PARTO 25/01/2015

A vontade da mãe

O tempo de gestação é aberto à escolha dos melhores métodos e profissionais para o momento do parto. Decisão da mulher e orientações médicas precisam estar em acordo
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Foram oito anos entre o nascimento das duas filhas da bióloga Liana Queiroz, 30. Estava grávida de Luara (hoje com 12 anos) quando optou pelo parto normal e procurou o plano de saúde. Seis horas após as primeiras contrações, a dilatação do colo do útero era insuficiente. Concordou com a indicação para a cesárea. “Foi muito em cima da hora. Sem informação e sem apoio, dificilmente você diz ‘não’. É como se todo um sistema levasse a uma armadilha. Você acaba tendo aquela ideia de que o médico sabe o que faz”, comenta.

Hoje, Liana avalia ter passado por uma equipe médica apressada. Ela compara o episódio com a chegada da filha mais nova, que levou 21 horas para o trabalho de parto. “Enquanto a mãe e o bebê estão bem, não há por que não esperar”, relata. Para não correr o risco de ser “enganada mais uma vez no hospital”, planejou o parto em casa com equipe médica e ajuda de uma doula – profissional que dá apoio físico e emocional à gestante desde o pré-natal. Descobriu a alternativa no Espaço Mãe do Corpo, onde encontrou mulheres engajadas na troca de experiências sobre o parto vaginal.


Vivenciou por completo a experiência de parir Nalu, hoje com três anos. E já acompanhou cerca de 40 partos domiciliares após se tornar também uma doula. Junto dela, trabalha uma equipe formada por psicóloga e enfermeira obstétrica. O que Liana defende agora é o parto natural planejado, incluindo o plano B: uma estrutura de sobreaviso em casos de complicações. Dessa forma, a mãe em condições saudáveis recebe apoio de massagens, exercícios e banheira de água quente como medidas de conforto para as dores.


Não apenas mulheres que querem o parto normal enfrentam resistência quanto às suas escolhas. A policial militar Clélia Rêgo, 27, viu o parto cesáreo como saída para o medo de como o primeiro filho viria ao mundo. “Eu fico muito tempo só em casa, meu marido chega tarde. Eu não teria como passar por tudo isso sozinha”, afirmou uma semana antes da cesárea eletiva. Por ela, o procedimento teria sido agendado desde o início da gravidez. “O médico preferia que fosse normal, não quis marcar”, relatou. Na reta final, o bebê em posição pélvica deu motivos para a indicação.

 

Decisão judicial

Em abril do ano passado, a Justiça decidiu o desfecho da gravidez de Adelir Carmen Lemos, então com 29 anos. Aconteceu na cidade de Torres, no Rio Grande do Sul. Adelir havia procurado o Hospital Nossa Senhora dos Navegantes com dores lombares e na região do ventre. Após exames e indicação de cesárea, assinou termo de responsabilidade e voltou para casa decidida pelo parto normal.

 

A ambulância foi buscar a gestante em casa cumprindo mandado judicial em favor da equipe médica. Com 42 semanas e dois dias de gestação, a posição do bebê foi o argumento de risco iminente para a vida da criança. A cesárea ocorreu sem complicações, e o fato evidenciou a discussão sobre quem tem a decisão final pelo tipo de parto. E se a mãe não escuta o médico? E se o médico não respeita a vontade da mãe? Não há respostas simples ou definitivas.


Conforme prevê Marcus Bessa, presidente da Sociedade Cearense de Ginecologia e Obstetrícia (Socego), o tema ainda renderá debates acalorados com a nova resolução para estimular o parto normal nos planos de saúde a partir de julho. O obstetra questiona ainda: “E o profissional? Pode abrir mão do caso se constata um risco provocado pela insistência da paciente? Tudo precisa ainda ser discutido”.


Em geral, a decisão precisa ser compartilhada. Segundo Edson Lucena, diretor clínico da Maternidade Escola Assis Chateaubriand (MEAC - UFC), gestante e médico devem estar em sintonia. Para isso, a mulher deve receber informações detalhadas sobre os tipos de parto, além de condições estruturais para o procedimento mais adequado. Pelos princípios da bioética, ele ressalta o papel da não maleficência e da autonomia: envolvem o dever do médico em não causar danos à saúde e de prezar pelo esclarecimento e consentimento prévio do paciente.


Para a obstetra e ginecologista Bárbara Schwermann, informar faz a diferença. A dica é procurar um profissional que transmita confiança e trate do assunto com naturalidade, sem gerar medos sobre um ou outro procedimento. Assim, a mulher conhece os benefícios do parto normal e sabe quando é preciso recorrer à cesárea. Conforme Bárbara, é difícil a mulher discordar da orientação médica quando há um diálogo aberto e franco. (Thaís Brito)


NÚMERO


37,9 em cada 100 partos no Brasil foram cirúrgicos entre 1998 e 2003

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