comum. Não quero que estejamos falando de pornografia usando roupas de sexshop, de vinil, embora isso também seja forma de falar de pornografia, mas não era isso que queríamos. O desejo da gente era deslocar o público para pensar o que pode vir a ser erótico ou pornográfico”, acrescenta.


Segundo Fauller, a vontade de montar um trabalho que colocasse em discussão essas questões o acompanhava há, pelo menos, uns sete anos, quando ainda estava criando o segundo trabalho da Cia Dita (Inc, 2005), mas preferiu esperar amadurecer mais para formatar o projeto. “Eu achava que tinha que me dar a chance de fazer outros trabalhos para não tratar esse tema do erotismo/pornografia de uma forma superficial. Eu também precisava amadurecer como profissional, e como pessoa mesmo, para me apropriar do tema”, lembra. Nesse tempo, ficou mergulhado em leituras e filmes sobre o assunto.


Mais tarde, já no processo de concepção do espetáculo, todo o corpo de baile foi estimulado também a trocar experiências e leituras sobre o tema. Entretanto, foi a experiência pessoal de cada um dos sete bailarinos da Cia Dita (Patrícia Crespí, Luiz Otávio Queiroz, Bruno Gomes, Wilemara Barros, John Pessoa, Clarissa Costa e Fauller) que inspirou as cenas de Corpornô. “Cada um escreveu uma experiência sexual, em detalhes, e tinha que ler para os outros. Foi muito interessante. Gente muito bem resolvida com a sua sexualidade, se viu constrangida de falar disso. A partir daí, quando a gente viu que também precisava lidar com a nossa sexualidade melhor, a forma como conversamos sobre ela, nós passamos a fazer outros exercícios, na sua maioria individuais”, conta Fauller.


A partir de trechos das histórias reais, o diretor propôs aos seus bailarinos que criassem cenas e, aos poucos, as experiências pessoais de cada um foi se diluindo ao longo do espetáculo. “Corpornô tem uma coisa de teatro muito forte, embora não tenha texto, mas nos movemos, coreograficamente, menos. A cena é desenvolvida a partir de imagens”, descreve. Com duas horas de duração e os sete bailarinos da companhia se reversando no palco, Corpornô reúne um total de nove cenas com diferentes durações. “Enquanto algumas chegam a 20 minutos, outras mal chegam aos três minutos. Nós quisemos subverter até essa noção de tempo”, diz o coreógrafo.


Uma pequena mostra do que poderia se tornar Corpornô foi apresentada ainda em setembro de 2012, dentro de uma mostra comemorativa aos 10 anos de Cia Dita, completados em 2013. A estreia oficial do espetáculo, no entanto, foi em abril deste ano, em Juazeiro do Norte, dentro da “V Semana D de dança do Cariri”. Para Fauller, a calorosa recepção do público caririense foi “muito forte” e serviu como termômetro para impacto do espetáculo. “A gente entrava nos bares e tinha gente comentando, o espetáculo levantou discussões na universidade e eu acho que o trabalho é pra isso, para mexer com as pessoas, levantar discussões”, comemora.


Para Fauller, Corpornô chega como o espetáculo mais bem resolvido do grupo logo em sua estreia. “Esse é um dos trabalhos mais maduros da companhia. Fazia um tempo que a gente não tinha uma estreia tão segura, tão consistente. A gente sempre ia amadurecendo durante as apresentações”, aponta. Como em todo projeto seu, entretanto, ele não descarta a possibilidade de o tempo e novos olhares darem outro formato às cenas. “Eu costumo dizer que meus trabalhos nunca estão finalizados, mas eu acho que é um trabalho que em toda a estrutura, ele está bem fechado”, diz. “Mas a arte é uma coisa viva, dançar não é como um quadro, uma obra de artes plásticas ou um filme que você não vai ficar mexendo depois de pronto. A gente que trabalha com artes cênicas tem o privilégio de ir alterando as cenas e aprimorando com o tempo”, ressalva.

 

Quem


ENTENDA A NOTÍCIA


Criada em 2003, sob a direção do coreógrafo cearense Fauller, a Cia Dita ganhou projeção no cenário nacional e internacional da dança contemporânea com trabalhos que levam ao palco a relação corpo – espaço – política - sexualidade.

 

SERVIÇO

 

Corpornô

O quê: novo espetáculo da Cia Dita, com direção do coreógrafo Fauller.

Quando: estreia amanhã (5) e segue em cartaz todas as sextas de julho, sempre às 20 horas

Onde: Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno (Av. da Universidade, 2210 – Benfica)

Ingresso: reservas pelo email corporno.ciadita@gmail.com

Outras info: 9603 6282


Naara Vale naara@opovo.com.br
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espaço do leitor
Espectador 04/07/2013 19:19
Interessante o projeto desde a concepção. Vale a pena levantar essa discussão sobre sexualidade em cada um de nós. Já estou "reservado" e só aguardando.
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Fauller Dandi 04/07/2013 09:41
Naara Vale, amei a matéria! Bem escrita, bem cuidada, acho que você captou as nuances da minha fala. Muito obrigado!
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Fauller Dandi 04/07/2013 09:41
Naara Vale, amei a matéria! Bem escrita, bem cuidada, acho que você captou as nuances da minha fala. Muito obrigado!
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