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Jan/1928 29/08/2012 - 08h00

Luis Carlos Prestes: Os revolucionários brasileiros na Bolívia

Esta não foi a última entrevista publicada no O POVO com Luis Carlos Prestes (1898-1990). Nem a melhor. Mas foi a "primeira", contando Prestes ou qualquer outro personagem. E o jornal garantiu na época a importância do relato a seguir, resultado de "longas conversas", como define o autor do texto, não identificado na matéria original.
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Detalhe da página do Jornal O POVO publicada em 07/12/1999
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Jornal O POVO, 07/12/1999

 

Autor: Rodrigo de Almeida

 

LUIS CARLOS PRESTES - Esta não foi a última entrevista publicada no O POVO com Luis Carlos Prestes (1898-1990). Nem a melhor. Mas foi a "primeira", contando Prestes ou qualquer outro personagem. E o jornal garantiu na época a importância do relato a seguir, resultado de "longas conversas", como define o autor do texto, não identificado na matéria original. Durante quatro dias seguidos, ainda no primeiro mês de vida do O POVO, Prestes falou ao Ceará através de um "emissário" do jornal "A Esquerda", do Rio de Janeiro. Era 1928 (entre os dias 17 e 20 de janeiro), quando o líder comunista estava na Bolívia exilado pelos efeitos da "Coluna Prestes", criada em 1925. Prestes e seus companheiros pretendiam propagar a revolução tenentista e levantar a população contra as oligarquias. Para tanto, percorreram 24 mil quilômetros Brasil adentro. Os homens que restaram acabaram se exilando. No exílio, eram considerados heróis românticos para boa parte dos brasileiros. E a figura de Prestes, um tanto misteriosa e lendária. Muito da história brasileira ocorrida nas décadas seguintes ainda teria a mão de Luis Carlos Prestes. E, se ali, ele já era "uma das figuras mais representativas da Revolução brasileira", como mostra esta entrevista, assim permaneceu. Sempre lutando por um ideal até o fim da vida, em 1990.

Um emissário da "A Esquerda", do Rio, que acaba de chegar da Bolívia, narra o que viu ali entre as figuras representativas da Revolução Brasileira

Em Puerto Suarez
Mal chegaremos a Corumbá, cinco dias depois de partirmos do Rio de Janeiro, fomos informados de que o general Prestes era esperado, de um momento para outro, em Puerto Suarez. Puerto Suarez, no Rio Paraguay, é a povoação boliviana mais próxima de Corumbá, apenas uma hora de automóvel, por terra. Desnecessária se tornava, portanto, nossa saída a Gaiba. Feliz coincidência facilitava e aproximava o nosso encontro com o general. Nada mais tinhamos a fazer do que aguardar, em Corumbá, que elle chegasse a Puerto Suarez.

Ficamos assim uma semana em Corumbá, que é uma linda cidade, perdida no alto sertão, mas servida por todos os requisitos da civilização. Gente fina, culta, cosmopolita, endinheirada. A semana passou rápida, apesar do calor torrido e da mosquitaria innumeravel. De resto, nos dois dias e duas noites que passámos em Puerto Suarez tivemos saudades do calor e dos mosquitos de Corumbá... E bem podemos avaliar qual tem sido a vida de sacrifícios e de sofrimentos não só moraes, porém também physicos dos gloriosos exilados.

Elles, é claro, de nada se queixam. Nem falam nisso. Nem querem que se fale nisso. Mas nós o fazemos precisamente para mais accentuar o grao de admiração e respeito de que são credores homens daquella tempera.

Digamos, ainda, que Puerto Suarez, perto de um centro civilizado como Corumbá, tem uma população relativamente numerosa, composta, na maioria, de pequenos commerciantes e de funccionarios, pois que é sede do governo territorial com guarnição militar, porto fluvial, alfandega etc. Com tudo isso, é simplesmente horrível. Imagine-se agora o que deve ser Gaiba, que era matto puro, a 40 legoas de Puerto Soarez, e hoje povoada quasi que somente pelos exilados, os quaes tiveram de improvizar os meios rudimentares de habitação em que vivem.

O general
Não foi sem uma profunda e íntima emoção, apenas calcada pela curiosidade fria do reporter, que apertamos a mão de Luiz Carlos Prestes. Mas o general é um grande homem authentico: a modestia não é a menor de suas qualidades pessoais. Discreto e medido, elle recebeu-nos, amigavelmente, com a mais pura simplicidade. Passamos assim, 48 horas em sua companhia, comendo à sua mesa, dormindo em rêde pararella à sua. Elle desculpava-se das escassas commodidades, que podia oferecer-nos. Nós nos sentimos honrados em partilhar de tão nobres privações.

Não esquecíamos, todavia, nossa missão de reporter. Mantinhamos de tal sorte, sempre alerta, nossas faculdades de observação.

Longe de nós o propósito, nem caberia aqui traçar o perfil do general Luiz Carlos Prestes. Fazemos apenas as annotações indispensáveis a illustração das longas conversas que mantivemos, como para dar tom e inflexão às suas palavras. O que nelle impressiona, desde logo, ao menos arguto, é o todo de decisão prompta que emana de sua pessoa: do olhar, do andar, do falar, do gesticular.

Prestes é sobretudo um homem resoluto. Homem de acção. A entonação da voz, a medida do gesto, a segurança das opiniões, a firmeza do olhar, e ainda a direitura do busto e a presteza imperiosa com que elle caminha para a frente - tudo revela em Prestes, como synthese dynamica de suas extraordinárias qualidades de intelligencia, de caracter e de coração, o homem essencialmente de acção que elle é.

Algumas horas de convívio franco bastou-nos para compreender a assendencia moral absoluta que elle exercia e exerce sobre seus companheiros - soldados e officiaes da Columna. Dentro dos limites da relatividade humana Prestes não erra, não falha, não dobra, não hesita e dahi a especie de fanatismo, deixem passar o termo, com que o seguem e seguirão.

Nenhum espirito de aventura ou temeridade se percebe nelle. Pelo contrário, até na simples conversa Prestes se mostra sempre prudente, reservado, mesmo desconfiado. Vê-se que o que elle diz, di-lo depois de pensado, pesado, medido. Nenhuma forma e exagero, nem de gaguejamento. A segurança e a firmeza do equilíbrio perfeitas. Ora, o modo de falar é um índice do modo de agir.

Não haja a menor dúvida, Luiz Carlos Prestes é um Homem. Homem que há de marcar um sulco na história deste paiz, embora isso desagrade aos homunculos guindados pelo topete insolente às alturas da farra republicana...

A vida no exílio
Sabe-se que foram cerca de 500 os homens da Columna Prestes internados no território boliviano. Nesse numero, já muitos, entre os soldados, hão sido e vão sendo repatriados para os Estados de onde são originarios, ou onde se incorporaram à columna. Além dos gastos com medicamentos e tratamento de enfermos e nas despesas de repatriamento dos soldados que têm sido empregados os dinheiros recebidos por Prestes das subscrições publicas abertas por vários jornaes brasileiros. O general fará publicar, oportunamente, segundo nos comunicou, o balancete das quantias recebidas e gastas, tudo devidamente discriminado.

- O dinheiro proveniente das subscrições e que me chegou às mãos - accentuou elle - tem sido empregado exclusivamente na compra de medicamentos. Indispensáveis nas despesas com o tratamentos dos enfermos e no custeio das viagens de repatriamento dos companheiros que desejam voltar para o Brasil. Aquelles que não estão doentes, nem querem ou não podem regressar à pátria, trabalham e só no trabalho buscam os meios de subsistência.

Com effeito, a vida no exílio dos revolucionários é uma vida de trabalho, duro, penoso, obstinado, mas que lhes proporciona, além dos possíveis recursos de subsistência, independente, a maior força moral na terra estrangeira. Dahi, que o prestígio de Prestes não seja talvez menor na Bolívia do que no Brasil.

Trabalho honrado e fecundo.
Construção de estradas de rodagem. Exploração de madeiras. Plantações e cultura de terra. Commercio externo e interno. Taes as actividades em que se empregam os revolucionários exilados, à frente delles o grande engenheiro Luiz Carlos Prestes, nas terras da Bolivian Concession e alhures.

Brilha no olhar de Prestes, casada à doçura da bondade infinita, que se adivinha, a chama dolorosa e melancolica da nostalgia pela terra natal.

Os boatos tendenciosos
Pouco antes de partirmos do Rio, vehiculou o Jornal do Commercio o boato de "incursão" da Columna Prestes em Mato Grosso.

Lembremo-nos de que a "varia" tendenciosa circulou precisamente no momento em que o Supremo Tribunal iniciava a revisão do julgamento dos revolucionários de São Paulo. Tal coincidência não podia ser obra do accaso. O que pretendia, evidentemente era criar um ambiente de incerteza e de pavor e impressionar as camadas conservadoras e timidas da população, ou amedrontar os juizes...

Boatos foram logo desfeitos, não só pelos factos postos, como pelo simples bom senso.

Sobre este assunpto, disse-nos o general Prestes:
- Nem da razão para se pensar em lutar contra golpe dessa natureza. Até porque a revolução, se viesse, deveria partir do centro para a peripheria e não desta para aquelle. O boato não passou, portanto, de méra exploração por parte de quem podia servir e delle.

Um sorriso de indulgencia sublinhou o commentario ao insidioso boato...

Em Puerto Soarez (2ª parte)
O General nunca fala de si, nem de seus efeitos. Atribue sempre a glória delles aos companheiros da Grande Marcha, ou a qualquer outra circunstância. Referimo-nos certa vez, à sua extraordinária resistência physica, durante o "raid" formidável, em que elle se mostrava, invariavelmente, o mais bem disposto, o mais expedito, o mais ousado, varando milhares de leguas através do sertão bravo, muitas a pé.

Effeito da rapadura e da farinha, disse-nos. A rapadura é uma maravilha incomparável como alimento para as grandes marchas pelo sertão.

O dr. José Pinheiro Machado, major da columna, combatente desde o primeiro momento, no Rio Grande do Sul, e em cuja "residência" (vae o termo entre aspas...) de Puerto Suarez o General nos acolhera, é que nos contou diversos episodios demonstrativos do valor excepcional do Chefe.

Mas não sabe relatá-los aqui. Pretendemos unicamente reproduzir e interpretar em resumo, o pensamento do próprio General, em torno dos vários assumptos ou questões sobre os quaes conversavamos. E o que mais nos interessava, na verdade, eram as declarações das opiniões de ordem geral, políticas economicas ou sociaes.

O obra da grande marcha
A epopéa militar realizada pela Columna Prestes, palmilhando o vastíssimo hinterland brasileiro, não deve ser encarada dum ponto de vista estrictamente technico ou estratégico. Porque ella effetuou uma obra essencialmente política. Isso é o que nem todos compreendem. E isto é o que lhe empresta mais profunda e mais duramente significação historica, por seus resultados immediatos e remotos.

O General Prestes esclareceu-nos:
- Quando resolvemos emprehender a marcha para o norte do paiz, já os objetivos militares da Columna, mesmo technicamente falando, haviam passado para segundo plano. O que em verdade menos procuravamos era combater o inimigo legalista. Nossa tactica e nossos momentos consistiam mais em evitar do que em provocar combates, com as forças adversárias. E neste ponto podemos afirmar que os objectivos visados pela Columna, durante todo o tempo da marcha, foram sempre rigorosamente alcançados.

...Pinheiro Machado aparteou:
- De onde podemos concluir que o General nunca foi vencido.

Prestes prosseguiu:
- O que tínhamos em vista, principalmente, era despertar as populações do interior, sacudi-las da apathia em que viviam mergulhadas, indiferentes à sorte do paiz, desesperançados de qualquer remédio para seus males e sofrimentos. Obra sobretudo de caracter político e social... Ora, tudo faz crer que estes resultados foram obtidos o mais satisfatoriamente que era possível.

De facto, assim é. A marcha da Columna invicta, com o ter sido um "raid" epico, traçou ao vivo, na lombada do Brasil adormecido, todo um programa de reivindicações políticas, econômicas e sociais, verdadeira plataforma da redempção nacional. Só os obstinados pela cegueira do poder, ou os embrutecidos no fácil epicurismo reinante, poderão desconhecer ou negar o extraordinário alcance, neste sentido, da obra de Luiz Carlos Prestes. Mas tudo isto, felizmente, é bem compreendido pelo Brasil forte e jovem que pena, batalha, soffre, e elabora, nas entrelinhas da terra espesinhada, um regimen de vida mais decente e mais digno deste grande pais.

A Columna Prestes, podemos dizê-lo com toda propriedade, foi uma espécie de escola ambulante de civismo revolucionário, ensinando ao povo brasileiro o A. B. C. de seus direitos, até agora desdentados pelo syndicato político que tem monopolizado, em proveito próprio, a riqueza e o governo do Brasil.

Os partidos políticos e a revolução
Eis uma questão de suma importancia. Partidos políticos organizaram-se ou estão a organizar-se, entre nós desde algum tempo, em cujos programas, mais ou menos amplos, se pretende responder às aspirações e interesses da nacionalidade.

Falamos ao general sobre esta questão. Elle nos disse encarar com sympathia e applauso a formação de partidos, que defendam um largo programma esquerdista, os quaes poderão effectuar proveitosa tarefa de propaganda e agitação dos ideaes revolucionários.

Mas não creio, observou, que os problemas nacionaes da hora presente possam ser resolvidos por meios só de palavras. Estas não bastarão para arrancar o paiz das garras da minoria que o explora.

A única solução
Luiz Carlos Prestes estuda os problemas brasileiros como verdadeiro sociólogo. Examina-os em conjuncto em toda a complexidade de seu processo histórico, correlacionando-os no tempo e no espaço e não apenas por este ou aquelle prisma, isoladamente. Dahi a segurança das apreciações, que expende, e das soluções que apresenta. Dahi, os postulados concludentes a que chegou:

- Não há solução possivel para os problemas brasileiros dentro dos quadros legaes vigentes. A questão não é de homens, mas de factos, isto é, de systema e de regimen. Nenhum governo, mesmo animado das melhores intenções deste mundo, poderá, nos limites da legalidade normal, resolver os problemas nacionaes em equação. A solução tem de vir de uma transformação radical em tudo, não apenas na superficie política. É preciso organizar o paiz sobre bases economicas e sociaes de relação entre os homens que habitam e trabalham nesta grande terra. É preciso quebrar, resolutamente, as cadeiras que opprimem o Brasil e impedem seu desenvolvimento ulterior, sua expansão fecunda e gloriosa. Ora, tudo isso só pode ser feito pela - Revolução.

Eis o que é claro, firme, positivo. Os problemas brasileiros só podem ser resolvidos pela Revolução. Esta, no momento histórico que atravessamos, apresentase-nos como a única solução. Estas coisas, ditas por Prestes - bem entendido: nós não tachygraphamos suas palavras; procuramos, aqui, condensar e interpretar seu pensamento, expedido em dois dias de collóquio comnosco - estas coisas, repitamos, têm uma importância fundamental.

- Evidentemente, movimento dessa natureza, assim amplo e difícil, não pode ser obra de um simples momento de exaltação. Elle exige, pelo contrario, longa, paciente, laboriosa preparação. E a esta preparação devem consagrar-se, coordenadamente, todas as forças progressistas deste paiz.

Em Puerto Soarez (3ª parte)
Prestes fala sempre com segurança a respeito de todos os assumptos. Mesmo acerca das questões mais afastadas daquellas de sua especialidade de militar e de engenheiro, elle opina com a firmeza de quem tem conhecimento exacto do objecto tratado. Observamos este facto innumeras vezes, durante nossa palestra.

Em dado momento, por exemplo, a proposito de suas viagens pelo interior boliviano, versou a conversa sobre as enormes aranhas chamadas caranguejeiras, por aquelles mattos existentes em abundancia.

Com a maior naturalidade deste mundo, Prestes poz-se a falar, como um technico, dos repugnantes arachnideos, mostrando-se perfeitamente ao par das ultimas pesquizas, levadas a effeito em Butantan, em cujos laboratorios o veneno da caranguejeira desde algum tempo se acha em estudos. Citamos este exemplo de memoria, ao acaso. Poderiamos citar dezenas de outros, versando sobre coisas completamente diferentes.

Sobretudo aquelles dizem respeito de perto ou longe com os problemas brasileiros.

Os problemas nacionaes
Apesar da carencia de materiaes de estudo e, mais ainda, do trabalho pratico que lhe absorve as actividades, Prestes mostra-se profundo conhecedor dos problemas brasileiros, sejam os de ordem economica e financeira, sejam os de ordem politica e social.

De resto, a certos aspectos, a Grande Marcha foi como que uma escola pratica de estudos. Batendo os vastos sertões do territorio nacional, percorrendo e varando campinas, serras, florestas, rios, cidades, villas povoados, o general Prestes, em contacto com o Homem e com a terra, poude examinar ao vivo os interesses e as necessidades angustiosas daquelle e as riquezas e possibilidades infinitas desta.

Mas ainda no paiz amigo do exílio, já o dissemos é sempre em funcção dos problemas brasileiros que suas preocupações, de estudo ou de pratica, se manifestam, se agitam, se desenvolvem. Todos que o visitam e com elle conversam guardam, desde logo, esta impressão dominante.

Em Puerto Soarez (4ª parte)
Por uma natural associação de idéias a conversação a respeito da via férrea, que o governo brasileiro é obrigado, pelo tratado de Petropolis, a construir no Oriente Boliviano, passou a tratar das questões referentes aos meios de comunicação no Brasil.

Luiz Carlos Prestes fez então a mais severa crítica de nossa situação nesta materia. Severa, compreenda-se, menos nas palavras que na substância. O General é sempre de extrema delicadeza de expressão, mesmo quando se refere aos peores adversários. Jamais ouvimos delle qualquer objugatoria virulenta, ou qualquer qualificativo mais aspero. Pelo contrário, a indulgencia anda sempre a sorrir por traz das bastas barbas negras que lhe cobrem o rosto macilento... O que lhe importam são os factos que ficam, que permanecem, que perduram, fazendo bem ou mal. Os homens são contingentes, amarrados ao determinismo social titeres da historia e passam.

Vias de comunicação e transporte
Mas reatemos o fio da conversação.
Prestes mostrou que o defeito fundamental dos meios de comunicação, existentes e também projetados no Brasil, reside na falta de systema, isto é, de um vasto e completo plano de conjunto, visando o futuro, e ao qual obedecessem todas as iniciativas parciaes. Este systema, é claro, devia ser estabelecido sobre uma racional combinação de todos os meios de viação e transporte: a ferroviaria, a fluvial, a de rodagem, a aerea, a de cabotagem. Systema essencialmente econômico, visando o fomento cada vez mais intenso das possibilidades econômicas do paiz.

- A construção de nossas estradas de ferro, disse o General, tem obedecido, até hoje, quasi que só ao criterio dos interesses políticos de taes ou quaes chefes da região favorecida. Ou então é o contra-senso, mania das grandezas, o delirio buracrotico. Por exemplo, o traçado para o prolongamento da Central de Pirapora a Belém. Há um trecho extensíssimo, nesse traçado, acompanhando o Tocantins uma distância de 200 leguas. Ora, essas 200 leguas do Tocantins são perfeitamente navegaveis. O que se impõe neste caso, parece, evidente é a combinação racional da via ferrea e da via fluvial, ligando-se, completando-se para um fim unico.

Como este, aponta-nos o General varios outros casos de insensatez cabotica do nosso systema - ou antes: "não systema" - de viação e transporte. Vias fluviais admiraveis como o São Francisco, o Parnahyba, etc. carecentes apenas de apparelhamento que se pode considerar seria baratíssimo, lá estão abandonadas, sem nenhum prestimo pratico. Não adianta absolutamente nada ufanar-se a gente de um paiz assim, quando não sabemos aproveitar as opulencias que a natureza nos offerece. O Amazonas! o maior rio do mundo! O valle do São Francisco o maior produtor de algodão do mundo! Isso tudo é admiração de pauperrimos basbasques, sem nenhuma consequencia util.

A boa terra da Bahia
O São Francisco e a Bahia. Falamos da Bahia, cujo alto sertão foi palmilhado, ida e volta, pela Columna Prestes, invicta e incolume.

A Bahia é um assombro de riquezas naturais. Ali ha de tudo e pode haver de tudo em grande escala. Terra boa de facto, privilegiada, fertilíssima.

- Mas completamente abandonada. A população do sertão bahiano é relativamente densa. Muito atrazada, no entanto. Não dispoe de meios de comunicação. Nem estradas de ferro, nem estradas de automoveis. Não há mesmo nem o carro de bois. Só o cargueiro. Pois bem o sertão bahiano pode ser facilmente cortado de estradas de rodagem. O Ford e o Chevrolet farão o resto...

O problema agrário
Luiz Carlos Prestes conhece, como poucos brasileiros, as questões relativas ao problema da terra e da agricultura no Brasil. Elle viu, sentiu, o sofrimento do sertanejo e do caboclo do patrício que habita e vegeta nos immensos latifundios do interior do paiz. E conclue condemnando de modo radical o erro da organização social em que vive o pequeno agricultor:

- Erros sobre erros. A dispersão demographica e talvez o principal, porque é della que resultam, em grande parte, todos os outros. Não ha estimulo. Não ha viação. Não ha ferramentas. Não ha sementes. Não ha escolas. Ha, sim, os impostos. Destes os governos não se esquecem, mesmo nas paragens mais longinquas.

Com o summariar dos erros, o General aponta os remedios e as correcções:

- É preciso retalhar os latifundios. Concentrar as populações rurais nos pontos mais convenientes. Dar-lhes meios de transportes faceis e baratos. Proporcionar-lhes ferramentas e sementes em vez de impostos. Escolas e agrônomos em vez de cobradores, fiscaes e burocratas. Trabalho rendoso, fecundo, compensador, em vez do desestímulo que tudo esteriliza.

A questão social
Homem de seu tempo, Luiz Carlos Prestes não podia alheiar-se ao estudo do que se convencionou chamar a chamar a questão social. De resto, o problema agrario, que tanto o preocupa, se acha intimamente ligado ao problema industrial. Trata-se, aqui e ali, da organização economica do trabalho, do systema de produção, de distribuição de riqueza.

Podemos afirmar que o general Prestes estuda todas estas questões com a maior attenção. Interessam-no sobremaneira as soluções applicadas ou em experiencia entre os povos mais avançados. Interesse prático de sociologo, de estadista, sem nenhum doutrinismo preconcebido.

Com isso, a convicção de que não é possível nenhum movimento sério, de ordem política e social, no Brasil, sem a mais estreita collaboração das classes laboriosas, por meio de suas organizações específicas de classe.

Aliás, a revolução de 5 de julho já inscrevia em sua bandeira como supremo ideal a completa liberdade de pensamento, de propaganda e de organização - liberdade elementares theoricamente asseguradas pela Constituição de 24 de fevereiro. Tendo livres seus movimentos ao próprio proletarismo caberá desenvolver suas actividades no sentido de progressivamente augmentar o peso de sua influencia de classe nos destinos do paiz. Há neste ponto no momento histórico actual, perfeita coincidencia de ponto de vista ou de aspirações entre a massa proletaria propriamente dita e a democracia consequente consigo mesma: Haja liberdade sem peias, e que, pelo jogo das idéias e dos interesses livremente manifestados, predomine a vontade da maioria - seja qual for essa vontade.

A América do Sul e o Imperialismo
Assumpto grave, extremamente difícil, complexo, ameaçador. Elle constitue numa das preocupações dominantes do General Prestes. Infelizmente, muito escassos são os elementos de estudo, de que dispõe. Ser-lhe-ão, pois, a maior utilidade todos os materiaes que acerca desta questão, lhe queiram evitar seus amigos.

O problema do imperialismo, isto é o problema da defesa dos paízes ameaçados pela penetração imperialista, traz, para os Estados da América do Sul, presas visadíssimas por aquellas potencias, uma serie de coincidencias de interesses que obriga também a procurar a necessaria coincidencia de solução.

A este proposito, perguntamos ao General que pensava elle sobre as possibilidades de mais estreita união continental dos paízes da América do Sul.

- Não há nenhum interesse ou aspiração fundamental, respondeu-nos, que separe, entre si, hostilmente, os diversos paízes sul-americanos. Pelo contrário, a communidade da origem, de formação e de regimen, bem como a continuidade territorial, tudo isso parece indicar, desde logo, as conveniencias mutuas de um cada vez mais íntimo entrelaçamento de relações. Direi mesmo que, historicamente, a luta inevitável contra o imperialismo poderá levar-nos até a Confederação. Encaro esta eventualidade como perfeitamente realizável, ainda dentro do nosso tempo. Portanto, não o critério da hegemonia que separa, mas o da associação, que une, tal deve ser o critério de nossa política exterior.

Como effeito reflectiamos nós. Pensar em hegemonia do Brasil, da Argentina ou do Chile na América do Sul significa na verdade enfraquecer a todos - pois que separar dividir, hostilizar, em caso taes, o mesmo é que debilitar - em proveito tão só das grandes potencias financeiras que estão de olho arregalado e garras afiadas por cima de todos nós que vivemos neste continente riquíssimo de materias primas...

Retratos da história
Costuma-se afirmar que a entrevista é uma atividade muito semelhante ao momento em que o psicanalista põe seu paciente no divã. Com uma diferença: no dia seguinte, tudo o que foi dito será exposto publicamente e não ficará restrito ao segredo do consultório. A entrevista é a essência do jornalismo. O POVO reconhece essa importância e o resultado são estas Entrevistas Históricas, parte do projeto Milênio que o jornal vem oferecendo aos seus leitores. A partir de hoje, todas as terças-feiras, serão reproduzidas no Vida & Arte grandes entrevistas publicadas na história do jornal. De sua fundação, em 1928, aos nossos dias.

A seleção que começa hoje obedece a alguns critérios. A premissa inicial é a utilização de depoimentos que produziram efeito imediato ou aceleraram nossa   história política e cultural. Em segundo lugar, buscaram-se entrevistas que,   mesmo não tendo resultados concretos, marcaram época e deram voz a   personagens especiais.

Um traço a ser observado é a técnica de edição utilizada nas primeiras   entrevistas, diferente do formato "pingue-pongue" que conhecemos hoje.Naquela época, as entrevistas eram publicadas como perfis, onde o entrevistador se punha mais diretamente no texto jornalístico. É o caso da entrevista a seguir.

Na reprodução destes "divãs de jornal", optou-se por preservar a grafia, o estilo e o vocabulário de cada época. Não deixa de ser, pois, um passeio pela nossa história. Um mergulho em nós mesmos, no jornal que fazemos e lemos   todos os dias. Uma homenagem aos personagens e seus entrevistadores, jornalistas que, de certa forma, contribuíram para preservar a história - uma das razões de existir do jornalismo.

Maria Teresa Ayres mariateresa@opovo.com.br
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