RACISMO 15/09/2016

Esse Brasil cheio de ódio sempre existiu

Poucos percebem o racismo como um dos principais responsáveis por tal situação
notícia 0 comentários

Na segunda 5 de setembro, 26 jovens que foram presos arbitrariamente pela polícia de São Paulo ganharam liberdade. O juiz Rodrigo Tellini, em seu despacho que os liberou, escreveu: “Vivemos dias tristes para nossa democracia. Triste do país que seus cidadãos precisam aguentar tudo de boca fechada. Triste é viver em um país que a gente não pode se manifestar”. 

Isso é verdade.

Essa violência e arbitrariedade que se generalizam são comuns na vida dos excluídos. Na verdade, esse Brasil cheio de ódio sempre existiu. “Pergunte aos negros, pobres, índios, mulheres, gays que eles te contam.” Após 21 anos de uma ditadura militar, começamos novamente a viver tempos difíceis. Essa violência do Estado de que alguns discordam é parte do cotidiano daqueles flagrantes forjados, abuso de autoridade, espancamentos e prisões arbitrárias. Que o digam as histórias de vida de Amarildo, de Cláudia Silva Ferreira, que teve o corpo arrastado por 350 metros por um carro da Polícia Militar e do jovem Rafael Braga Vieira.


Rafael Braga é um jovem negro, de família pobre que não participava do protesto ocorrido na noite de 20 de outubro de 2013. Preso por portar duas garrafas de produtos de limpeza considerados como potenciais aparatos explosivos pela polícia e Ministério Público. Um laudo pericial comprovou a impossibilidade de estes produtos serem utilizados como material explosivo. Mas “o sistema de justiça criminal preferiu seguir pelo já conhecido caminho da seletividade penal, da criminalização da pobreza e do racismo”. Rafael foi o único condenado no contexto das manifestações, mesmo não sendo manifestante nem praticado crime algum. Ser negro e pobre justificam.


O cientista social Sergio Adorno, em estudos que relacionam racismo e criminalidade, demonstra com clareza como essa seletividade penal corrobora para que as penitenciárias brasileiras estejam repletas de pessoas negras. Segundo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infonen), divulgado no ano passado, “os presos do sistema penitenciário brasileiro são majoritariamente jovens, negros, pobres e de baixa escolaridade”.


Esta predominância de negros presos reforça uma representação simbólica construída historicamente e que está presente no senso comum: associar negros a marginais. Poucos percebem o racismo como um dos principais responsáveis por tal situação. Rafael é vítima desse sistema.

 

Hilário Ferreira

hilario.ferreira@fate.edu.br
Professor e pesquisador da história e cultura negra cearense

> TAGS: hilário ferreira
espaço do leitor
Nenhum comentário ainda, seja o primeiro a comentar esta notícia.
0
Comentários
500
As informações são de responsabilidade do autor:
  • Em Breve

    Ofertas incríveis para você

    Aguarde

ACOMPANHE O POVO NAS REDES SOCIAIS

Erro ao renderizar o portlet: Barra Sites do Grupo

Erro: HTTP Error 404: Not Found