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Milton Lima 03/09/2012

Histórias do "zelador" do Paço

Natural de Quixadá, desde criança morador de Fortaleza, Milton Lima é um notável contador de histórias. Uma boa parte delas relatada ao O POVO e transformada na agradável entrevista que se segue
Foto Sara Maia
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Com fala apressada e jeito simples, Francisco Milton de Sousa Lima, 72, vai desenhando suas lembranças sobre a Prefeitura de Fortaleza, de várias gestões. Serviu a administração municipal desde 1964, quando o General Murilo Borges comandava a Capital, até este ano, quando se aposentou.


Trabalhou por anos na Secretaria de Comunicação e, assim que o ex-prefeito Vicente Fialho comprou o Palácio do Bispo, estabeleceu uma relação de cuidado e amor com o Paço Municipal, em 1973, tornando-se o administrador do lugar.


Natural de Quixadá, veio a Fortaleza ainda criança com os pais, fugido da seca. Filho de agricultor e lavadeira, mal imaginava que um dia trabalharia tão perto do poder. Mas engana-se quem pensa que era isso que o seduzia. Os olhos sorriem mesmo é quando ele fala do pé de baobá plantado no Bosque João Delgado.


Entristeceu-se quando Juraci Magalhães, em 1990, deixou o prédio, para administrar a cidade da avenida Luciano Carneiro, na Vila União. Defende que o lugar da Prefeitura é no Centro, mais perto das pessoas. Vibrou, quando a atual prefeita Luizianne Lins iniciou a reforma do Paço e o escolheu para retornar ao lugar e acompanhar a obra.


Seu Milton conta hoje algumas das histórias que viveu. Ao lançar um olhar para futuro, tudo o que ele mais quer é que o Paço seja cuidado com o mesmo amor que até hoje nutre pelo lugar.


O POVO - O que trouxe o senhor a Fortaleza?

Milton Lima - Eu vim pra cá com meus pais, quando tinha seis anos e fui morar na Bela Vista. Viemos para cá, na época, porque houve uma seca, não tinha chuva. Aqui, meu pai foi trabalhar na Escola de Agronomia, na enxada, porque ele era agricultor no Interior. Meu pai trabalhava no campo e minha mãe lavava roupa. Ela lavava roupa até para o (ex-senador) Virgílio Távora. Cansei de ouvir muito da minha mãe, quando ela ia de bonde pela (avenida) Bezerra de Menezes e ia até a casa dele, pertinho do Mercado Central. Ela vinha e deixava a roupa dele. Eu era rapazinho, tinha dez, oito anos.

 

OP - Como o senhor chegou à Prefeitura?

Milton - Eu não queria servir ao Exército, porque, naquele tempo, trabalhava muito e mandavam a gente pra Escola de Aprendizes Marinheiros. E eu tinha medo, sabe? Aí, com 17 pra 18 anos, houve uma inscrição na prefeitura. Tinha 242 inscrições e 42 vagas para contínuo e Guarda Municipal. Me inscrevi. O teste foi lá no Colégio Cearense, na (avenida) Duque de Caxias e eu passei em primeiro lugar. Quando fui olhar minha função, era guarda municipal. Pensei: “Ô, Jesus. Casei cedo com 16 anos, pra num servir ao Exército, nem à Marinha...Por que esse castigo, meu Deus do céu?”; Nada não. Entrei na Prefeitura em 12 de agosto de 1964. Na época, o prefeito era o general Murilo Borges. E tinha um político, né, o José Martins Timbó, da Assembleia, amigo meu. Era de Ipu, ele, e me disse: “Não tem problema. Vá,assuma, que eu vou falar com o Murilo”. Aí eu me apresentei.

 

OP - E o senhor ficou trabalhando como Guarda Municipal...

Milton - Foi. Mas aí criaram a assessoria de imprensa, na Prefeitura, na Galeria Pedro Jorge, número 20, no Centro. A prefeitura mesmo era na (rua) Guilherme Rocha. Fiquei bem uns três ou quatro meses lá. Aí um dia o Zé Martins me chamou: “Milton, o Murilo Borges vai lá pra assessoria de imprensa. Esteja lá e vamos conversar com ele pessoalmente sobre sua situação”. “Tá bom”. Eu fui e fiquei lá. Daí, entra o Murilo Borges e o Milton me cumprimenta. O Murilo perguntou o que era meu caso e eu falei que passei no teste, mas o serviço era de guarda e eu não queria ser guarda não. E ele disse: “Tá bom, e se você ficar como agente administrativo?”. “Tá, tá bom demais”. E graças a Deus!

 

OP - Qual era o seu serviço?

Milton - Eu era chefe de Mecanografia, preparava o boletim da Prefeitura. Os jornalistas preparavam as matérias, passavam para os datilógrafos e botavam para rodar no mimeógrafo. Depois eu passava pra todos os jornais e radialistas.

 

OP - E quanto aos despachos, decisões, obras, do que o senhor lembra?

Milton - Só me lembro da reforma do Passeio Público, na época do Murilo Borges. E da reforma da Praça do Coração de Jesus. Vixe Maria! Tu vai morrer de rir se eu contar uma história dali. Estavam reformando aquela pracinha e quando terminou a reforma da igreja, botaram umas estátuas na frente dos santos, tudinho em pé. Quando passou a mulher do Murilo Borges no carro de noite, ela olhou pra igreja e viu umas estátuas de mão levantada. Chegou em casa dizendo: “Murilo, Murilo, pra que aquela Guarda Municipal em cima da igreja com as mãos pra cima? Chama o Milton!” Aí eu fui lá olhar. Eram só as estátuas. Ela se enganou. Pensava que era a Guarda Municipal que estava de plantão. Aí eu ri, ela riu também.”Milton, pelo amor de Deus, num fala nada pra ninguém”. Que Deus a tenha.

 

OP - Como o senhor chegou ao Paço Municipal?

Milton - Foi na gestão do prefeito Vicente Cavalcante Fialho (de 1971 a 1975), que comprou o Paço para a Prefeitura. O Paço foi comprado dos bispos com o dinheiro do IPM. Aí nós fomos para lá. Ali ficou a Secretaria de Comunicação. Atrás do Palácio do Bispo tinha aquele riacho Pajeú, um bananeiral grandão, com fruta à vontade. Comi muito peixe. Tinha peixe, traíra, cará, muçum. Quando menino, fui sacristão ali. Pra me formar direitinho sobre a sacristia, eu fui para o Palácio dos Bispos. Fiquei lá por um tempo.

 

OP - Como foi trabalhar no Paço Municipal, tendo passado pela formação de sacristão lá?

Milton - Valha, meu Jesus amado. Quando voltei pro Paço, eu me lembrei duma coisa. Ali, na entrada principal, tem um subterrâneo embaixo, que os padres, quando morriam, eram enterrados ali. Botavam no caixão, lá embaixo, e pronto. E tem um túnel no Paço Municipal, que vai até ali perto da Catedral. Botavam os caixões lá.

 

OP - Isso não era lenda?

Milton - Eu abri uma vez um buracozinho e vi um buraco lá embaixo. Era tudo escuro e deu pra crer que, de fato, acontecia o que o pessoal dizia. Mas era só o escuro. Num deu pra ver caixão não. E nos fundos do Paço, ali na Funcet, era a Polícia Federal. Ali tinha um cacimbão. E eu disse para o prefeito: “Fialho, tem um cacimbão ali atrás, onde era a Polícia federal. Fede, é cheio de cadáver”. E ele disse: “Milton, aterra, pelo amor de Deus”. Eu fui e aterrei. Hoje num tem mais nada não, porque tá com mais de 20 anos.

 

OP - E como o senhor foi alimentando essa relação com o Paço?

Milton - Eu trabalhava lá dentro e dizia pro pessoal que tinha que mandar fazer poda, limpar o canal. Eu disse para o prefeito: “Fialho, vamo limpar esse canal aqui”. Aí ele me mandou tomar de conta. Fui administrador do Paço e trabalhava também na Comunicação. Ele mandou tirar o bananeiral todinho. Ficou limpo, lindo. Aí entrou o outro prefeito (Evandro Aires de Moura) e mandou fazer um paredão de pedra em volta. Aí, agora, com a Luizianne, ela mandou fazer as bordas do riacho, a reforma dos jardins, e deu outra vida. Virou um verdadeiro cartão postal esse Paço Municipal. Eu mandava plantar árvore, pé de fruta. Eu ia pro horto, pegava planta lá e mandava replantar tudinho. Na época do Juraci,então, a administração saiu dali e foi para a Vila união. Eu fiquei lá administrando o prédio também. Quando voltei pro Paço (na primeira gestão da prefeita Luizianne Lins), fiquei administrando aqui de novo.

 

OP - Quais histórias inusitadas guarda sobre o que acontecia no Paço?

Milton - Quando o Riacho Pajeú virou ponto de fuga de assaltante. Rapaz, era o seguinte: Muitas vezes o ‘caboco’ fugia da Cadeia Pública (onde hoje funciona a Emcetur) e vinha pela Costa Barros, pulava o muro, que era baixinho, e vinha tomar banho no Riacho Pajeú. Chupava manga e dormia lá, usava droga. Tanto mulher, quanto homem. Até sexo faziam lá dentro (do canal). Cheguei a ver. Depois, falei pro Juraci e ele chamou o comandante da Guarda Municipal, que veio à minha procura e eu expliquei a situação. Até hoje tem guarda municipal tomando de conta. Botaram grade.

 

OP - Como era a relação do senhor com os prefeitos? Teve algum que foi mais presente na sua vida?

Milton - O Juraci foi excelente. Lúcio Gonçalo de Alcântara (gestão de 1979 a 1982) foi também excelente, ave Maria. Demais, demais. O Antônio Cambraia (gestão de 1993 a 1997) também foi excelente.

 

OP - Que outras lembranças o senhor tem dos prefeitos?

Milton - Outra prefeita porreta, legalzinha que só, foi a Maria Luiza Fontenele (gestão de 1986 a 1989). Ela foi legal demais. Não fez mais pela gente, porque, na época, o governador era o Tasso Jereissati. O Governo Federal repassava recursos pra Prefeitura e vinha pelo Governo do Estado. E ele lá prendia o dinheiro. Ele não gostava dela. E ficou a Prefeitura sofrendo. Passei quatro meses sem receber um centavo porque não tinha dinheiro pra pagar a gente.

 

OP - O Paço Municipal também foi cenário de muitas manifestações de servidores. O senhor acompanhava tudo?

Milton - Valha-me, Nossa Senhora. Já vi muito quebra-quebra. Quebraram foi tudo na época do Juraci. Quebraram porta, janela...

 

OP - Foi na gestão do Juraci Magalhães que os despachos passaram a ser feitos lá na Luciano Carneiro. O que o senhor achou da mudança?

Milton - Realmente não foi bom. Porque a Prefeitura é pra ser no Centro e não no subúrbio, nos bairros. A Prefeitura tem que ser no Centro, porque fica mais perto de tudo, do comércio, do atendimento ao público, perto das reivindicações. Você sai daqui e vai lá pra Vila União? Ele foi pra lá por causa dos grevistas, das greves, do quebra-quebra. Foi por causa disso, só, só. .

 

OP - Assim que a prefeita Luizianne assumiu, ela anunciou que ia fazer a reforma do Paço. Como foi o seu retorno?

Milton - Realmente, ela fez a reforma do Paço. Eu administrava lá (o prédio na avenida Luciano Carneiro), mas ela (Luizianne) me chamou: “Milton, vá tomar de conta do Paço Municipal, da reforma, tudinho, oriente o pessoal. Como você conhece tudinho, aí orienta, Vá pra lá”. E eu fui. Ajudei lá. E hoje em dia o Paço Municipal é o cartão postal de Fortaleza. Tá lindo, lindo, lindo. Só não tá lindo o Bosque Dom Delgado, porque tá desprezado. Tá uma imundície, a sujeira maior do mundo. Depois que eu saí de lá, não teve mais ninguém pra tomar de conta. Sei tudo da reforma. Tanto é que, no Paço Municipal, tem uma sala grande de visitação do público que tinha os retratos dos prefeitos. Só que, quando a Luizianne fez a reforma tiraram (os retratos) e até hoje não colocaram. É a memória dos prefeitos, e tá tudo abandonado, cheio de cupim. Nem o retrato dela botaram mais.

 

OP - Por que o senhor saiu da Prefeitura?

Milton - É o seguinte: o Paço Municipal foi reinaugurado e todos os meses eu mandava limpar o canal, o Riacho Pajeú. Varria tudo lá por cima, mandava podar. Aí cortaram. Disseram que tinha que ter ordem agora da Chefe de Gabinete. E eu mandava por escrito, porque eu era administrador. Aí disseram que eu não era mais o administrador. Tomava de conta, mas não era administrador. Aí eu falei pra Chefe de Gabinete: “Doutora, eu tô precisando de pessoal da Regional 2 pra dar uma geral aqui”. E ela disse: “Tá bom, Milton”. Chegaram 12 homens. Tinha um bocado de madeira cheia de cupim. Eu disse pode botar fora tudinho. Trabalharam quarta, quinta, sexta, sábado. Só que eu não fui sábado, nem domingo. E aí, quando cheguei, era bem 8 horas, 8h30min, porque estive no IPM, no médico. Aí disseram pra Chefe de Gabinete que eu estava dando material de construção do prédio. Aí ela me procurou e eu disse que não fiz. “Mas, Milton, ele (o novo administrador) não tá gostando de você. É melhor eu dar suas contas”. “Então tá bom”. Pediu meu crachá, eu dei. Me deram R$ 11 mil (pela rescisão do contrato). Eu tava liso, foi bom. Mas até hoje sinto falta. Tenho saudade. Porque foi tudo pra mim, o Paço Municipal.

 

OP - E do que o senhor mais sente saudade?

Milton - Do bosque, do riacho Pajeú, do jardim do Paço Municipal, que foi reformado tudo com orientação minha. Tudo, tudo, orientação minha. Olha, quando o pessoal vinha visitar o Paço, pedia logo pra descer pra conhecer o bosque, o riacho Pajeú, o jardim, os pés de planta, as cadeiras pra sentar. Disso é que tô com saudade. Eu fazia esse passeio com todos eles, vindos da França, da Inglaterra. Ave Maria, pra mim, era tudo aquele Paço. Tanto, que, na reforma agora, em vez de botar o borboletário, deviam fazer umas casinhas de palha, com cadeira para o pessoal sentar. Acho que o prefeito que vier não vai nem manter. Que a Luizianne me desculpe, mas no lugar daquele borboletário, ela devia fazer umas barracas de palha, com banco, mesa, iluminação, pra receber os visitantes ou pra ela mesma ou pro futuro prefeito, quando quiser dar uma voltinha, sentar lá, fazer até reunião com secretários. Ia ficar lindo, lindo, lindo. Acho meio difícil os futuros prefeitos conservarem, porque não tem sentido. Se não botar uma pessoa que tenha gosto pra tomar de conta, as borboletas morrem tudinho, se acaba tudo.

 

Lucinthya Gomes lucinthya@opovo.com.br
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espaço do leitor
Eliomar 03/09/2012 13:04
Quem esta turma aí do PT de merda valoriza são os psedo-moralistas. Familias inteiras empregadas e recebendo altissimos salários. Povo hipócrita e desprezível este da Luiziane. Ô nojoooo!!!!
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Eliomar 03/09/2012 13:00
Parabéns Sr. Milto pela histórias e dedicação a memória de Fortaleza. Infelizmente o sr. saiu porque esta Prefeita não cuida das pessoas como Lula ensinou (kk) e nem o Elmano cuidará.
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