José Eduardo Agualusa 18/06/2012

Escritor d'além mar

Autor angolano esteve em Fortaleza e falou sobre o diálogo cultural entre Brasil e África. Para ele, o País tem a responsabilidade de líder entre os países de língua portuguesa
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José Eduardo Agualusa, 51, nasceu em Angola, já morou no Brasil e atualmente reside em Lisboa. É um dos escritores que mais promovem o intercâmbio entre os países da comunidade de língua portuguesa, inclusive tematizando esses diálogos culturais em suas obras ficcionais. Em passagem por Fortaleza no final do mês passado, ele falou sobre a maior proximidade nos últimos anos entre Brasil e África e como sua literatura atravessa essas fronteiras.

O POVO - Como você avalia o atual momento do diálogo entre Brasil e África?

José Eduardo Agualusa -Acho que esse diálogo está se intensificando e que vai muito além da aproximação entre Estados, da aproximação oficial, vamos dizer. É uma aproximação entre as sociedades civis de todos esses países, ou seja, a mim parece que nunca houve realmente tanto trânsito entre África e Brasil como agora, não só de pessoas – porque há um número muito grande de brasileiros hoje vivendo em Angola, por exemplo, e de angolanos e africanos estudantes a viver no Brasil –, mas, sobretudo, há um trânsito de ideias, de palavras, que se faz através das novas tecnologias, da Internet. Então a mim parece que estamos mesmo no limiar de um tempo novo.

 

OP - A literatura é um caso particular nessa história?

José Eduardo - A literatura ajuda um pouco, é uma arte que não atinge a maioria das pessoas, tanto no Brasil, quanto em África. Em nossos países infelizmente ainda são poucas as pessoas que leem e, sobretudo, que leem literatura. Mas, de qualquer maneira, a literatura tem um papel importante sim. Seja como for, a literatura é lida por um conjunto de pessoas, muitas das quais com capacidade para tomar decisões importantes. Agora é evidente que talvez você sinta esse diálogo mais na música. Ou não sei. Se a gente pensar que eu vivi no Brasil há 12 anos, quando se entrava numa livraria brasileira e não havia um único autor africano, não havia mesmo, e hoje qualquer boa livraria tem autores africanos, não apenas de língua portuguesa, e que eles estão presentes inclusive nos muitos festivais literários que hoje existem no Brasil. Isso mostra que há um interesse do Brasil por África. Eu estava falando da música, mas provavelmente nesse caso estou enganado, provavelmente há mais presença da literatura africana do que da música africana aqui. Normalmente não é assim, a música chega sempre antes. No caso da Europa, a música africana está mais presente do que a literatura. Mas no caso do Brasil acho que não é assim.

 

OP - O alto nível em que estão os escritores africanos de língua portuguesa é um dos fatores que explicam esse fato?

José Eduardo - Há várias razões que possam explicar isso. Uma delas é que o Brasil é um grande produtor de música, o Brasil tem hoje talvez a melhor música do mundo, uma música muito diversificada. De qualquer forma, me parece importante que o Brasil retome sua ligação com África e tome conhecimento da música que se faz hoje. Isso pode ajudar muitos brasileiros a criarem novos ritmos. Quanto ao caso da literatura, há realmente um número de escritores interessantes no espaço da língua portuguesa e para além desse espaço. A África tem quatro prêmios Nobel. Um deles, o John Coetzee, é relativamente bem conhecido no Brasil; os outros não tanto. No caso dos escritores de língua portuguesa, há um pequeno grupo de escritores com qualidade que também têm presença no Brasil hoje. Estou a pensar, sobretudo, no Mia Couto, que hoje tem muitos leitores aqui, mais leitores que a maioria dos escritores brasileiros tem, mesmo daqueles escritores mais conhecidos. O Mia realmente tem um público muito grande. Em Portugal também tem, foi um dos poucos escritores que não sofreu com a crise, não deixou de vender por causa desta crise que está a afetar a maior parte dos países europeus. Depois temos autores mais novos como Ondjaki, que já conseguiu criar um público próprio também; Pepetela também tem um público. E eu creio que exista depois um público especial nas universidades, creio que estes autores africanos, Luandino Vieira, Ana Paula Tavares, têm uma presença grande nas universidades.

 

OP - Destes escritores africanos, dois dos mais lidos e divulgados no Brasil nos últimos anos são Valter Hugo Mãe e Gonçalo Tavares. Ambos nascidos em Angola, mas considerados escritores portugueses.

José Eduardo - É curioso porque há uma série de escritores hoje em Portugal que tem origem angolana, são vários, não são apenas esses. O Gonçalo é um grande escritor. Eu acho que o Gonçalo é hoje no universo da língua portuguesa talvez a figura mais interessante. Das vozes mais novas evidentemente. Temos escritores mais velhos como o Lobo Antunes, que tem uma presença no mundo. Mas o Gonçalo é extremamente traduzido hoje e realmente é uma figura surpreendente. Então temos o Gonçalo, que é de Luanda; o Valter Hugo, que creio nasceu no norte da Angola; temos uma outra escritora, a Filipa Melo, que é também de origem angolana; e há mais ainda. Eu uma vez fiz uma lista e são muitos. Agora são pessoas que foram muito jovens para Portugal e que de uma maneira geral não têm uma relação muito forte com Angola. O Valter tem alguma. O Gonçalo menos.

 

OP - Você se mudou de Angola para Portugal pela primeira vez no final da década de 1970. Foi estudar agronomia e silvicultura em Lisboa. Já havia o interesse em paralelo pela literatura nessa época?

José Eduardo - Não. Quando começou o interesse pela agronomia, eu não pensava em ser escritor. Em Lisboa havia uma comunidade muito grande de estudantes e fazíamos uma vida muito juntos, estávamos naquela situação, longe do país, trocávamos livros e começamos a escrever. Com um grupo de estudantes, eu criei uma revista literária, porque nós não nos sentíamos muito representados por aquela poesia que era feita naquela altura em Angola, em plena revolução. A literatura que se fazia em Angola na época era uma literatura muito dirigida, revolucionária evidentemente, mas muito dirigida, não havia espaço para nada que não fosse exaltar a revolução. A verdade é que nós não nos sentíamos muito representados por aquela literatura e criamos aquele jornal pra tentar explorar outras formas, outras vertentes e foi assim que eu comecei a escrever. Nós éramos poucos e, para parecermos muitos, escrevíamos com vários heterônimos.

OP - E daí ao primeiro livro?

José Eduardo - Então comecei a escrever e em determinada altura, ainda estudante, tropecei um pouco por acaso numa coleção de jornais angolanos do século XIX na Biblioteca Nacional em Lisboa e fiquei absolutamente fascinado por aquele universo. Me dei conta que tinha ali um romance pronto, os personagens estavam todos lá, só faltava inventar o enredo e comecei a escrever o meu primeiro romance, A Conjura. Eu lembro que entreguei o original desse romance ao Pepetela numa das vezes que eles foi a Lisboa. Ele levou o original para Luanda e colocou num concurso, que era o mais importante na altura, o Prêmio Sonangol de Literatura. Sonangol é uma empresa de petróleo, a maior empresa angolana, e tinha esse prêmio, não sei se ainda tem. Então eu ganhei esse prêmio, que implicava uma edição em Portugal também. Ou seja, pra mim não foi muito difícil o começo porque o livro teve críticas boas.

 

OP - Pelo que eu entendi, sua literatura começa muito ligada à política. Como você encara esse elemento político em sua escrita?

José Eduardo - A literatura está ligada a vida naturalmente e a mim não seria possível alijar-me da questão política, toda a literatura pra mim é politica também. Eu sempre estive ligado a movimentos pacifistas, que lutavam pela paz em Angola. Eu nasci com guerra, sempre vi guerra ao longo da minha vida toda. Sempre guerra, sempre guerra. Então sempre tive ligado a movimentos pacifistas e pró-democracia. A minha luta daquela época é a mesma luta de hoje, é uma luta pela democratização do país. Hoje não mais pela paz, felizmente, a paz é um dado adquirido, não vai voltar a guerra, mas Angola ainda não é uma democracia. Eu acho que mesmo a justiça social só fica assegurada ou só verdadeiramente assegurada através do regime democrático, acho que é impossível falar em uma melhor distribuição de riqueza etc sem ser no contexto da democracia.

 

OP - Você é um angolano branco. Essas diferenças raciais são muito marcadas dentro do país?

José Eduardo - Vamos tratar como angolano de origem portuguesa. Eu vivi numa cidade que era uma cidade bastante particular. Huambo era uma cidade do interior da Angola, nova, muito nova, com uma presença colonial mais forte do que em outras cidades. Se você for à Benguela, por exemplo, é uma cidade bastante mais integrada do que Huambo, mas mesmo em Huambo havia alguma integração. Angola não era a África do Sul, sempre tive colegas de todas as origens. Eu era muito jovem quando aconteceu o 25 de abril em Portugal (Revolução dos Cravos), depois a Independência da Angola. Eu tinha 15 anos. Foi uma época em que todos nós crescemos, amadurecemos muito rapidamente, e aquela época foi também uma época de grande euforia, uma época em que as clivagens raciais desapareceram, foi uma época de grande fé coletiva. Não era uma questão que fosse premente na época, não quer dizer que não existisse, mas não era premente. Em Angola você tem uma situação que é: tem pessoas com diferentes origens em termos de língua materna. Eu talvez me defina mais facilmente como um angolano de língua materna portuguesa. Nesse grupo você tem pessoas de todas as origens raciais, é mais uma questão de cultura, de pertença cultural. Nunca penso em mim como sendo mais claro ou mais escuro, penso em mim como um angolano de língua materna portuguesa. Uma coisa que eu sinto em Angola também.

 

OP - Recentemente entrevistei o Valter Hugo Mãe e perguntei se o passado colonial ainda mobilizava a sociedade portuguesa. Ele respondeu que cada vez menos. No caso de Angola, isso acontece?

José Eduardo - Pros angolanos talvez menos que para os portugueses. Angola teve essa guerra civil que foi muito mais violenta do que a guerra colonial e também Angola é um país muito jovem, a esmagadora maioria dos angolanos tem menos de 30 anos, a maioria dos angolanos nem sequer viveu a época colonial, ouve falar, mas nem sequer viveu, então é uma dimensão diferente. Eu acho que a guerra colonial - no caso a guerra de libertação - em Angola hoje não tem a mesma presença do que a guerra colonial tem na sociedade portuguesa.

 

OP - Luanda é um personagem específico da sua obra. Você pode falar sobre a cidade?

José Eduardo - Luanda é uma cidade muito forte, uma cidade muito perturbadora, não é uma cidade fácil, não é uma cidade aberta, não é uma cidade, vamos dizer, como o Rio de Janeiro, que a gente chega e não é possível não gostar. Luanda não é assim, Luanda é uma cidade difícil, é uma cidade muito ruidosa, onde não é agradável estar. Mas ao mesmo tempo é uma cidade absolutamente fascinante para um escritor, porque está cheia de história. Primeiro porque há angolanos que chegam todos os dias a Luanda vindos do país inteiro, trazendo com eles uma mitologia própria, uma maneira diferente de olhar a vida. Por outro lado, porque também chegam a Angola aventureiros vindos do mundo inteiro. Luanda é uma cidade que atrai aventureiros, porque é uma cidade que tem essa mitologia que é fácil de ganhar dinheiro. É uma espécie de faroeste, um dos últimos faroestes do planeta hoje (risos). Isso é muito interessante do ponto de vista literário, você tem um manancial de histórias que nunca se esgota. A gente sai pra rua, começa a conversar com pessoas e facilmente se descobrem histórias, umas atrás das outras. O difícil é saber o que que se vai trabalhar. Eu sinto falta.

 

OP - Quais questões estão postas para sua literatura hoje? Ou cada livro tem um motivo diferente?

José Eduardo - Eu acho que não dá pra forçar, sobretudo no romance não dá pra forçar. No romance, você tem que estar muito apaixonado por uma ideia, o romance pra mim parte de uma ideia. N’O Vendedor de Passados, o cara que vende passados para os novos ricos. Nação Crioula: a história de uma senhora que, sido escrava, se torna escravocrata. Isso é a ideia. O romance exige um envolvimento muito grande, uma paixão. Em Milagrário Pessoal houve uma paixão até física, uma história muito louca. Eu conheci num jantar uma linguista portuguesa muito bonita. Ela tinha um programa no computador que recolhia palavras novas surgidas na imprensa de língua portuguesa e depois o trabalho dela era ver se aquelas palavras eram neologismos ou não para serem dicionarizadas. Eu saí daquele jantar completamente apaixonado por ela e pela ideia de alguém que recolhe neologismos e inventei uma história: uma linguista que faz isso e de repente começa a descobrir dezenas, depois centenas de neologismos tão perfeitos, tão necessários, que as pessoas se apropriam deles sem darem conta sequer que são palavras novas. E comecei a escrever o livro, comecei a namorar com ela. O livro levou nove meses. Nove meses que eu fui contando a história pra ela, tipo Sherazade, e quando livro terminou, terminou o romance. Ela me trocou por outro cara (risos). De onde se pode concluir que a literatura também serve pra isso, para seduzir.

 

OP - Você acredita em uma espécie de dívida histórica do Brasil com a África por conta da escravidão?

José Eduardo – A vitimização não é uma solução para enfrentar os problemas. A África não pode continuar a colocar-se no papel de vítima, a África tem que se colocar no papel de atuante. Foi o caso da África do Sul, que resolveu muito bem a transição do Apartheid para um regime democrático, verdadeiro, autêntico, sem nenhuma intervenção externa. A questão da vitimização não resolve nada. O que acontece hoje é que nós temos vários países que têm uma matriz comum. Angola, Guiné Bissau, Cabo Verde podem tentar explorar o fato do Brasil ser um país irmão e ser um país que resultou dessa construção africana. Isso sim. Acho que o Brasil tem uma responsabilidade para com os países de língua portuguesa? Acho. Por ser um país com uma dimensão enorme, um país que tem uma presença no mundo muito grande e a presença do Brasil no mundo passa também por sua afirmação identitária, uma afirmação através da língua portuguesa. O Brasil tem essa responsabilidade de saber liderar esse conjunto de países de língua portuguesa, porque é o maior país. Isso o Brasil não tem feito ainda e isso eu acho que nós devemos exigir ao Brasil, que cumpra suas obrigações enquanto gigante.

 

Pedro Rocha

pedrorocha@opovo.com.br

Deyvison Teixeira

deyvisonteixeira@opovo.com.br

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