[an error occurred while processing this directive][an error occurred while processing this directive] Via-Crúcis de Francisca Carla | Santificados II | O POVO Online
14/05/2011 - 14h00

Via-Crúcis de Francisca Carla

Francisca Carla - personagem de cordéis, livros, conversas e imaginações - desviveu cinco anos para, enfim, morrer
IANA SOARES

E DO PADECIMENTO SE FEZ A SANTIDADE. POBRE E DOENTE DE LEPRA, FRANCISCA CARLA, SOLTEIRA AINDA, DESVIVEU ISOLADA NA MATA SERRANA

 

Francisca Carla - personagem de cordéis, livros, conversas e imaginações - desviveu cinco anos para, enfim, morrer. Era o tempo da ignorância, décadas de 1940-50, num lugar distante, Tianguá (335,8 km de Fortaleza), quando um doutor deu a sentença: aquela empregada que, desde sempre, servia o almoço de domingo tinha morfeia.

 

Nome feio para doença assombrosa: “Conhecida lepra, considerada altamente contagiosa e sem tratamento naquele tempo”, identifica o escritor Luiz Gonzaga Bezerra, no livro Um Olhar sobre Francisca Carla e outros Fatos sobre Tianguá (2007). E, aos 38 anos, a vida que tinha sido fugir das secas abreviou-se mais: “O almoço foi suspenso e Francisca Carla desapareceu do convívio da família e foi morar isolada na mata”.


Abriram uma clareira entre pés de murici, cambuí e guabiraba. Construíram uma choça com paredes de talo entrançado e teto de palha de babaçu. Um casebre de porta única, sem janela, “como casa de João de Barro”. Deram-lhe uma panela, um prato e uma colher, um pote e uma caneca, uma rede. Deixavam-lhe alguma caridade no tronco da faveira, marcada há 30 metros de distância - uma vasilha com água e comida, esmolas. E desterraram Francisca Carla no meio da solidão.


Ela desviveu a quatro quilômetros das habitações humanas, mapeia Luiz Gonzaga. Na companhia das tanajuras que chegavam com as chuvas, das rasga-mortalhas das madrugadas e das varejeiras que disputavam o corpo com a lepra. E de toda espécie de assombração, completa Gonzaga.


Em certos domingos, crianças da catequese da professora Ana Justino ou a rabeca de Manoel Rodrigues amainavam, com cantos e valsas, os ruídos enlouquecedores da solidão. Francisca Carla ouvia lá de dentro da choça. Só acontecia de aparecer quando um mutirão queimava o casebre – que “não mais tapava o sol e a chuva” – e trançava outro. “No final do dia, chamavam-na (ela se embrenhava ainda mais). E podiam ver sua volta à distância”, retrata Luiz Gonzaga. Assim desviveu até lhe descobrirem morta em 23 de abril de 1953, quando a comida apodrecia no tronco da faveira há três dias.


O pai do comerciante José Claudoelder era padeiro na época e, ao passar pela trilha de animais que conduzia a Viçosa, deixava um pão na dita faveira. Ele viu uma das aparições de Francisca. “Era envolvida com panos. Dificilmente, viam o corpo dela. E, com isso, a gente foi formando a ideia”, repassa Claudoelder.


Francisca foi menina retirante, antes de a morfeia lhe negar tudo. Nasceu em 1910; dia, mês e pai desconhecidos. Foi deixada pela mãe e pela precisão no Sítio Olho D´Água para ser criada pelo meeiro Joaquim Carlos de Vasconcelos.


É possível visitar o lugar onde cumpriu a via-crúcis; placas auxiliam, no labirinto de pedras, terra e mato. De repente, uma cruz azul vem à tona. Em 1980, ofertaram-lhe uma capela no local da expiação. Coroada pela morte, Francisca Carla ganhou altares e devoção do povo. Ex-votos e santos mutilados em redor, tomados por fungos, parecem evocar o corpo leproso que fora sepultado ali. E um esquecido cemitério de anjos envolve o cenário de piedade.

 

 

Na foto, a capelinha feita, no lugar do exílio, em 1980. Acima, no sentido horário: o Campo Santo Francisca Carla (para aonde o corpo foi trasladado, em 1999), imagens de santos e ex-votos adornam a capelinha do meio da mata, um retrato pintado de Francisca Carla e a cruz, no interior da capelinha, que simboliza o local onde ela havia sido sepultada a primeira vez (em 23 de abril de 1953).

 

 

José Claudoelder Cardozo de Vasconcelos, 46, proprietário da loja Francisca Carla Presentes (uma das mais antigas com o nome da santa popular), acredita ter sido curado “de uma doença, em 1986, graças à intercessão de Francisca Carla”. Devoto também de São Francisco e Santa Edwirges, confia que “todos eles têm o mesmo poder”.

 

 

O escritor Luiz Gonzaga Bezerra, em Um Olhar sobre Francisca Carla (2007), expõe um relato curioso sobre a devoção popular: “Apareceu tão devota senhora, de Frecheirinha, trazendo-lhe uma cesta básica, dizendo que veio pagar uma promessa feita sobre um preciosíssimo milagre alcançado por sua intercessão ainda em vida”.

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Cláudio Ribeiro claudioribeiro@opovo.com.br
Ana Mary C. Cavalcante anamary@opovo.com.br
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