[an error occurred while processing this directive] Entrevista. Independência em meio aos grandes | DOM. | O POVO Online
vida & arte.dom 18/12/2016

Entrevista. Independência em meio aos grandes

Diretora executiva do Aos Fatos, primeira plataforma de checagem de fatos do Brasil, a jornalista Tai Nalon conversou com O POVO sobre os desafios de se encontrar a verdade
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Tai Nalon é a fundadora do site Aos Fatos, primeiro veículo brasileiro a ganhar o selo "Fact Check" do Google

Tai Nalon passou por grandes veículos de informação brasileiros antes de fundar, em 2015, o Aos Fatos, iniciativa pioneira no País dedicada à checagem de fatos, com cobertura diária de verificação do discurso público. A partir de uma campanha de financiamento coletivo, o site garantiu o primeiro ano de atividades.
 

A plataforma ganhou destaque durante o período da última  campanha política, quando sua equipe fez checagem em tempo real das declarações dos candidatos a prefeito do Rio de Janeiro e de São Paulo.
 

Primeiro veículo brasileiro a receber o selo Fact Check, do Google, o Aos Fatos também aderiu a um código internacional de princípios e condutas, assinado por organizações de checagem de fatos em 27 países. (Jáder Santana)

O POVO - Você veio uma de uma trajetória destacada dentro da grande mídia (Rede Globo, Revista Veja, Folha de S. Paulo) para uma experiência independente que, de certa forma e em alguns momentos, bate de frente com as informações veiculadas por esses veículos tradicionais. Pode me falar um pouco sobre essa mudança profissional? O que lhe levou a buscar novas perspectivas dentro
do jornalismo?
Tai Nalon - Não acho que bate de frente com veículos tradicionais. Vejo o Aos Fatos como um instrumento complementar ao noticiário factual. Tanto que fazemos parcerias com veículos grandes, que estão na rua há bastante tempo, o que basicamente significa que somos partícipes da mesma conversa. A mudança profissional aconteceu por dois motivos: 1. o jornalismo numa redação tradicional não me dava qualquer perspectiva; 2. em 2015, eu via que a resistência e o ceticismo em relação a quem experimentava fora das grandes redações era cada vez maior. Havia também uma lacuna para o jornalismo de checagem -no auge da crise política resultante das eleições de 2014, não havia nenhum projeto de fact-checking ativo no País. As experiências eram pontuais e sempre relacionadas a veículos já estabelecidos - não havia plataforma e tecnologia própria.

OP - No ano passado, o Aos Fatos lançou uma campanha de crowdfunding e conseguiu apoio para a elaboração de uma plataforma própria. Como você avalia a trajetória do projeto? E quais os planos pra 2017?
Tai - Conseguimos muito mais - tanto do ponto de vista de impacto e influência, quanto do ponto de vista financeiro. É evidente que ainda estamos em um cenário de crise, e que, por isso, ainda há mais limitações do que liberdade criativa. Porém, é indiscutível que ajudamos a consolidar um projeto de jornalismo mais transparente e confiável no País -seja na cobertura da crise política e do impeachment, seja na cobertura das eleições neste ano. Em 2017, teremos nossa nova campanha de arrecadação. Temos alguns projetos tecnológicos, para aumentar a eficácia da distribuição do nosso conteúdo, sendo tocados tanto para a redação do Aos Fatos, quanto para o Aos Fatos Lab, nosso braço de consultoria. Por ser uma incógnita, 2017 nos parece ser um ano de experimentação.

OP - Cada vez mais aparecem outras iniciativas de jornalismo independente financiadas coletivamente ou por assinantes. O que é preciso para que esse modelo se fortaleça?
Tai - O Aos Fatos mostrou que é possível fazer jornalismo com um modelo diferente do tradicional. O problema do crowdfunding é que ele não é suficiente. Assim como não é suficiente vender conteúdo. Assim como não é suficiente vender publicidade. O jornalismo precisa diversificar suas fontes de financiamento para ganhar previsibilidade e sobreviver - e essa busca é particularmente cruel em um ambiente de escasso investimento de risco e crise. Não é possível fazer jornalismo em médio e longo prazo sem planejamento e previsibilidade. Será matar um leão por dia, e não há equipe profissional competente que aguente.
 

OP - Falando da experiência de checagem em tempo real das falas dos candidatos durante os debates nas últimas eleições. Outros veículos de fact-checking ao redor do mundo também realizam essa tarefa? Com uma equipe formal de cinco pessoas, o que é prioridade na tarefa de checagem?
Tai - Sim, o fact-checking em tempo real é uma realidade nos EUA, por exemplo. Durante a corrida presidencial americana, sobretudo durante os debates televisivos, veículos pequenos e grandes fizeram grandes maratonas de checagem. O The New York Times e a National Public Radio (NPR) tinham mais de 20 pessoas cada checando declarações em tempo real. Think tanks (instituições dedicadas a produzir e difundir conhecimentos e estratégias sobre assuntos ligados a temática econômica, social e política) desenvolveram tecnologia para que checagens fossem entregues com mais eficiência para o público. No caso do Aos Fatos, nós ampliamos nossa equipe durante as eleições. Cobrimos Rio e São Paulo. Cada praça tinha uma equipe de três repórteres e uma editora. Para conseguirmos checar em tempo real, tivemos que nos planejar. A campanha municipal é relativamente previsível, porque as atribuições de um prefeito são mais definidas. Ou seja, certos assuntos, como mobilidade, lixo, educação básica, eles são relevantes nesse tipo de contenda. Os candidatos também se repetem bastante. Tentamos nos munir preventivamente de dados atualizados de assuntos como esses e nos informar para saber onde, nos sites oficiais, é possível conseguir informações públicas confiáveis de maneira rápida.

OP - A palavra do ano, de acordo com o Oxford Dictionaries, é “pós-verdade”. A avaliação é que a verdade está perdendo importância no debate político e que as pessoas estão mais dispostas a consumir informações que confirmem suas crenças, mesmo que essas informações sejam falsas. Nesse cenário, as redes sociais têm assumido o papel de protagonismo que antes era da mídia tradicional. Qual o papel do jornalismo (e do jornalista) diante dessa conjuntura?
Tai - Quem detém o poder e a influência de gerar impacto imediato é quem distribui notícia - no caso, as redes sociais. No entanto, quem está na outra ponta também tem como trabalhar no sentido de inspirar confiança em vez de mera influência. Nos EUA, logo após a eleição de Trump, houve aumento expressivo de doações e assinaturas em veículos jornalísticos os mais diversos. O mínimo que esses veículos precisam fazer é se esmerar em entender o que esses novos consumidores querem. É uma expectativa de confiança que deve ser cumprida. Acredito que um dos caminhos mais eficientes para quem produz jornalismo é a transparência. Se o público souber como você se financia, quem são os profissionais que trabalham contigo, se os canais de diálogo estão abertos, se há uma política de correção clara, se você respeita a diversidade --isso é um começo. A partir daí, e só a partir daí, você vai e faz jornalismo, no
sentido mais clássico. 

 

“Acredito que um dos caminhos mais eficientes para quem produz jornalismo é a transparência”

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