Vida mambembe 12/06/2012

Histórias de amor sob a lona dos circos

É debaixo de uma lona de circo que a vida desses casais começou. Nômades, eles vagueiam pelos quatro cantos do Ceará, de mala, picadeiro, lona, filhos e cuia. No Dia dos Namorados, O POVO conta a história de oito circenses cuja sobrevivência é uma aventura
FOTO: GABRIEL GONÇALVES
Ana Lúcia Pereira, 32, e Círio dos Santos Brasil, 38, o malabarista e proprietário do Circo Mirtes: amor no picadeiro resiste às mudanças que a vida nômade impõe
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Ela contava 15 anos e chegou com vergonha de menina para assistir ao show. O espetáculo já tinha começado no Circo Mirtes, de lona levantada no Parque São José. A plateia, lotada e eufórica, vibrava. Entrou de costas para a apresentação e, ao olhar para o picadeiro, viu um rapaz de cabeça para baixo, pés amarrados por barbantes. Nunca esqueceu essa imagem. “Era o número do Homem-Aranha. Olhei e já fiquei apaixonada”, confidencia.

 

Ana Lúcia Pereira, que hoje tem 32 anos, acabava de conhecer o namorado da vida inteira. Ainda assim, botou banca. Ficava “dando os toques” de uma amiga para o malabarista. Timidez de menina que não queria assumir o amor. “Até que não deu certo, e a gente casou”, resume, 17 anos depois.


Ana Lúcia já era bailarina do circo de um tio. Decidiu dançar conforme a música. Círio dos Santos Brasil, 38, o malabarista e também proprietário do circo, encomprida a conversa: “Ela vinha aqui todo dia pra gente conversar. Num dia, na despedida, a gente teve a intenção de dar um beijo no rosto, mas pegou na boca. E ela não foi mais embora”, narra. A menina fugiu com o circo.


Círio teve pavor da reação da sogra. Tinha 20 anos, cinco a menos que Ana Lúcia. Só criou coragem quando faltavam três meses para o menino na barriga da mulher nascer. E a mãe de Lúcia abençoou a união. O filho do casal que estava por vir.


A vida sem janela fixa. De visão, o mundo (ou o Ceará) inteiro ao derredor. Círio e Lúcia planejaram mudanças e incrementos nos espetáculos com o mesmo empenho de quem planeja a reforma de uma casa. Um projeto de 17 anos e sem previsão de ter fim. Aliás, era isso mesmo: mais que remodelar o trabalho, as alterações definiam a vida dos dois. Círio, além de malabarista, é apresentador e palhaço. A mulher, bailarina, teve de aprender o balé aéreo e já trabalhou como clown. E a cada nova cria – já são sete filhos -, os números do espetáculo aumentam. E eles são felizes. Sem abusar do que fazem. “Porque é difícil a gente oferecer pro público alguma coisa que a gente não tenha. E assim é com a alegria. A gente tem de sobra”, conta ele.


Mas não foi sempre assim. A janta já foi sopa de chuchu ou só caldo do feijão. Não tinham um real no bolso e precisavam do sorriso à noite na lona do circo para ter a comida do dia seguinte.


E no Dia dos Namorados, eles vão comemorar com o que mais gostam: passear pelas ruas. Não decidiram ainda quais, mas provavelmente algumas do Centro de Fortaleza, no fim da tarde. Talvez ali pertinho do Paço Municipal, tentar entrar no Bosque Dom Delgado, que fica no Paço. Se não puderem, vão o Parque das Crianças ou a outro canto qualquer.


Vida das artes


O lar do casal Orlângelo Leal, 36, e Joélia Braga, 34, do grupo de teatro, circo e música Dona Zefinha, é o palco das apresentações. O quarto de hóspede é armazém de figurino e adereços. No local que seria o jardim, há uma espécie de picadeiro. Na sala de estar, uma máquina de costura em que a mulher prepara vestimentas. Apesar de não ter o caráter mambembe como os outros casais de lona, o circo está presente na vida dos dois.


“A gente está junto o dia inteiro. Acordamos, almoçamos e dormimos juntos”, assegura Orlângelo. E como não deixar que esse tempo não se transforme em problemas? “Se começa a briga, tratamos logo de fazer uma piada”, resume Joélia. Eles se consideram “namorados de dez anos juntos”.

 

ENTENDA A NOTÍCIA


Vaguear pelo mundo é diferente do que é romantizado por aí. Acordar com uma visão diferente do sol, arribar a lona em solo nunca pisado para apurar o pão do dia seguinte. Dificuldade que une casais

 

Saiba mais

 

O Circo Mirtes, de propriedade do casal Círio e Ana Lúcia, é de pequeno porte, com capacidade para 500 expectadores

 

A principal dificuldade para manter um circo, segundo Círio Brasil, é que empresas não acreditam no potencial de divulgação do espaço circense. Mesmo quando ganham um edital de incentivo dos governos, o pequeno circo tem dificuldade para conseguir apoio de uma empresa.

 

Ainda assim, Círio e Lúcia jamais pensaram em desistir. “Herdei o circo de família. Não consigo fazer outra coisa da minha vida”, diz Círio.

Angélica Feitosa angelica@opovo.com.br
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Lúcia 12/06/2012 10:12
Ha que estória linda!
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