TECNOLOGIA 02/02/2014

Por uma vida menos conectada

Tecnologia é bom e todo mundo gosta, mas seu uso demasiado é doentio e é preciso estabelecer uma relação saudável com ela. É o que pedro burgos garante nesta entrevista exclusiva
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Émerson Maranhão emerson@opovo.com.br
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É tarefa das mais difíceis imaginar a vida offline, como a entendemos hoje. Mas, se por um lado, o mundo plugado trouxe conforto e celeridade para os nossos dias, por outro, tem-nos cobrado um preço altíssimo pelo seu uso em excesso. É o que alerta o jornalista Pedro Burgos, que acaba de lançar o livro Conecte-se ao que importa - Um manual para a vida digital saudável. Especialista em tecnologia, Pedro Burgos atentou para a pertinência deste debate a partir de sua própria experiência em meio a smartphones e gadgets de última geração - e mais de 15 horas conectado por dia. Longe de radicalismos, Pedro propõe o uso proveitoso dos aparelhos tecnológicos. “As coisas memoráveis, que tocam todos os nossos sentidos, constroem nosso caráter, nos fazem sentirmos mais vivos, enfim -- todas acontecem ao vivo”, ressalta, nesta entrevista ao O POVO.
 

O POVO- Como surgiu a ideia de fazer a pesquisa que resultou neste livro?
Pedro Burgos – Escrevo sobre tecnologia há 10 anos, então sempre testei primeiro smartphones, redes sociais, computadores e todo tipo de inovação tecnológica. Mas vi que essas ferramentas que eu e os leitores achávamos muito legais estavam começando a, de certa forma, nos aprisionar. Comecei a perceber que passava 14, 16 horas por dia trabalhando, de onde quer que eu estivesse. As tecnologias conectadas me permitiram isso. E quando vi que minha qualidade de vida, meu tempo com os amigos, minha saúde, tudo estava se deteriorando, comecei a pesquisar se a causa era, afinal, o estilo de vida workaholic ou as ferramentas que usamos hoje. É um misto dos dois, é claro. Mas quanto mais eu lia sobre como coisas como Facebook eram projetadas para serem viciantes, mais aumentou minha vontade de explicar para o público de que maneira a tecnologia que usamos todos os dias é pensada e quais os efeitos delas na nossa vida pessoal e na sociedade.

OP - Qual a fronteira entre uma relação saudável com o mundo digital e uma relação doentia?
Pedro –Acho que é possível fazer uma analogia com a alimentação. Há coisas que você pode comer sempre, sem ter problemas, como verduras; há outras importantes, mas que é preciso saber dosar, como proteína animal; e algumas que o excesso deve ser evitado a todo custo, como açúcar refinado. Hoje, o “mundo digital” está presente o tempo todo, então é mais importante, no sentido de identificar o “problema”, que a gente foque no que a pessoa está fazendo com esse tempo conectado. É difícil que alguém possa ser considerado “viciado no mundo digital”, por exemplo, se o trabalho passa por pesquisar artigos científicos online e discutir com amigos que estão do outro lado do planeta. Isso é um bom uso das nossas tecnologias. Por outro lado, gastar mais que uma hora por dia fazendo comentários raivosos nas notícias é o equivalente a tomar uma garrafa de 2 litros de refrigerante. É preciso dar preferência à “internet nutritiva”, que faz bem. Ninguém pode dizer que usar o Google Maps para chegar até a casa do amigo é ruim. O que quero dizer é que o que separa o uso saudável e o doentio é, muitas vezes, o seu sentimento após a experiência online. Se você fica mais irritado, ou mais ansioso, se não consegue se concentrar ou sente falta de tempo para fazer outras coisas importantes, aí é possível detectar uma relação mais danosa. Se a tecnologia está conectando você a coisas importantes, aumentando seu tempo livre ou apresentando ideias interessantes, ótimo.

OP - Quais comportamentos são os menos saudáveis em uma vida digital? O que há de mais perigosos nestes hábitos?
Pedro – O compartilhamento constante de informações pode ser perigoso, em diversos níveis. Não só na questão da privacidade, mas porque informações em contextos diferentes têm pesos diferentes. Nunca temos exata certeza sobre o tamanho do nosso público quando postamos algo online. Outros hábitos, como passar muito tempo em joguinhos, ou ligar muitas notificações no celular (que a cada nova curtida ou email treme), ou manter discussões intermináveis seja em comentários ou no Twitter/Facebook, tudo é perigoso porque toma seu tempo sem dar algo em troca. Outros comportamentos comuns, como compartilhar sem checar minimamente a veracidade da informação (todo mundo tem que ser um pouco jornalista hoje) ou se fechar em uma bolha, seguindo quem pensa igual e protegido de opiniões divergentes (tipo entrar no Twitter e seguir só pessoas de esquerda ou direita), também são perigosas tanto para o indivíduo, que terá uma visão mais superficial de mundo, quanto para a sociedade. Não é só “passar muito tempo olhando o celular” que é ruim, tem bastante coisa do mundo online que faz mal.

OP - É possível, nos dias de hoje, estabelecer uma relação de distanciamento - ainda que mínimo - com o mundo digital?
Pedro – É interessante ver como muita gente diz que seus momentos mais criativos, onde aparece aquela ideia que muda a vida ou resolve um problema do trabalho, acontecem durante o banho. Isso se dá porque hoje o banho solitário é dos poucos momentos que estamos alheios a qualquer distração - qualquer tela, qualquer notificação. Somos sós com nós mesmos. Então, apesar de estarmos conectados o tempo todo, pelas redes sem fio, é importante estabelecer espaços e momentos “sagrados”, como o banho. Precisamos de um certo nível de tédio ou de momentos focados no que está acontecendo à nossa frente, para digerir informações, termos ideias ou apreciarmos melhor o momento. Então não é bom colocar o celular sobre a mesa durante as refeições; também recomendo desligar a conexão quando estamos malhando, ou na aula de ioga, ou passeando na natureza. Os momentos desconectados nos fazem valorizar mais tanto o que está na nossa frente, no mundo material, quando o próprio mundo online. Quando nos voltamos à internet depois de breves períodos sabáticos temos bem mais novidades para curtir.

OP - Esse fenômeno de apego excessivo à vida digital é mundial? Como o Brasil se situa nesse panorama?
Pedro – É mais comum ouvirmos notícias de abuso - tempo ininterrupto online, por exemplo - em países asiáticos, como Coreia do Sul, China e Japão. Mas sem dúvida é uma questão global. Uma pesquisa recente do Hospital das Clínicas da USP diz que 10% dos usuários de internet no Brasil (para quem usa internet no smartphone, a proporção seria maior - 20%) são “viciados” em internet. Se entendermos o “vício” como uma relação obsessiva, acho que o brasileiro está entre os mais vidrados nessas tecnologias do mundo, simplesmente porque usamos as redes sociais por muito mais tempo que a média mundial. Somos um povo sociável. E como Facebook, Instagram e WhatsApp têm mecanismos “viciantes” (as notificações, comentários, curtidas) que fazem você querer voltar a toda a hora, é possível dizer que os brasileiros são mais suscetíveis ao “vício”, sim.

OP - Existe uma diferença considerável na dependênciado mundo digital, digamos assim, entre a geração que já nasceu conectada e conheceu o mundo mediada pelo computador e as gerações analógicas?
Pedro – No princípio, sim, pela questão da pressão social. Se você é jovem, provavelmente todos os amigos também têm smartphones, perfis no Facebook, etc. Por isso os jovens parecem mais propensos e querem entrar no jogo rápido. Mas o grupo etário que mais cresce no Facebook hoje é de pessoas com mais de 60 anos. Creio que, no fim das contas, todas as pessoas têm algum tipo de uso “problemático” - se é mais comum ver jovens compartilhando informações e fotos íntimas, há pessoas mais velhas confiando e compartilhando em correntes de email e redes sociais falsas -- o que também é um grande problema. Outro exemplo: jogos sociais online (tipo Bejeweled ou CandyCrush) são jogados prioritariamente por mulheres (55%) - e a faixa etária que usa mais essas distrações está entre os 50 e 59 anos. Esses joguinhos podem ser bem viciantes e sugar o tempo (e às vezes o dinheiro) das pessoas. Então, apesar de o “vício” dos jovens ser mais aparente, ninguém está exatamente a salvo das armadilhas.

OP - O que fazer para descobrir o que realmente importa para se conectar?
Pedro – A primeira frase do meu livro é “precisamos fazer isso mais vezes”, porque é algo que falei e vi muita gente falando ultimamente. As coisas memoráveis, que tocam todos os nossos sentidos, constroem nosso caráter, nos dão mais saúde, nos fazem nos sentirmos mais vivos, enfim -- todas acontecem ao vivo. Se eu pedir para você listar os momentos mais interessantes da sua vida nos últimos meses, dificilmente você falará de um vídeo que viu no Youtube ou uma notícia sensacionalista de um portal - e, mesmo assim, gastamos tempo demais com essas coisas e no fim do dia achamos que não temos tempo pra nada, nem para terminar aquele livro que estamos adiando. O que eu insisto é que precisamos usar as tecnologias digitais para economizar o nosso tempo, e criar mais oportunidades para esses momentos que, no fim das contas, são os que mais importam.

 

PEDRO BURGOS
É jornalista, cobre tecnologia há 10 anos e escreve sobre o assunto para revistas como Superinteressante, Galileu e Vip. Fundou recentemente a Oene, revista digital de ensaios, na qual trata com profundidade de nossa relação com a tecnologia. 

 

"Não é só “passar muito tempo olhando o celular” que é ruim, tem muita coisa do mundo online que faz mal " 

 

Serviço

 

Conecte-se ao que importa - Um manual para a vida digital saudável
Autor: Pedro Burgos
Editora: LeYa
Páginas: 224
Preço: R$ 39,90 

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espaço do leitor
Pedro Garcia 02/02/2014 16:47
Interessante mesmo.boa dica.
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