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A gênese da folia 02/07/2011 - 15h00

A mi-carême no Brasil

As origens do carnaval fora de época no Brasil remontam às antigas micaretas europeias que se popularizaram no século XIX
IGOR DE MELO
Surgida nos anos 30, na Bahia, a micareta acompanhou as transformações culturais


Vanicléia Silva Santos
ESPECIAL PARA O POVO

Não é fácil precisar onde teria ocorrido as primeiras festas de micareta no Brasil. Essa não é tampouco tarefa do historiador. Olhar uma festa na longa duração é tarefa perigosa, pois incorremos no ato de acachapar processos históricos que não são lineares.

 

Como sabemos a origem do Carnaval no Brasil está associado ao entrudo. Até que o termo Carnaval passou a ser utilizado pelas autoridades para designar as festas realizadas pelas grandes sociedades com bailes, desfiles e batalhas de confetes, em detrimento do entrudo, que passara a ser visto como algo rude e inculto. Essa festividade que consistia em uma batalha de líquidos nas ruas das cidades foi trazida pelos portugueses e espalhou-se pelos centros urbanos oitocentistas.

 

No Rio de Janeiro, a imprensa pôs-se contra o entrudo os limões-de-cheiros e todo tipo de molhaceira na cidade. Durantes os anos 1880 ate 1910, eram inúteis as críticas dos jornalistas e literatos, e frágil a ação da polícia para desanimar os foliões de suas brincadeiras de molhar. Em Salvador, o entrudo foi oficialmente proibido em 1853, pois era visto como jogo sujo, anárquico e incivilizado. Tanto no Rio como em Salvador, a imprensa insistia em tecer elogios esfuziantes aos carnavais elegantes de Nice e Veneza, dando destaque aos bailes à fantasia, desfiles de cordões com bandas de música e carros alegóricos ricamente ornamentados.

 

Qual a relação entre Carnaval e micareta? Mi-carême é uma palavra de origem francesa que significa literalmente “meio da quaresma”. Em Paris, o primeiro mi-carême foi comemorado por estudantes, comerciantes, açougueiros, comerciantes e lavandeiras, entre as quais elegiam a rainha. A festa da mi-carême acontecia em Paris desde o século XV. Interessante notar que até o século XIX tinha ainda aspecto popular. No meio da quaresma, o povo fazia a Queima do Judas e a Serração da Velha.

 

Essa tradição popular da festa no fim da quaresma aportou no Brasil desde o século XVIII, por influência lusa. A Missão Artística Francesa que esteve no Brasil no início do século XIX, captou em pintura um momento da Malhação do Judas em Sábado de Aleluia.

 

No início do século XX, foi buscada na Europa uma versão sofisticada e elegante para substituir a festa popularizada do Sábado de Aleluia, vista como incoerente diante dos novos ditames civilizatórios dos centros urbanos brasileiros, cujo exemplo maior era o Rio de Janeiro.

 

Olga Simson no seu estudo A Burguesia se diverte no Reinado de Momo, registrou que em São Paulo, a partir de 1860, no fim da quaresma realizaram-se bailes de Aleluia à fantasia em teatros da cidade para a elite, animados pelas bandas do corpo da polícia. Os populares também a celebravam com folguedos de rua e de salão, elegendo a rainha da festa. Havia um modismo da nova festa, adquirido pela elite que imitava os carnavais franceses de Nice – os corsos e batalhas de flores.
A mudança do termo francês Mi-carême para o brasileiro (ou baiano) Micareta ocorreu em 1935, em Salvador.

 

Segundo a folclorista Hildegardes Viana, a micareta foi introduzida em Salvador porque o Carnaval estava perdendo o brilho na capital. A festa foi organizada pela elite local com os seguintes elementos inovadores: “desfiles nas ruas com os três grandes clubes e uma profusão de cordões e blocos. O corso, desfile de cordões de foliões fantasiados em carros abertos, era o mesmo do carnaval, havendo animadas batalhas de confetes e serpentinas”.

 

A festa que deveria substituir o Carnaval entrou em decadência. Os organizadores tiveram a ideia de fazer uma eleição para trocar o nome mi-carême e assim reanimar a festividade. O jornal A Tarde de Salvador, em 5/4/1935 registrou o resultado da eleição: “Morre, não morre, a Micareme ganhou novo alento com a campanha feita pelos jornais para a mudança de nome (...). Depois de ruidosa votação popular, dez nomes foram selecionados para as semifinais: Refolia, Micareta, Carnavalito Arlequinada, 1ª. Festa Outonal, Mascarada, Bicarnaval, Precarême, Brincadeira e Remate. Nas finais, Refolia e Micareta se pegaram (...) – vencera Micareta por três votos.”
O ano 1935 culminou com o processo de popularização desta festa que era utilizada pelas elites como forma de impor outra maneira de brincar aos demais grupos, e com a interiorização da micareta para as cidades de maior porte da Bahia, como Jacobina e Feira de Santana, por exemplo.

 

As filarmônicas dos clubes que animavam as festas eram grande fator de destaque aos grupos participantes. Mas a micareta dos desfiles dos corsos deixou de ser apreciada pelo povo, que muitas vezes sofriam proibições como a de usar máscaras. Em 1950, a invenção do trio elétrico por Dodô e Osmar em Salvador promoveu uma profunda mudança na forma de se brincar a festa.

 

O Novo Carnaval do Brasil nas palavras de Moraes Moreira era transformador, pois a música tocada pelo trio logo se contrapôs às antigas filarmônicas e bandas militares que tocavam para um grupo de foliões em desfiles pelas ruas. Curiosamente, quando o povo tomou conta da rua para dançar atrás do trio elétrico, as elites buscaram novamente os clubes sociais, porém não demorou que retornassem às ruas privatizando o espaço público nos chamados blocos carnavalescos.

 

Na atualidade, há uma indústria cultural que lucra milhões de reais oferecendo por todo o País, o ano inteiro, entretenimento com as bandas de axé music, suas estrelas pops, trios elétricos com toneladas de equipamentos para oferecer som de alta qualidade aos blocos carnavalescos.

Vanicléia Silva Santos é doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e professora de História da África do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais.

 

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