Romeu Duarte 16/09/2013

No centro do coração

Na Praça do Ferreira, dois homens brigam por uma mulher ausente, uma multidão de desocupados os açula com vaias
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Difícil reconhecer a tua importância agora, tu, que já foste a própria capital, hoje restas agônico, imundo, enjeitado. Foi por dentro do teu corpo de quadras densas e ruas apinhadas que a minha geração, talvez a última que te foi fiel, deu seus primeiros passos, dobrou as primeiras esquinas, viu o vento levantar o vestido da moça roliça e distraída. É meio-dia no Coração de Jesus, o carrilhão bimbalha a fome alheia, os pivetes, com suas adagas improvisadas, em sua caçada aos incautos. Os ônibus, já alimentados de passageiros, aguardam na reta para desová-los em bairros distantes. A culpa é tua, por continuares sendo a referência de salvação das periferias miseráveis. O sol inclemente cresta a arquitetura do colégio onde estudei, que não existe mais.


Na Praça do Ferreira, dois homens brigam por uma mulher ausente, uma multidão de desocupados os açula com vaias e mugidos. O poeta louco, em seu terno roto e encardido, assiste à luta mastigando placidamente os restos de uma merenda de pastel e caldo de cana. O relógio parado do fantasma da Coluna da Hora parece querer deter o tempo, os ponteiros unidos no doze. É meio-dia na Praça General Tibúrcio e as leoas, com os sexos trocados, pastoram a porfia do leão com a serpente na escadaria, enquanto D. Rachel lamenta o roubo de mais um par de óculos. Teus pecados serão expiados, Terço dos Homens, no fim de um Rosário sem fim de Pai Nossos e Ave Marias. A varejeira faminta suga a chaga na perna do pedinte, afinal, é hora do almoço.


A mãe impaciente com os filhos a tiracolo, a mãozada nos beiços do mais novo atrevido. As bocas devoram cai-duros, cachorros-quentes, quentinhas, saladas de frutas e aqui, dona, não tem sovinagem com o Leite Moça não, é como quem bota sabugo pra vaca magra. Top-lights, back-lights, faixas, fachadeiros, letreiros, notícias sujas que ninguém lê. É meio-dia na Praça José de Alencar e o de menor dorme o sono dos desvalidos no colo do Pai do Romantismo, sob a guarda de um pétreo jaguar. À sombra das mangueiras, o ninja esfrega mãos e pés que, mais tarde, quebrarão dezenas de cocos. Corajosos, os obreiros do culto evangélico aguardam a chegada no templo do demônio do Bom Jardim, agora enfiado no corpo de uma mulherzinha seca, por nome Marineusa.


Tu, que eras de uma beleza singela e asseada, agora exibes necroses por abandono em teu tecido urbano. Tuas vias norte-sul fenecem antes de terminar na Leste-Oeste. Teu divórcio com o mar, litígio que ninguém ousa resolver. Ex-cidade, que é da tua vocação, qual é a tua? A funerária vazia, céu de vidro azul fumaça, quatro graus de latitude, o mau agouro das coroas e ataúdes. É meio dia no Passeio Público e as almas penadas dos mártires da Revolução do Equador guardam seu lugar na fila do self-service instalado no quiosque. A prostituta buchuda, de short minúsculo, propõe ao soldado um amor vexado de cinco reais. O velho baobá, saudoso de África, um de teus moradores mais antigos, expande malino as raízes em ti, asteróide sem o menino de Exupéry.


Cansado de debates e promessas, presencias o rame-rame das tuas escassas e precárias atividades, que, no dizer daquele perverso acolá, se melhorarem ou se aumentarem, se estragam. Os bulevares, teus velhos limites, há muito ultrapassados, cumprem esgotados suas sinas de avenidas fracassadas. O Pequeno Grande chora o destino do Pajeú e a solidão do Forte, teus primitivos esteios. É meio-dia na Praça da Escola Normal, na Praça da Estação, na Praça do Carmo, na Praça Clóvis Beviláqua, na Praça Waldemar Falcão, na Praça Pedro II, em todos os teus logradouros e espaços públicos. O que ora é deglutido logo mais será expelido, daqui a pouco, a tarde, a noite, a manhã de um amanhã sem razão. Centro de Fortaleza, que peso no meu coração...

 

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