Artigo 29/01/2012

Razão, desrazão

"A atualidade reedita a caça aos pobres, tratando-os como loucos perigosos "
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Eis os loucos. Os rebeldes. Os criadores de caso. Você pode discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. E, enquanto alguns os veem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam (Kerouac).

 

O termo “louco” é usado a torto e a direito: “Você é louco”. “O louco é anormal”. “Caminhos que levam à loucura da cruz.” “Amou até a loucura.” O discurso sobre a loucura é representação, e não sentido. Aberto às transfigurações, sempre em movimento, o sentido é um corpo que pensa.


De que ponto de vista fala-se, pois da loucura? A loucura é um desvio? O louco é o ator ímpar da desrazão? A razão pode compreender a não-razão do louco, do gênio, do cidadão ético? Quem é o louco? O louco é sempre o outro!


A História da Loucura completa 50 anos. Festejado com inúmeros colóquios, novas publicações, o livro de Foucault circula em boa parte do mundo. Ao instituir uma doença mental, o homem cessou de comunicar com a doença do espírito. É preciso, porém, recusar o equívoco, e afirmar: nem Pinel nem os psiquiatras libertaram os loucos, eles os alienaram.


Quando os ditadores querem torturar, matar “subversivos”, legitimam práticas criminosas, alegando uma animalidade aos rebeldes. Não são homens, são alienados, fanáticos, animais, desalmados. Ao negar o estatuto humano aos revoltados e ao defini-los de direito como simples animais, a caça aos selvagens é declarada! Abate-se um animal, reaviva-se o amor à caça de que o Brasil é guloso – caça ao índio, ao negro, ao comunista, ao gay. Caça ao louco. Ao pobre.


A atualidade reedita a caça aos pobres, tratando-os como loucos perigosos. Assim, o Governo de São Paulo, alvo de uma saraivada de processos, alguns em âmbito internacional, após a ação violenta e ilegal contra as famílias de Pinheirinho, dorme em paz… E pior, conta com o silêncio da realeza, que assiste de camarote, em Brasília, o massacre dos inocentes reeditado pela especulação delirante, e corrupção, alheia à alteridade, ao direito à vida.


Razão, desrazão. Que diz a presidente do Brasil? Ela é contra a violência, “mas o Estado é autônomo”… Fala como uma rainha, mas segundo regras da oligarquia social coesa. O poder político lava as mãos! Não há lugar para o pobre na sociedade de “homens livres”. O pobre não difere muito do louco: tropas de choque para uns, eletrochoques para outros: Caldeirão, Canudos, Pinheirinho são exemplos da “cultura” da caça no Brasil.


Eis porque o estudo de Foucault a respeito da loucura não se baseia num ponto de vista psiquiátrico, pois a Psiquiatria nada mais era que um discurso sobre a loucura, um monólogo. Ora, a história da loucura é antes de tudo captura pelo saber, pelo poder.


A exclusão da loucura emerge no domínio das instituições mediadas pelo enclausuramento psiquiátrico ou social. Exilado em sua diferença intratável, o destino do louco ou do pobre é o confinamento moral, social.

 

Daniel Lins

dlins2007@yahoo.com.br

Filósofo

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