04/04/1998 17/07/2012 - 16h50

Horácio Dídimo

Tímido e de poucas palavras, Horácio Dídimo conversa sobre literatura infantil, tema que lhe rendeu o doutorado em Minas Gerais, e fala da estrutura trinitária de sua literatura: som, silêncio e sentido
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Detalhe da página do Jornal O POVO publicada em 04/04/1998
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Autor: Felipe Araújo

 

Tímido e de poucas palavras, Horácio Dídimo conversa sobre literatura infantil, tema que lhe rendeu o doutorado em Minas Gerais, e fala da estrutura trinitária de sua literatura: som, silêncio e sentido
Mesmo quando escreve livros como A estrela azul e o almofariz, lançado semana passada pela coleção Alagadiço novo, ou uma tese de doutorado como Ficções lobatianas:  Dona Aranha e seis aranhinhas no sítio do picapau amarelo, Horácio Dídimo o faz como quem procura no verso simples e na idéia concisa a alegria de uma criança em desbravar o universo de Monteiro Lobato, Lewis Carroll, Christian Andersen ou dos irmãos Grimm.
De fato, ele próprio fã de toda essa turma, desde sempre esteve envolvido com a literatura infantil. Fosse no choque que levou quando soube pelo rádio da morte de Monteiro Lobato - morria para o pequeno Dídimo quem ele considerava um membro de sua família -, fosse como professor universitário, através de suas aulas na disciplina de literatura infantil na UFC. Disciplina essa que acabou incentivando-o a escrever para crianças.
Assim, o poeta pessimista e irônico de livros como Tempo de Chuva, redescobriu a esperança e a alegria em sua obra e passou também a publicar títulos como O passarinho carrancudo, Histórias do mestre Jabuti,  Festa no mercadinho e As reinações do rei.
Por essas e por outras, então, Dídimo foi escolhido para ser o entrevistado do caderno que trata justamente desse tema. Sem muito jeito para grandes conversas, o professor recebeu o Sábado em sua casa com uma timidez só comparável ao seu entusiasmo sempre que o assunto envolve Lobato e cia. Em pouco mais de meia hora de entrevista, falou sobre seu contato com a literatura infantil, sobre as dificuldades e os problemas que envolvem o gênero atualmente e disse que não faz distinção entre o escritor de livros para adultos e esse outro poeta.
"Na verdade são caminhos paralelos que eu não consigo distinguir. A minha literatura, o meu ensaio, a minha poesia têm muito de literatura infantil".

    Sábado - Como se deu o contato do senhor com a literatura infantil?

 

    Horácio Dídimo - Meu contato com a literatura infantil foi através do Monteiro Lobato. Quando eu era criança, meus pais me davam de presente os livros do Monteiro Lobato à medida que eles iam sendo publicados. Acompanhei a publicação de muitas obras dele e até Os 12 trabalhos de Hércules que é a publicação que está no final de sua obra. E me lembro que eu vinha do Colégio Cearense, onde estudava, quando ouvi no rádio, em 1948, a morte do Monteiro Lobato. Foi um choque pra mim porque foi como se tivesse perdido alguém da família. Então desde esse tempo que tenho ligação com a literatura infantil e principalmente com Monteiro Lobato.

    Sábado - Mas o senhor lia outros autores? Quais eram os seus livros e os seus autores favoritos?

 

    Dídimo - Os autores que eu lia na literatura infantil em geral eram aqueles que pertencem também àquele universo intertextualizado pelo Monteiro Lobato. Ele intertextualiza os clássicos da literatura infantil, então através dele eu tive contato com o folclore brasileiro, com a mitologia grega, com os clássicos da literatura infantil universal que são  Alice no País das Maravilhas, Peter Pan e outras obras.

    Sábado - Quais são, então, as principais diferenças entre o livro infantil de hoje e os que o senhor lia naquela época?

 

    Dídimo - Realmente há diferenças entre a temática, a estética e com relação aos processos utilizados, mas o que posso dizer é que o que há de melhor com relação à literatura infantil atual decorre daqueles escritores que seguem e aprofundam os processos textuais que foram desbravados, que tiveram seus caminhos abertos por Monteiro Lobato.

    Sábado - Que tipo de aprofundamento esses autores conseguem fazer?

 

    Dídimo - O Monteiro Lobato usa muito do que chamo em minha tese de transtextualizações, que são as transformações, modificações no próprio texto de obras clássicas da literatura infantil. Usa as metatextualizações que correspondem aos personagens criarem outros personagens, o contador de uma história contar outras histórias, os personagens criarem suas próprias histórias. E isso aparece também na literatura atual. Também a questão do que chamo extratextualização, que são as pessoas reais transformadas em personagens dos livros, do mesmo modo que o Lobato fez com relação a La Fontaine, a Esopo, que se transformaram em personagens dele. Então a literatura infantil atual também se utiliza desses processos. Que são processos textuais através dos quais ele abriu o caminho, principalmente nas Memórias da Emília e em Reinações de Narizinho.

    Sábado - E quem na opinião do senhor faz esse trabalho com qualidade?

 

    Dídimo - Lígia Bojunga Nunes, Ana Maria Machado, Maria Clara Machado no teatro, na poesia infantil, Vinícius de Moraes, a Cecília Meireles, e aqueles processos ficcionais do Monteiro Lobato aparecem com muita força também no Ziraldo. Por exemplo, a história da Bela borboleta  ele se utiliza muito dessa intertextualização.

    Sábado - O perfil das crianças de hoje mudou ou foi o perfil das histórias que as crianças gostam de escutar que mudou?

 

    Dídimo - Eu tenho impressão que os contos de fada que agradavam as crianças naquela época, continuam agradando as crianças hoje do mesmo modo. E hoje, com os campos semióticos diversos que aproveitam a televisão, os quadrinhos, o cinema, o teatro, a música, eles ajudam a literatura infantil.

    Sábado - Como se deu o início da sua produção nesse gênero? O que é que levou o senhor a escrever para crianças?

 

    Dídimo - Fui muito incentivado pela criação da disciplina de literatura infantil na nossa faculdade de letras. A nossa faculdade foi uma das primeiras no Brasil que ministrou a disciplina de literatura infantil em nível de graduação, depois como disciplina de especialização e depois até no nosso mestrado. Foi através desse ensino da literatura infantil por anos seguidos em nossa faculdade que comecei a criar. E também houve uma coleção de literatura infantil chamada Biblioteca da Vida Rural Brasileira, da universidade em convênio com o MEC, em 1981, que publicou uma série de livrinhos de literatura infantil para incentivar a leitura nas comunidades carentes, então isso aí também foi um incentivo para a minha criação de literatura infantil. Também por ocasião dos vinte e cinco anos da universidade foi publicado o livrinho O passarinho carrancudo que foi um dos meus primeiros livros de literatura infantil.

    Sábado - O senhor também já escreveu outro tipo de literatura. Quais as principais diferenças entre o Horácio Dídimo escritor para crianças e esse outro escritor?

 

    Dídimo - Não existe muita diferença porque em tudo que escrevo eu noto que há a presença da literatura infantil. Até nesse último livro que foi lançado, A estrela azul e o almofariz, há também uma ligação, embora indireta, com a literatura infantil. Há um poema chamado Alice no país da música, em homenagem a Elvira Drummond, que é justamente uma adaptação do texto do Lewis Carrol, Alice no país das maravilhas. Até num livro de natureza religiosa como esse As harmonias do pai nosso existe também uma parte em que o pai nosso é ligado às funções da literatura infantil.

    Sábado - Que funções são essas?

 

    Dídimo - Essas funções, ou os objetivos da literatura infantil seriam o desenvolvimento da criatividade, da maturidade, da solidariedade, do conhecimento, da sensibilidade, do discernimento, da simplicidade, que são os ingredientes que fazem um bom livro de literatura infantil. Agora, as funções da literatura infantil mesmo são aquelas que se relacionam com esses objetivos, que são propriamente divertir, emocionar, educar, conscientizar, instruir, integrar, libertar. Eu cheguei ao estudo dessas funções através do estudo das funções da literatura em geral e das funções da própria linguagem.

    Sábado - Quer dizer então que o Horácio Dídimo escritor de literatura para adultos acabou influenciando o escritor para crianças, ou foi o caminho inverso?

 

    Dídimo - Na verdade são caminhos paralelos que eu não consigo distinguir. A minha literatura, o meu ensaio tem muito de literatura infantil, a poesia também, até a minha tese de doutorado se relaciona com a literatura infantil. Esse livro, por exemplo, A estrela azul e o almofariz é um livro de poesia e metapoesia. Mas há a ligação com alguns temas como esse da Alice no país das maravilhas e também uma busca de concisão e simplicidade que é essencial na literatura infantil.

    Sábado - Como é que um poeta que num primeiro momento teve a obra marcada por um pessimismo revestido de uma fina ironia e depois resgatou a esperança e otimismo foi se colocando como um autor de literatura para crianças?

 

    Dídimo - Realmente. Esse crescimento na esperança, esse crescimento no otimismo veio desembocar plenamente na literatura infantil. No meu primeiro livro, Tempo de chuva, já apareciam textos de literatura infantil que foram intertextualizados. Existem histórias do Grimm e do Andersen que forma recontadas ao modo infantil, mas há, como você falou, uma certa tristeza, um certo pessimismo que depois foi completamente dissolvido pela experiência religiosa.

    Sábado - Como foi isso?

 

    Dídimo - Passei a ver a palavra poética, a palavra literária como reflexo de Deus, da palavra divina. Vejo até um sentido trinitário na própria palavra, porque ela é formada de silêncio, de som e de sentido. E eu vi nisso aqui uma imagem trinitária do silêncio criador do pai, da palavra redentora do filho e do sentido santificador do Espírito Santo.

    Sábado - A opção do senhor pelos poemas curtos, que também é outra característica de sua obra, de alguma forma, está relacionado com o trabalho poético direcionado para as crianças?

 

    Dídimo - Tudo se harmoniza, mas eu acho que sou um escritor, um poeta, de fôlego curto. Não consigo escrever coisas longas. Nem consigo falar muito. Gosto mais de silêncios do que de palavras.

    Sábado - A Lígia Cadermatori, no livro O que é literatura Infantil, afirma que "nem tudo que circula como livro destinado à criança é, de fato, literatura infantil. Há no mercado muita gratuidade e produções que não vão além do lugar comum estético e ideológico". Na sua opinião, qual é o lugar comum estético e ideológico presente em nossa literatura infantil hoje?

 

    Dídimo - A comercialização da literatura infantil atingiu proporções muito grandes. Muitas vezes, os livros de literatura infantil são mais vendidos que os livros para adultos. E isso aí contribui para uma certa superficialização da literatura para crianças. Então há realmente muita coisa vendida como literatura infantil e que não é porque para ser literatura infantil tem que ser, antes de tudo, boa literatura. Essa literatura não é um tipo de literatura que é mais fácil do que a destinada para o adulto. Às vezes é até mais difícil atingir a simplicidade exigida pela estética da literatura infantil. Então são esses aspectos que fazem com que a literatura infantil, muito comercializada, perca um pouco o nível que deveria ter.

    Sábado - Quem hoje consegue fugir desse lugar comum?

 

    Dídimo - Eu poderia escolher um autor representativo que seria o Ziraldo, por exemplo. O Ziraldo não só está perfeitamente integrado com os vários campos semióticos que surgiram auxiliando a literatura, como é um artista pictórico. Então ele consegue aproveitar esses caminhos todos seguindo o exemplo de Monteiro Lobato e Walt Disney, essas transcontextualizações, essas transferências do texto para outros contextos de forma sempre de um elevado nível artístico.

    Sábado - A Ruth Rocha afirma que a literatura infantil vem conseguindo se libertar desse ranço pedagógico. Como o senhor observa essa questão?

 

    Dídimo - Realmente a Ruth Rocha, com os livros dela, O reizinho mandão e outros, tem se libertado perfeitamente do ranço pedagógico, que foi imposto sobretudo pelo ranço das leituras obrigatórias nas escolas. Então o que deve predominar com relação à criança na escola é a liberdade e assim mesmo a liberdade que os autores devem ter ao escrever um livro para crianças. E a Ruth Rocha, através de sua obra, representa muito bem esse aspecto. Ela é realmente uma dessas escritoras que segue a linha do Monteiro Lobato.

    Sábado - Uma das críticas que mais são feitas com relação a essa vinculação da literatura infantil com a escola é o problema, por exemplo, das fichas de leitura, que muitas vezes impedem a pluralidade de leituras por parte das crianças a partir de uma obra literária. Como o senhor observa isso? Os professores continuam vacinando as crianças contra o prazer de ler?

 

    Dídimo - (Risos) Tudo depende da atitude do professor em relação a criança. O professor pode até utilizar as fichas de leitura, pode utilizar todos os recursos pedagógicos, mas a atitude dele em relação àquela criança, àquela turma, aí é que está o segredo da pedagogia aliada à criatividade, aliada ao gosto pela literatura infantil: ele tem que abrir caminho para que a criança goste de ler, crie o hábito da leitura sem que seja uma coisa imposta de cima pra baixo. Todo professor tem que seguir a atitude do Monteiro Lobato - a gente mais uma vez tem que citar o nome dele - e acreditar na inteligência da criança, acreditar na criatividade da criança, acreditar que as crianças são seres inteligentes e que merecem um tratamento de pessoa humana. A criança nunca pode perder essa sensação de estar lendo de uma maneira livre.

    Sábado - Como é que é escrever livros para crianças em tempos de internet e de hiper-textos?

 

    Dídimo - Todas essas multimídias, toda essa internet e esses hiper-textos, tudo isso pode vir a ajudar a literatura infantil. Ela não deve ir contra nenhum desses campos semióticos porque a literatura infantil, por natureza, é multidisciplinar, ela é muito ligada à música, ao teatro, às artes plásticas, enfim, todo esse aparato moderno que culmina com a internet pode ser utilizado em benefício da literatura infantil. O computador, usado nas séries iniciais, até no jardim da infância, pode ser utilizado como um meio para despertar na criança o interesse pela leitura, pela literatura, pela poesia, através da divulgação de textos. A criança pode ler poesia no computador, ouvir poesia no computador, pode associar a poesia à música, às dramatizações, aos jograis. Enfim, todos esses meios, por mais avançados que sejam, sempre com discernimento, podem ser utilizados em favor da criança e da literatura. 

Maria Teresa Ayres mariateresa@opovo.com.br
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