Literatura 19/04/2013

A menina aos 90: o aniversário de 90 anos de Lygia Fagundes Telles

Lygia Fagundes Telles não quer saber de comemoração. Mas a literatura brasileira celebra hoje os 90 anos da escritora que fez de sua arte um ofício; e de sua obra, uma inspiração para várias gerações
NILTON FUKUDA / AE
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A data pede. A importância da artista impõe. Muitos jornais celebram. Escolas e Academias de Letras não deixam passar em branco. Ainda assim, Lygia Fagundes Telles se mantém alheia. Não dá bola para o próprio aniversário e não seria hoje, ao completar 90 anos, que comemoraria. A Companhia das Letras, editora que a representa desde 2009, logo avisa: se for essa a desculpa, não tem conversa. Pois bem, não a enganemos: a intenção é fazer festa para a autora de As Meninas (1973) e Seminário de Ratos (1977).


Quarta filha do casal Durval de Azevedo Fagundes e Maria do Rosário Silva Jardim de Moura, Lygia nasceu na capital paulista em 1923. Antes de aprender a escrever, já escrevia, conforme contou ao Instituto Moreira Salles, quando foram publicados os Cadernos de Literatura nº 5, dedicados a ela. “Não é charminho de escritor, não. Falo assim porque antes de ser alfabetizada eu já contava histórias.”


É o IMS que guarda o acervo da escritora e é nesse inventário biográfico que ela relata sua predileção infantil pelas histórias de terror e o apego ao pai, jogador de cartas e roletas. Ainda pequena, ele a levava a um cassino em Santos. Foi também seu primeiro leitor. “Quando eu estava no ginásio, lia minhas histórias para o meu pai. Ele gostava de dizer ‘está bom, está muito bom; o nome da personagem é que talvez você devesse mudar’. Eu ficava radiante com essa atenção dele.”


Inspirada no pai advogado, Lygia cursou a respeitada Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, a mais tradicional do País. “Na minha turma, éramos apenas seis mulheres entre mais de cem homens. Todas virgens! Certa vez, um dos meus colegas me perguntou: ‘O que vocês, mulheres, querem aqui na faculdade? Casar?’ Respondi, de bate-pronto: ‘Também!’ Mal sabia ele que me casaria com um dos professores (Goffredo da Silva Telles)”, disse em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.


Com o primeiro marido, teve apenas um filho, Goffredinho, falecido em 2006. Casou-se uma segunda vez com o crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes.


Ofício: escritora

Nos tempos em que trabalhou no Departamento Agrícola do Estado de São Paulo, enquanto estudava Direito, Lygia aproveitava as folhas de boa qualidade e enfeitava os rascunhos de contos com o timbre oficial do órgão. Mesma moldura que usava para as cartas a Erico Veríssimo. A amizade com o já famoso autor de Olhai os lírios do campo começou quando ele, gentilmente, respondeu à jovem que lhe mandara seu primeiro livro, Porão e sobrado (1938), publicado aos 15 anos, graças ao empenho paterno.

 

O verdadeiro ofício de Lygia podia ter começado ali ou em Praia Viva (1944) – sua segunda publicação. Todavia, é com o romance Ciranda de Pedra (1954) que ela gosta de demarcar o início da carreira como escritora. “Fico aflita só de pensar nas novas gerações lendo esses meus livros (os dois primeiros) que não têm importância. Eu não quero que os jovens percam tempo com eles. Quero que conheçam o melhor de mim mesma, o melhor que eu pude fazer, dentro das minhas possibilidades”, disse na mesma entrevista ao IMS.


O melhor de Lygia, portanto, rendeu uma trajetória vasta e coroada com alguns dos maiores prêmios literários no Brasil e no exterior, como o Jabuti, da Câmara Brasileiro do Livro, e o português Camões, em 2005, pelo conjunto da obra. O livro mais recente, Conspiração de Nuvens (Rocco), é de 2007, quando contava 84 anos. Até o ano passado, disse ela à revista Veja, ainda escrevia todos os dias, mesmo não seguindo uma rotina. Era puro dever. “Gosto de me preparar para escrever. Eu não escrevo de qualquer jeito - de camisola, de pijama. Eu gosto de me arrumar! Escrever é o meu ofício e quero estar arrumada para ele. Dentes escovados, banho tomado, uma roupa, pronto: agora vou trabalhar”, contou aos Cadernos de Literatura que a homenagearam.


Escritora por ofício, a última grande dama da literatura brasileira chega aos 90 reafirmando a escrita como um ato de amor, doação absoluta, confusão entre vida e obra. “É difícil separar a ficção da invenção, a fantasia da memória. Não há uma linha separando o que você viu do que você sonhou. A imaginação ocupa o espaço da memória”, disse ela em entrevista ao O POVO em 2007.


À sua revelia, as comemorações já começaram. Ontem, na sede carioca, do IMS, uma noite só para Lygia. E devem se estender. A Biblioteca Nacional mantém até junho exposição sobre a obra da autora.

 

Sugestão do leitor


Esta matéria foi sugerida pelo leitor Sávio Alencar


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Raphaelle Batista raphaellebatista@opovo.com.br
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