Artigo 09/03/2014

Boêmios cívicos

O que vemos são boêmios nada cívicos, servidores deles mesmos, que usam os cargos como trampolim
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Cláudio Ferreira Lima

claudiofl@secrel.com.br

Economista


A E-papers e o Centro Internacional Celso Furtado, sob a organização de Marcos Costa Lima e o patrocínio do Fundecido Banco do Nordeste, acabam de lançar “Os boêmios cívicos – A Assessoria econômico-política de Vargas (1951-54)”. O organizador conta na apresentação que, no Catete, Vargas via, regularmente, em uma das salas do primeiro andar, uma luz acesa até altas horas da noite. Certa madrugada, foi até lá e encontrou a Assessoria Econômica – AE em plena atividade. Então, afirmou: “Vocês são uns boêmios cívicos!”.


Quem eram eles? As figuras marcantes do núcleo da AE eram quatro nordestinos autodidatas em economia (os cursos regulares mal começavam), mas que, com formação superior e cultura humanística, dominavam as técnicas do planejamento e se dedicavam a áreas específicas: o baiano Rômulo Almeida, que montou a equipe da qual era o coordenador (setor financeiro); o cearense Jesus Pereira (energia); o maranhense Ignácio Rangel (indústria); e o paraibano Cleantho de Paiva Leite (política externa e agricultura).


Eram tecnocratas com sensibilidade política, como, aliás, exigia a função de assessorar o presidente tanto nas questões do dia a dia do governo quanto na de um órgão de planejamento. Despachavam com ele duas horas, três vezes por semana, enquanto os ministros, apenas uma hora, uma vez por semana. Escolhidos pelo saber técnico e experiência, mas também pela lealdade ao presidente e a um projeto de nação, eram sobretudo servidores do público. Vargas, certa feita, ao receber a informação de que Ignácio Rangel era comunista, disse: “Eu sei tudo sobre o senhor Rangel, mas diga a ele que esteja à vontade, que ele se sinta em casa, porque aduladores eu tenho; homens capazes de dizer que estou errado, isto é muito raro; e ele é um deles”. (Ignácio Rangel. Depoimento: 1987-8, Rio de Janeiro, Programa de História Oral do Cpdoc-FGV, p. 5).


Aqui e acolá, havia choques na arena política entre a AE e o ministério, ou, na econômica, entre a AE e a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos, que tratava da inserção externa. Mas isso não impedia os avanços. Pelo contrário. Os boêmios cívicos reuniam competência e compromisso. Da AE, saíram projetos estratégicos, que constituíram os alicerces da industrialização e, portanto, do desenvolvimento do País: entre outros, no campo da energia, a Petrobras, a Eletrobras e o Plano Nacional de Eletrificação; no de desenvolvimento regional, o BNB; e, no de educação, a Capes.


O País, há tempos, precisa construir as bases para novo ciclo de desenvolvimento, mas as reformas indispensáveis, a exemplo da política e da tributária e fiscal, são sempre adiadas. Pudera! Não existe projeto de nação. Os governos estão quase sempre com os olhos fixos no horizonte eleitoral e com isso não há lugar para boêmios cívicos. O que vemos são boêmios nada cívicos, servidores deles mesmos, que usam os cargos como trampolim para, ao saírem do governo, logo montar negócios próprios altamente rendosos. Até quando a história se repetirá? Deixo a reflexão.

 

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