[an error occurred while processing this directive][an error occurred while processing this directive] A grande seca de 1877 | O POVO
ana miranda 10/03/2013

A grande seca de 1877

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Não sou historiadora, mas parece que na história das secas cearenses nunca houve uma migração tão intensa como na seca de 1877, nem tanto sofrimento, três anos de seca, quando centenas de milhares de pessoas foram se refugiar em lugares menos afetados, como Aracati, Baturité, ou Fortaleza. Na capital da província, famílias maltrapilhas e famintas iam de porta em porta pedindo água e comida, roupas, invadiam plantios das casas nos arredores, moças se prostituíam para sobreviver. No interior, unidos em grupos, flagelados saqueavam depósitos de mantimentos do governo. A população da província estava sendo dizimada pela fome e seus correlatos, como as epidemias. Pessoas se tornavam párias, esmoleres, aviltadas por uma miséria absoluta num lugar estranho, perdendo o mínimo de dignidade que antes possuíam em suas casinhas de palha e roçados e cabras e uma ou duas reses.

 

Em Juazeiro o padre Cícero se desdobrava para salvar seus fiéis, a seca estava acabando com o povoado em que ele vivia há uns cinco anos. Em Quixeramobim “grupos armados desses infelizes percorrem em atitude resoluta as povoações e as fazendas, ameaçando aniquilar todos os obstáculos que se oponham ao seu inabalável propósito de não se deixarem morrer à fome”. Em Baturité temiam que se desenvolvesse “o roubo em escala assombrosa e nunca vista, porque o povo faminto atacará, a vista e face de seus donos, as casas dos fazendeiros, os armazéns e os pequenos e raros estabelecimentos comerciais que ainda existem pelos povoados, tudo será presa da pilhagem desesperada a que obriga a fome, e até o assassinato carregará as cores negras desse quadro desolador”. Fortaleza teve sua população aumentada de umas vinte mil para mais de cem mil almas. Sertanejos chegavam acreditando que o governo lhes daria passagens e provisões para migrarem a outras províncias, como a do Amazonas, a migração era vista por muitos como a melhor saída para o problema da seca. A salvação era sair do Ceará.

 

O presidente da província, inteligente, providenciou a distribuição de donativos aos que se acampavam diante do palácio, organizou comissões de socorro, e ordenou que os flagelados fossem empregados em obras públicas. No interior, trabalharam em construções e reformas de cadeias, cemitérios, açudes, igrejas, estradas e prédios públicos. Em Fortaleza construíram um novo paiol de pólvora, estradas em Soure e Messejana, e trabalharam em diversas obras de pequeno porte. Os agora operários moravam em alojamentos erguidos ao redor das obras, e vinham reforços policiais para os momentos da entrega de comida, quando costumava haver tumulto. Havia medo e tensão com toda aquela situação desesperada. Foi fretado um barco para ficar à disposição da presidência, a fim de transportar alimentos destinados aos flagelados. Assim foi criado um sistema que, mal ou bem, funcionava.

 

Mas veio uma ordem do gabinete Cotegipe, no Rio de Janeiro, desautorizando o presidente da província a gastar recursos que não fosse com alimentos, roupas e remédios. Alguns historiadores acreditam que a medida resultou de um discurso de José de Alencar na Câmara, afirmando que havia “exageração” nas informações sobre a seca, que estaria por acabar. Os retirantes foram abrigados em quatro abarracamentos que eles mesmos construíram, e os homens válidos para o trabalho, empregados na limpeza de ruas e praças. A seca persistia, já era 1878 e novas levas de retirantes continuavam a chegar a Fortaleza, atraídas agora pela oferta de trabalho e possibilidade de migração, novos abarracamentos eram construídos em bairros da cidade, como Meireles, Lagoa Seca ou Calçamento. E chegaram as doenças.

 

“A peste e a fome matam mais de quatrocentos por dia”, escreveu Rodolfo Teófilo, horrorizado com o que assistia; parado numa esquina, em pouco tempo viu passarem vinte cadáveres. “E as crianças que morrem nos abarracamentos, como são conduzidas! Pela manhã os encarregados de sepultá-las vão recolhendo-as em um grande saco: e, ensacados os cadáveres, é atado aquele sudário de grossa estopa a um pau e conduzido para a sepultura”. As notícias incomodavam a Corte, o imperador chegou a dizer: “Não restará uma joia da Coroa, mas nenhum nordestino morrerá de fome.”

 

Hoje se calcula que morreram cerca de quinhentas mil pessoas em consequência da seca de 1877. O engenheiro André Rebouças, abolicionista, negro, respeitado por suas ideias progressistas, calculava em mais de dois milhões as pessoas atingidas pela seca, ainda em novembro de 1877.

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