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Artigo 09/04/2012 - 16h22

O cotidiano na Grande Fortaleza quando o Ceará era Neerlandês

Um grupo de estudiosos e pesquisadores autonômos que vem se dedicando a localizar, catologar e estudar os documentos neerlandeses sobre o Ceará entre os anos 1600 e 1654
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O Cotidiano na Grande Fortaleza quando o Ceará era Neerlandês

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                      O Cotidiano na Grande Fortaleza quando o Ceará era Neerlandês

 

J. Terto de Amorim

Bea Brommer

Eurípedes Chaves Junior

Lucia Furquim Werneck Xavier

Maria Amélia Leite

Jeovah Meyreles

Adryane Goraybe

 

 

        Quando se falar de cultura, história e passado do Ceará, numa roda de conversa pode-se escutar uma frase já pronta: “No Ceará não tem disso não!”. Esta frase, cantada por Luiz Gonzaga, pode cair fora de moda se depender do grupo de estudiosos e pesquisadores autonômos que vem se dedicando a localizar, catologar e estudar os documentos neerlandeses sobre o Ceará entre os anos 1600 e 1654. Uma equipe multidisciplinar, regional e transnacional – formada por por onze cearenses, um norte rio grandense, uma mineira, uma amazonense, uma norte-americana e quatro neerlandeses – com suas atividades realizadas em rede e contando com o apoio da Associação Missão Tremembé e do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará.

         Este trabalho de análise de cartas, diários e mapas, muitos deles não traduzidos para o português, nos oferece uma ideia de como era o cotidiano dos que viviam e trabalhavam na região da Grande Fortaleza, há mais de 360 anos. Um cotidiano que ficou registrado em neerlandês, francês e inglês, bem como na memória dos cearenses da época que fugiram para as regiões de Camocim e da Ibiapaba, temendo represálias dos portugueses que tomaram e o comando do Fort Schoonenborc em junho de 1654, data da saída de Matias Beck e seu pessoal

A leitura de documentos em outras línguas, com o mapa de Balthasar Gerbier, Baron Douvily, parece mais uma investigação policial, pois a palavra Ceará, aparece escrita como: Chiara. Nem se falar ler docuemtos nos quais o a Terra da Luz é grafada como: Sijara, Siara, Sirra,, Ciara, Cirra ou Ziera. Isso também se aplica para o reconhecimento os nomes das localidades ou dos rios cearenses, que foram  regsitradas  de uma forma bem  diferentes do que estamos acostumados. É juntar peças soltas do quebra-cabeça chamado “Siara-Neerlandês”.

          O Ceará virou neerlnadês em 1637, depois da ação conjunta dos cearenses da época e dos neerlandeses para a tomada do Forte de São Sebastião, na Barra do Ceará. Uma empreitada com sucesso e que provocou algumas mudanças no dia-a-dia dos nossos antepassados, tais como a exploração das salines, a participação de George Marcgraf na expedição dos nativos ao interior cearense em 1639, a participação de nativos do Cirra na conquista neerlandesa do Maranhão em 1641, entre outras.

         Este cotidiano veio a mudar mais uma vez com a revolta dos nativos contra os neerlandeses em 1644. Depois deste motim no qual até o então governador do Ceará, o zelandês Gideon Morris, foi assassinado, a rotina dos nossos cearenses voltou a ser plantar, pescar, guerrear, colher os frutos da estação, etc., e a festejar o/a tala Tigisado (uma confratenização entre os povos nativos que aqui viviame que acontecia sempre em janeiro às mergens de uma grande lagoa boa de peixe). Seria essa festividade o origem dos  Cablocos da Parangaba, ou para muitos o Reizado? Qual seria essa lagoa onde todos se reuniam? Seria essa lagoa a do Porangabussu, onde todo começo de ano acontece a piracema? A novela policial da vida diária no Sijara continua levantando perguntas.

          O dia-a-dia cearense sem a presença ou dominação de qualquer povo europeu no nosso território, chegou a mudar com a chegada de Matias Beck ao Ziera em abril de 1649, ano no qual se deu início a uma nova atividade econômica nas terras cearenses: a exploração de prata. Esse empreendimento acabou criando novos assentamentos populacionais e algumas modificações na  infraestrutura de caminhos e picadas já existentes na região da atual Região Metropolitana de Fortaleza. Ainda no primeiro ano da estadia de Beck, os neerlandeses, juntamente com os nativos da época, construíram uma nova estrada que ligava diretamente ao então recentemente levantado Fort Schoonenborc à região da berg Yjtarema, ou melhor, à serra da Taquara nos dias de hoje.

          Nessa nova estrada mais larga, nivelada e com pontes, rodaram as carroças e carros-de-boi, levando do forte, entre tantas outras coisas, ferramentas  para as minas e para as roças de mandioca de Beck, essas eram situadas nas várzeas do Rivier genaemt Itapeba (rio Maranguapinho). No sentido serras-praia, era transportado para a Lorpheuree (ourivesaria) e/ou Le Mareshal (ferraria), às margens do Rivierken genaemt Marajaitiba – o nosso riacho Pajeú da atualidade – o mineral extraído. Era também trasportada pela importante via de acesso à época, nossa produção de farinha e mandioca que tinha como destino o Le Magasin (armazém) e/ou La Boulangerie (padaria), localizados às margens do nosso “riachinho dos Catolés”. Não esquecendo que a “estrada das minas” era a via de fluxo das pranchas de madeiras serradas nas matas entre as serras da Rapeaiba (Pacatuba) e de Morangoa (Maranguape).

            Será que as rodas dos veículos da época faziam barulho como os motores dos nossos carros movidos a gasolina e alcool dos dias de hoje? O então próprietátio de plantações de Pharinie  (mandioca) e casa de farinhada, Matias Beck, em Tamaraca (Ilha de Itamaracá – Permanbuco), não nos escreveu sobre isso, mas  podemos imaginar as vozes de quem usava esta estrada e tantas outras picadas e caminhos existentes na  época, tais como o caminho para a pottenbakkerij (olaria) na lagoa do Tauape (hoje soterrada e transformada na avenida Eduardo Girão); ou para as salines  na direção do Ryo Coco; ou a picada para o Baij van Mucuriba (Mucuripe); ou para Le viel Fort apelleé st Bastiaen (antigo Fortim de São Sebastião), entre outras. Tratava-se de uma rede viária com cruzamentos sem sinais de trânsito, diga-se de passagem. Um destes cruzamentos era a bifurcação que surgiu no ponto de encontro entre o antigo caminho para a  Aldee Pirapeaiba e as plantações de mandioca e milho (pharinie ende Millie rossen), na região entre Maranguape, Marancanú e Pactuba de hoje, e a estrada para as minas. Seria esse cruzamento novo o primogenito do ''Cotovelo'' que o prof. Liberal de Castro escreveu em uma de suas obras sobre Fortaleza no passado?

         A agitação no Chiara de então não aconteceu só em terra, mas também no mar e no porto em frente ao forte neerlandês (Fort Schoonenborch, posteriormente,  rebatizado de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção). O local onde o  pessoal da Companhia das Índias colocavam os pés na terra (Compagnne de Indes mit piet a terre). Deste porto sairam e chegaram navios para a pátria dos neerlandeses, mas também para o Recife e, no Ceará, para Camusu (Camocim), a desembocadura do  Ryo Otxoro (rio Choró), e outros destinos. Do nosso porto ''… adequado para embarcações de porte médio'', como referido pelos neerlandenses,  chegou a sair navios que transportaram madeira e farinha de mandioca para suprir as necessidades da capital do governo neerlandês no Brasil, o Recife. Já para o rio Choró sairam os barcos que foram pescar os peixes que depois de salgados com o sal extraído das salinas que ficavam a uma hora e meia de caminhada do forte (possivelmente às margens do rio Cocó),  eram estocados  nos armazéns localizados nas imediações do forte.

          O cotidiano da Grande Fortaleza na época dos neerlandeses era agitado mesmo, e olha que não existiam os tais terminais de ônibus, shopping centers, etc. Deste passado, ou por que não dizer, deste cotidiano de Ceará de então, só ficaram preciosos registros que merecem ser estudados de uma forma mais aprofundada, fundamental para entender o modo de vida e as demais relações econômicas, históricas, ambientais  e sociais do Siara. Assim, quem sabe, poderemos compreender que a agitação no dia-a-dia de Fortaleza de hoje teve origem há muito tempo atrás, possivelmente antes mesmo da chegada de Matias Beck e a sua comitiva.

 

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Célvio Girão 13/04/2012 09:07
Um trabalho desta envergadura, pela qualidade da sua autoria e pela importância no preenchimento de lacunas na historiografia de Fortaleza e do Ceará não pode ficar ignorado. O Banco do Nordeste, temos certeza, dará publicidade à obra coordenada pelo estudioso J. Terto Amorim . Célvio Brasil Girão
Célvio Girão 13/04/2012 08:58
Um trabalho desta envergadura, pela qualidade da sua autoria e pela importância no preenchimento de lacunas na historiografia de Fortaleza e do Ceará não pode ficar ignorado. O Banco do Nordeste, temos certeza, dará publicidade a obra coordenada pelo estudioso J. Terto Amorim .Célvio Brasil Girão
Guilherme Girão Girão 12/04/2012 20:34
Belo trabalho, este, desenvolvido por essa plêiade de jovens entusiastas interessados em desvendar a verdade historica de importantes temas socioculturais vinculados à nossa terra. Parabéns ao grupo. Abraços - Guilherme~Girão
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