[an error occurred while processing this directive][an error occurred while processing this directive] Ivan Finotti: o biógrafo do Caixão | O POVO ONLINE
02/06/1998 19/07/2012 - 08h48

Ivan Finotti: o biógrafo do Caixão

Uma entrevista com o jornalista Ivan Finotti, um dos autores da biografia de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Ele e André Barcinski assinam o livro Maldito, que conta sobre a vida e a obra do famoso cineasta autodidata, conhecido por seus filmes de terror
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Foto de Ivan Finotti, José Mojica e André Barcinski publicada no Jornal O POVO em 02/06/1998
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Jornal O POVO 02/06/1998

 

Autor: Ethel de Paula

 

Uma entrevista com o jornalista Ivan Finotti, um dos autores da biografia de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Ele e André Barcinski assinam o livro Maldito, que conta sobre a vida e a obra do famoso cineasta autodidata, conhecido por seus filmes de terror  
Tá pronta a vingança de José Mojica Marins, 62, contra seu Zé do Caixão, personagem que roubou-lhe a cena e o fez prisioneiro da cartola negra e de imensas unhas retorcidas: Maldito, biografia assinada pelos jornalistas André Barcinski e Ivan Finotti, conta sobre a vida e a obra do até então subestimado cineasta, um autodidata que, ao contrário do que se pensa, não pariu só filmes de terror e criaturas bizarras. Ainda menino, montou seu primeiro `set' de filmagem - num galinheiro. A escola, largou aos 11 anos, preferindo uma filmadora a uma bicicleta. Cinema aprendeu na marra, improvisando aqui e ali. Acabou indo longe: dirigiu 31 longas-metragens (nem metade é trash) e causou uma inveja branca a Glauber Rocha, homem-chave do Cinema Novo, ao lotar salas de exibição. Administrar o sucesso é que foi elas: conheceu o alcoolismo, foi um tremendo mão-aberta, não fez pé de meia e ainda hoje paga aluguel, às custas de aparições fortuitas de Zé do Caixão. Sobre essas e outras diabruras é que o Vida & Arte conversou com Ivan Finnoti, um dos autores benditos do livro.

    V&A - Pra começar eu queria saber como foi esse período em que o Mojica morou dentro de um cineminha poeira...

 

    Ivan Finotti - Desde os dois anos de idade ele morou dentro de um cinema, o cine Santo Estevão, em Vila Anastácio, um subúrbio da Lapa, em São Paulo. O pai dele era gerente lá e ele viu milhares de filmes nesse cinema. Morou lá por quase 15 anos. Via filmes da cabine de projeção: desde comédia brasileira até filmes de Orson Welles, seriados, filmes de terror, inclusive passavam filmes médicos também, porque na época o Governo fazia exibição de filmes sobre higiene e convocava o povo pra ir assistir. Então ele viu filmes sobre doenças venéreas, coisas assim (risos).

    V&A - Ele ainda era garoto então quando fez o primeiro filme?

 

    Ivan - Ele faz filme desde o final dos anos 40, quando tinha 12 anos. Mas o primeiro filme profissional dele foi um que ele começou a rodar em 52, quando tinha 16 anos, chamado Sentença de Deus. Era um dramalhão e ele não conseguiu terminar porque duas atrizes morreram: uma morreu afogada na piscina da Vera Cruz e a outra morreu afogada numa praia. Esse filme não tinha nada a ver com terror, que ele só foi fazer mais de dez anos depois. Antes dos filmes de terror, ele fez um faroeste chamado A Sina do Aventureiro e fez um musical infantil chamado Meu Destino em Tuas Mãos. Foi o primeiro filme brasileiro que tinha desenho animado na abertura.

    V&A - E como foi que o Mojica descobriu o filão do bizarro?

 

    Ivan - Bom, como toda criança ele já se interessava por essas coisas de terror, de mula-sem-cabeça, né? Até chegou a fazer um filminho sobre o Centro Espírita que tinha em Vila Anastácio. Mas não era uma coisa que parecia que iria nortear a carreira dele. Depois que ele fez o faroeste e o musical infantil e se deu bem mal nesses dois filmes é que resolveu mudar. No faroeste, teve problema com os padres das cidades pequenas que não deixavam passar o filme porque tinha mulher pelada. Os padres sugeriram que ele fizesse um musical infantil, mostrando as crianças felizes e tal. Pegou e fez. A censura não gostou de umas cenas de meninos de rua e proibiu o filme para menores de 14 anos. Os maiores de 14 anos não queriam assistir aquela bobajada. Então, ele dançou de novo. E ficou bem nervoso. Daí resolveu: `não vou mais ouvir ninguém, agora vou fazer uma coisa violenta, não quero nem saber se o padre vai gostar'. Foi quando teve um sonho. Sonhou que tava sendo arrastado pelo cemitério por um senhor de cartola, que era o Zé do Caixão. E o nome dele tava escrito na lápide. Quando acordou tentou transformar aquela imagem num filme e aí criou o Zé do Caixão. O primeiro filme então é À meia-noite Levarei sua Alma, de 1964.

    V&A - Como ele viabilizava financeiramente os filmes?

 

    Ivan - Tudo em sistema de cotas. Ele montou uma escola, criou um grupo, tinha uma centena de alunos e técnicos que o acompanhavam. Ele dividia o custo total com esses alunos. E improvisava a valer. Fazia bingos, organizava festas, qualquer coisa valia pra arrecadar dinheiro.

    V&A - Nesse rol de improvisos, o que tinha de mais esdrúxulo?

 

    Ivan - Sem dúvida o método de interpretação que ele usava com os atores. Ele trabalhava só com não-profissionais: eram ascensoristas, lavadores de automóveis, gente que não sabia absolutamente nada de cinema. Então o Mojica tinha métodos de ensino absolutamente fantásticos. Tinha uma cena em que uma mulher tinha que fazer a dor do parto e ela era tão má atriz que não conseguia. Então o Mojica botou ela deitada lá, mandou o câmera dá um close, pegou um alicate e começou a amassar o dedão do pé dela, pra ela sentir dor. Aí quando ela gritou e e reclamou ele filmou isso. Depois redublou, gritando: 'eu filho tá nascendo'. (risos) Outro método era dar pinga pros alunos quando eles tinham que se fingir de bêbados. Ou seja: eles realmente estavam absolutamente bêbados, não era fingimento não. Nas cenas com cobras e aranhas todas as atrizes tavam mamadas, completamente alucinadas, que só assim mesmo pra lidar com caranguejeiras, cobras e tal.

    V&A - Mas até que ponto ele ia?

 

    Ivan - Valia tudo. Na época em que  O Exorcista estreou em São Paulo, em 74, ele fez outro filme chamado  O Exorcismo Negro. Aí percorria as filas de O Exorcista, dizendo: 'o diabo é nosso! Xô diabo estrangeiro!' Nos anos 50, tinham os alunos dele, que iam nas filas dos outros filmes e ficavam comentando: 'Nossa, você viu que filme bom que tá passando ali do lado? É muito melhor que esse!' O pessoal ouvia de rabo de orelha e mudava de fila. Agora, a principal jogada de publicidade dele foi os testes macabros. Ele perguntava pros atores quem queria comer uma barata viva. Quem dissesse que comia participava do filme. Punha moças no meio das aranhas, dos escorpiões... Uma outra fazia striptease na frente de todo mundo. Dava um chicote com rabo de tatu pra uma candidata bater nele. Isso fez tanto sucesso que começou a atrair até artistas de circo, que engoliam vidro, comiam chumbo quente, teve um cara que chegou a pregar a língua numa táboa...

    V&A - O Mojica foi extremamente cerceado pela censura. O que a censura alegava? E como ele lidou com isso?

 

    Ivan - Olha, num desses papéis escreveu-se que os filmes do Mojica eram obras de um débil mental e que achava que devia prender o Mojica. Outros falavam em queimar os negativos, por exemplo. Em dois casos ele teve que mudar os finais dos filmes dele. Em um deles, o Zé do Caixão tava morrendo e dizendo que não acreditava em Deus. Fizeram ele regravar o final com o Zé do Caixão dizendo: 'eu acredito de Deus'. Num outro, o Zé do Caixão terminava comendo um banquete de gente - um pé, uma mão... A censura achou isso um absurdo e determinou que o Zé do Caixão tinha que morrer. Então ele teve que arrumar uma explosão na casa pro Zé do Caixão morrer.

    V&A - Então comprometeu muito a carreira dele...

 

    Ivan - Totalmente. Em 69, quando ele lançou O Ritual dos Sádicos, que depois virou O Despertar da Besta, a censura interditou completamente. É que o Mojica falava de LSD, mostrava os viciados, mostrava a violência policial... A censura achou que era uma coisa a favor das drogas. Esse filme ficou interditado 20 anos e nunca foi lançado comercialmente. Isso devastou a carreira do Mojica de tal modo que ele jamais conseguiu fazer um outro filme em que tivesse controle total. Porque nenhum produtor queria gastar dinheiro com o Mojica sob pena de ver o filme apodrecendo nas estantes da polícia. Ele passou então a fazer filmes por encomenda: pornochanchada, filme de selva...

    V&A - Ele teve outras atividades paralelas ao cinema pra poder se sustentar, né? Li que até shows de terror no Playcenter, em São Paulo ele fez...

 

   Ivan - Nos anos 60 ele tinha até um gibi, que vendia mais que Batman. Chamava O Estranho Mundo de Zé do Caixão. Teve também um programa de tevê na Bandeirantes e depois na Tupi. Teve até um compacto de carnaval - de 69. Ah, tinha uma linha de perfumes e cosméticos chamado Mistério, onde vendia até revitalizante de unha (ri). Depois disso veio  Noite de Terror no Playcenter, onde ele fazia um espetáculo meio circense tentando assustar os frequentadores do parque. A gente até no livro coloca essa data como ponto-chave, considerando que foi a partir daí que o Zé do Caixão perdeu toda a seriedade e passou a ser visto como artista de circo. 

Maria Teresa Ayres mariateresa@opovo.com.br
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