[an error occurred while processing this directive][an error occurred while processing this directive] Câncer de mama: um fantasma à espreita | O POVO
RECOMEÇOS 01/10/2015

Câncer de mama: um fantasma à espreita

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Sara Rebeca Aguiar sararebeca@opovo.com.br
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Ainda hoje, falar e escrever sobre o assunto é, antes, fechar os olhos e respirar fundo. Quando o câncer de mama chegou lá em casa, eu estava saindo da adolescência, curtindo o primeiro semestre da faculdade e vivendo as sofreguidões de uma paixonite nova. O momento em que soube que minha mãe estava doente foi, pelo que consigo recordar, dos poucos mais confusos que já vivi. Sentimos uma tristeza imensurável, mas houve esperança também.

 

Os 23 meses que se seguiram à confirmação do diagnóstico foram de imersão em uma rotina até então distante demais. Ninguém na família, paterna ou materna, havia passado por isso antes dela. Vieram as cirurgias, as quimioterapias e radioterapias, os enjoos atenuados por água de coco e uva verde.


Era muito vaidosa e ainda lembro, como se tivesse acontecido há dez minutos, do choro dela quando o cabelo começou a cair. Não sei se passei a reparar mais, mas os sorrisos dessa época foram também os mais bonitos. Ríamos de tudo e por quase nada. Os abraços também, eu acho, foram os mais apertados e eu não me poupava de pedi-los em qualquer hora do dia.


- Por que agora, filha?

- Não sei, mãe, deu vontade.

E saía apressadamente porque tinha sempre uma lágrima desleal que não me obedecia.

 

Razões para amanhecer

Não tivemos a sorte da superação da doença, e a morte dela me conduziu por um tempo a uma existência quase mecânica. E me trouxe um fantasma que, dia a dia, há 13 anos, eu vou tentando driblar, dizendo em pensamentos e ações que eu estou fazendo tudo certinho pra ele sumir de vez, que ele não é de nada, mas sei que está à espreita, como a existência dos monstros que vêm da imaginação das crianças, mesmo quando os adultos insistem em dizer que eles não existem.

 

Depois que meus filhos chegaram, apesar do medo, me sinto mais forte para lutar contra esse fantasma. Tento não descuidar dos exames, da alimentação, do ritmo mais leve de vida. O câncer de mama que eu conheci no começo da minha vida adulta é, pra mim, ironicamente, uma das razões de eu querer ser, todos os dias, melhor mãe, melhor amiga, melhor filha, melhor profissional, melhor esposa. Atravesso a madrugada porque sei (ah, essa mania que os adultos têm de achar que sabem tudo!...) que os monstros e fantasmas vão embora ou esmaecem ao amanhecer. No meu amanhecer, em cada sorriso que recebo deles quando o sol brilha.

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Wagner 01/10/2015 15:50
Lindo texto. Emocionante. Parabéns.
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