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Perfil 19/11/2012

O recuo necessário

A poetisa ocupante da cadeira de número sete da Academia Cearense de Letras, embora tímida, guarda uma obra das mais consistentes da literatura cearense. O Vida & Arte convida à (re)descoberta de Marly Vasconcelos
DEYVISON TEIXEIRA
Marly Vasconcelos: "depois da neblina, o arco-íris"
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Alguém apressado poderia dar nome de reclusão à postura da cearense Marly Sales Vasconcelos. Mesmo poetisa, embora flerte com o conto e o romance, com seis livros publicados; bacharel em Direito, ex-professora de Literatura do curso de Letras da Universidade Federal do Ceará, colaboradora de revistas e movimentos literários como Pássaro, Siriará, O Saco; além de imortal da Academia Cearense de Letras; ela dispensa o “auê” literário, não se ressente de ser pouco conhecida entre novos leitores e fica “apavorada” ante a visita de O POVO. Timidez talvez pudesse definir, mas o termo não alcança o sentido. Recuo é a melhor palavra.


Para escrever é preciso transportar-se para dentro de si, interiorizar cada vez mais, ensina a autora. “A literatura exige esse recuo senão você não produz coisas que valham a pena”, acredita. Talvez daí venha a resistência ao hábito de tantos escritores nesses tempos de redes sociais: a exposição. “Eu não faço questão desse ‘auê’, não me faz bem. Porque já vai exigir ir pra Cultura todo domingo, (tomar) cafezinho, chazinho, não sei o quê. Eu não quero”, explica Marly.


É que o silêncio, enfatiza ela, é parte essencial do trabalho. “Isso não quer dizer que eu não vou a shopping. Adoro, eu vou”, conta, rejeitando a ideia do confinamento. Ela gosta de ir às compras e às contas, toda segunda e terça-feira, de preferência pela manhã e acompanhada apenas de si, assim como gosta de acompanhar o time do coração, o Flamengo – que não é mais aquele de Zico e Romário, mas ela não troca – e até a genialidade dos gols de Messi. “Tenho uma vida normal, só não no momento em que eu quero ficar recuada para escrever”.


Esse recuo é parte do estreitar de laços com o ofício, de vivenciá-lo tanto até unir-se a ele de forma quase visceral. Assim diz Marly, no poema “Verbum”, quando se define a própria palavra e interpela o leitor: “Poderás avaliar o que é ser palavra?”. Para ela, é lidar com a eterna insatisfação que alimenta o ato de escrever. “Botar a palavra exata no papel, aquela que você pensou e não consegue, esse é o preço. Você nunca chega lá. O que é muito bom. Eu gosto de claudicar”, reflete.


Assim foi entre o primeiro livro de poesias, Água Insone, de 1973, e o segundo, “Cãtygua proençal”, lançado doze anos depois, em 1985. Ela não deixara de escrever nesse período, mas os elogios (que chama “coisas graves”) dos críticos da época sobre o trabalho de estreia lhe meteram o maior de todos os temores, o de “profanar a palavra”. “Eu respeito muito a palavra, por isso não publico tanto”, justifica-se. Por isso, também, ainda hoje não hesita podar a escrita diante do menor sinal de reprovação dos leitores de confiança e não receia rasgar o que considera ruim.


Apesar da severidade, porém, a escritora não reprime o ato de criar e deságua em literatura na forma em que ela vier, ainda contando com a velha e pequena máquina de escrever alaranjada. Depois da poesia, a palavra apareceu em forma de prosa, com o romance Coração de Areia (1989), menção honrosa no Prêmio Graciliano Ramos da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro. Voltou ao modo poético em Sala de retratos (1998), Azul-Cobalto (2002) e Solitário Bandolim (2010), seu livro mais recente.


Despreocupada com a espessura do livro, no correr das 31 páginas do último trabalho, a autora tímida, porém falante, que exibe no corpo magro uma fragilidade só desfeita com a força das palavras, reforça a própria ideia de Literatura em poemas curtos sobre solidão e vivência interior – o recuo necessário.


“Se eu não interiorizar, como é que vou escrever? O problema é esse, nós temos que procurar e batalhar e sofrer. Literatura, já lhe disse, é dor. Você tem de sofrer na vida, tem de ter sangue, e também a docilidade. Depois da neblina, o arco-íris”, diz.

 

Trechos

 

Poemas de Marly Vasconcelos


Uma época escrevi estórias com tanta ansiedade

que não podia comer uma maçã.

Não havia tempo para o detalhe.

Palavra, eu fui palavra.

Poderás avaliar o que é ser palavra?

Fecha os olhos e compõe com tuas lembranças

um território exaurido e descarnado,

pasto de animais melancólicos,

lagoas, cacimbas secas.

Na terra, debaixo da oiticica, um monte de ossos.

Preço que paguei sendo palavras.

(”Verbum”)

 


Minha tristeza de hoje é muito bela.

Maçã que repousa grandiosa,

fruta silente de sabedoria.

Aprendi contigo a estar só no meio de muitos

e comecei a vislumbrar a importância das coisas,

a verdade da sequência dos dias.

Pouco colhi entre os homens,

mas tuas lições foram todas magníficas

e quando percebo que sangro

retomo o que me ensinaste,

não choro a falta da alegria.

Hoje minha tristeza é muito bela,

solidão,

e novamente eu te bendigo.

(”Minha tristeza de hoje é muito bela”, de Solitário Bandolim)

 

Raphaelle Batista raphaellebatista@opovo.com.br
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espaço do leitor
Clovis Araujo 25/11/2012 07:18
Acompanho a carreira de Marly desde a primeira publicação. Tive o prazer de poder acompanhar as suas aulas na Universidade Federal. Esse encantamento pela poesia sempre foi transmitido nas aulas. Voltei a relembrar essa época. Linda matéria. Parabéns ao povo por esse resgate tão belo. Clovis Araujo
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