Romeu Duarte 23/02/2015

A vida na vitrine

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Ele informou aos seus amigos na rede social que, doravante, passaria a torcer Ceará, relegando a atração pelo Fortaleza a um passado a ser plenamente esquecido. Não, não esperava compreensão para o seu ato de quem quer que fosse. Só sabia que não aguentava mais mentir que amava o Tricolor de Aço. O preço pago por essas falsas juras de amor era muito alto: náuseas incessantes, a falta de hombridade de se olhar no espelho, noites inteiras sem dormir. Não sabia explicar por que passara tanto tempo agarrado àquele time. Neste momento, o que importava era o contraste explícito na camisa da onzena do Vozão, o negro da ausência completa de cor associado à branca junção de todas as cores. Nada como uma paixão nova e, no caso, incendiária.


Ela informou aos seus amigos na rede social que, doravante, abandonaria o seu casamento de anos e anos com aquele bancário, união que parecia sólida e resistente como uma chegadinha, para jogar-se nos braços quentes daquela sua velha amiga de colégio. Não, não esperava compreensão para o seu ato de quem quer que fosse. Às favas a família estupefata, os filhos horrorizados, os colegas de trabalho boquiabertos. Queria mais era ser feliz, ter no caminho que ela e a companheira escolheram, com diz aquela música, apenas belas praias e cachoeiras. Esgotada de simular uma relação inexistente, cujo símbolo máximo era o sensaborão papai-e-mamãe das tardes de domingo. Agora era ganhar o mundo, pois é para a frente que as malas batem, Carnaval em Olinda.


A senhora informou aos seus amigos na rede social que, doravante, após anunciar que largaria de mão os cultos evangélicos, abraçaria fervorosamente o candomblé. Não, não esperava compreensão para o seu ato de quem quer que fosse. Essa simpatia há muito já durava: ao orar, no templo humilde da periferia, sentia a ausência das imagens que tanto lhe ampliavam a fé, como no tempo em que fora devotada católica. Aquela atmosfera azulada e austera, cortada aqui e ali por cânticos ensurdecedores, lembrava-lhe também o centro espírita que frequentara quando perdida no limbo religioso. Faltava-lhe a matéria da crença, o Cristo pregado na cruz. Quem sabe agora não encontraria a paz na companhia de Xangô, Oxum, Yemanjá, Oxóssi, Exu, Oxalá, Maomé...


O rapaz informou aos seus amigos na rede social que, doravante, após a bem sucedida operação de mudança de sexo por ele realizada na Tailândia, passaria a atender por Shirley. Não, não esperava compreensão para o seu ato de quem quer que fosse. Mais que inútil o choro e ranger de dentes dos pais, dos irmãos e da namorada surpresa, pois a fruta de que ele gostava era outra, musculosa e com cabelo no queixo. Seu desejo neste instante era mandar pelos ares esse armário-prisão, onde esteve trancafiado por toda uma eternidade, passando a pão e água no quesito chamego. O arco-íris da liberdade era então sua bandeira. Já comprara uma fantasia de pin-up para sair no cordão d’As Gara Pira, na terça momina. “De maiô e cinta-liga, vou arrasar”.


A cada segundo, todos prestam contas de suas existências ao distinto público na tela do computador. O prato delicioso que se devora, o vinho divino que se degusta, a viagem idílica que se realiza, a doença grave de que foi acometido, a opinião vazia de sentido, o cãozinho fofo deitado no sofá, tudo é motivo para a superexposição, esse hodierno vício, mais letal que o crack. Se antes se reclamava da intrujice do deus Panóptico, atualmente este, mais que invocado, é reverenciado nos altares cibernéticos, reforçando o mito do Big Brother orwelliano. Todo e qualquer bicho de unha e orelha se acha no direito de dar notícia do que faz e do que deixa de fazer. Recordo-me do adeus irado do general-presidente: “Me esqueçam”. E aí, teria ele coragem de dizer isso hoje?


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