[an error occurred while processing this directive][an error occurred while processing this directive] A cerveja, o tira-gosto e um corpo | O POVO
Fábio Campos 01/12/2013

A cerveja, o tira-gosto e um corpo

"Notem que o defunto sob o lençol é apenas um componente a mais da paisagem. Ninguém parece incomodado com o intruso. Não acreditei que as pessoas fossem tão frias a ponto de continuar em suas mesas, tomando cerveja, comendo e mirando a vítima"
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Fábio Campos fabiocampos@opovo.com.br
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Há poucos dias, um jovem foi assassinado a tiros na praça da Gentilândia. A repercussão na cidade não foi grande. Apenas mais um homicídio. O caso virou notícia de rodapé de jornal. Do tipo que tem todo santo dia. Também deve ter saído nos programas policiais que servem defuntos na hora do almoço.

 

O noticiário informa que foi mais um homicídio de um tipo que se tornou muito comum. Possivelmente, segundo a PM, o caso se relaciona com o tráfico de drogas. A área foi isolada pela PM. Coberto por um lençol, o corpo passou horas estendido no chão.

 

No dia seguinte, alguém colocou nas redes sociais uma foto retratando uma esdrúxula situação. Na imagem (vejam acima), mesas e cadeiras fora da área isolada. Gente comendo, bebendo, se divertindo. A poucos metros, o corpo.

 

Notem que o defunto sob o lençol é apenas um componente a mais da paisagem. Ninguém parece incomodado com o intruso e sua poça de sangue. Desconfiei da imagem. Não acreditei que as pessoas fossem tão frias a ponto de continuar em suas mesas, tomando cerveja, comendo sanduíche e mirando a vítima.

 

Sim sei que a morte a vida estão banalizadas em Fortaleza e adjacências. Vez ou outra, vejo na TV as crianças se divertindo para as câmeras diante de mais um assassinato na vizinhança. Mas, adultos impassíveis, serenos, comendo e bebendo indiferentes diante do corpo que jazia é um quadro que eu não queria crer como real.

 

Desconfiado, pesquisei e encontrei outras fotos de outros ângulos. Ficou claro que não era montagem. Sim, já é possível comer um salgado, tomar uma cerveja e bater um papo diante de um corpo a espera da perícia e do rabecão. Chegamos a esse terrível e triste ponto.


O assassinato em questão se deu no início da noite de quinta-feira da semana passada. Na segunda-feira seguinte, o noticiário dizia que ocorreram 34 homicídios na Grande Fortaleza entre a noite de sexta-feira e a noite de domingo. É provável que cenas similares tenham se reproduzido outras vezes.

 

Nada pode ser mais preocupante que a indiferença diante da morte. É o principal sintoma de uma sociedade deteriorada. No vácuo da autoridade pública, que nem sequer lamenta a montanha de mortos, muitos naturalizam a violência. Outros passam a incentivar os linchamentos.

 

E assim caminhamos. Não sei exatamente para onde, mas não pode ser um bom futuro se a vida, bem maior da humanidade, não vale o preço se um salgadinho frio.

 

UMA VARIÁVEL DE 2014

Quando se fala nas eleições de 2014, é preciso considerar as possíveis variáveis que podem influenciar no processo eleitoral de maneira decisiva. Uma questão de grande importância é a seguinte: as manifestações de junho de 2013 vão se estender a junho de 2014?

 

Pois é. Lembrem-se que, na política, o efeito imediato das manifestações foi uma significativa queda na popularidade dos governantes. Caso elas ocorram em 2014, é muito provável que os maiores prejudicados sejam os que estão no poder, vão concorrer à reeleição ou vão tentar reeleger sucessores.


Mas, a questão continua: as grandes manifestações vão ocorrer novamente? As condições objetivas que levaram milhares às ruas permanecem. Se em junho tivemos a Copa das Confederações, em 2014 teremos a Copa do Mundo. Então, será um quadro bastante similar.


Arrisco afirmar que os eventos de junho passado não vão se reproduzir da mesma forma em 2014. O manifestante médio, de boa fé e sem ligações partidárias não tolera o vandalismo. Não tolera black blocs e outros oportunistas que depredam bens públicos e privados.


Portanto, paradoxalmente, são os vândalos os grandes responsáveis pelo fim das manifestações. A maioria não se dispõe a ir às ruas para servir de amparo à ação desses mascarados que quebram vitrines e tentam invadir os prédios representativos da democracia.


Não duvidem se o difuso desejo de se manifestar contra a corrupção, a qualidade ruim dos serviços públicos e a violência encontrar outros meios de se fazer notar. Pode ser em ações organizadas como panelaços ou coisas que o valham. Pode simplesmente ser nas urnas.

 

SOBRE OS TRILHOS

Ainda acerca da desistência da Invepar, ligada a OAS, de disputar o direito de operar o metrô e o VLT de Fortaleza, corre no mercado o comentário de que a falta de segurança institucional faz com que a maior interessada apresentasse exigências muito altas para ficar com o negócio. Também pesou na decisão da Invepar de desistir das concessões o não cumprimento de contratos mantidos com as empresas de transporte urbano (reajustado por medida judicial) e intermunicipal, que ainda aguarda a boa vontade da Arce (o contrato reza que o ajuste seria em agosto passado). Em vários setores, a iniciativa privada só aceita investir quando o setor público faz sua parte. Vejam o caso do Centro. É improvável que os interessados na PPP aceitem investir se a Prefeitura se recusar a tirar o comércio informal dos espaços públicos.

DOUTRINA DEMAIS

A Comissão de Educação da Câmara dos Deputados realizou audiência pública na quinta-feira para discutir a qualidade do ensino no Brasil. Conclusão: a falta de metodologia, associada ao excesso de ideologias na formação dos professores, prejudicam a qualidade do ensino. Do professor Braúlio Porto, da Faculdade de Educação da quase sempre ideologizada UNB: “O excesso de doutrinação ideológica reduz o espaço dedicado à alfabetização e aos outros conhecimentos básicos como português, matemática e ciências. 

 

Enquanto as faculdades de educação de Cingapura oferecem 18 disciplinas de matemática, ciências e língua materna; no Brasil, as faculdades costumam oferecer apenas uma ou duas disciplinas de matemática, ciências e língua”.

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rogerio magalhaes 27/12/2013 01:05
As pessoas estão sendo desnaturadas pelo egoísmo e pelo vício. Tudo o que importa é o dinheiro, cerveja e sexo. Piedade para eles é coisa de frouxo. Mas quando alguém da família aparece com um câncer, só aí eles conseguem acordar e mostrar alguma solidariedade e respeito pela dor e pela morte.
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Ronaldo Clayton Silveira Oliveira 02/12/2013 23:32
Não vi ninguém na foto tomando cerveja! Essa é a realidade do nosso país!
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Adilson Carvalho 02/12/2013 19:11
relaxa, isso é Brasil daí pra pior...
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thiago 02/12/2013 18:24
se descobrissem q essa pessoa era um traficante essa materia perderia o sentido nao é... ele se tornaria uma vida matavel com justificativa... caberia só ao direitos humanos ter pena da vida dele.... irian metem o pau nessa materia como meteram o pau na globo..... mas como ninguem sabe o q ele éra..
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Ana Maria Daniel 02/12/2013 16:50
Vou te contar, viu! Um texto impactante desse e após lê-lo o povo só consegue se e pressar pra corrigir um deslize de ortografia do jornalista. O outro, autor da foto, pra cobrar os créditos. Definitivamente, só pensamos em si próprios. Essa sociedade fracassou.
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