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10/03/1998 17/07/2012 - 16h38

Ana Miranda

Ana Miranda, escritora cearense autora de Boca do Inferno e outros seis romances que mesclam ficção e história, fala sobre o trabalho do escritor, da saudade das comidas do Ceará e dos seus novos projetos
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Detalhe da página do Jornal O POVO publicada em 10/03/1998
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Jornal O POVO 10/03/1998

 

Autor: Eleuda de Carvalho

 

Ana Miranda, escritora cearense autora de Boca do Inferno e outros seis romances que mesclam ficção e história, fala sobre o trabalho do escritor, da saudade das comidas do Ceará e dos seus novos projetos - que incluem personagens femininos desenraizados. Ela saiu de Fortaleza com três anos de idade e morou no Rio de Janeiro e Brasília  
A escritora Ana Miranda, nascida em Fortaleza e radicada no Rio de Janeiro, esteve na cidade a convite do Instituto Dragão do Mar de Arte e Indústria Audiovisual. Veio conversar com os alunos do curso de criação de roteiros e, antes, falou com o Vida & Arte. Autora de sete romances, dentre outros o premiado Boca do Inferno - sobre o poeta barroco baiano Gregório de Matos Guerra, e A última quimera, ficção histórica acerca do poeta paraibano Augusto dos Anjos.
"Um convite pra vir ao Ceará é sempre uma tentação, comer tapioca, cirigüela". Avessa ao mercado e privilegiada - vive da sua escritura, e atualmente faz crônicas para a revista Caros Amigos - Ana Miranda conta sobre sua arte, a reedição de todos os seus livros, sobre a infância na Praia de Iracema, o amor aos gatos. E revela um pouquinho do livro que ela não queria escrever.

    Vida & Arte- Como é este reencontro com o Ceará? Você tem laços afetivos com a cidade?

 

    Ana Miranda- Clarice Lispector dizia que gostava das comidas de Pernambuco. E eu gosto das comidas do Ceará. Gosto de tapioca. Minha mãe fazia tapioca com manteiga pra gente, tenho essas raízes profundas. E está acontecendo uma coisa muito engraçada na minha literatura. É que, cada vez mais, estou escrevendo sobre personagens mulheres que foram arrancadas de sua terra, das suas raízes, e foram levadas para outro lugar. E isto certamente tem a ver com minha saída daqui. Eu morava na Praia de Iracema, numa casa com quintal. Nasci na Praia de Iracema e fui pro Rio de Janeiro. A gente morava num apartamento, num lugar diferente, as pessoas falavam com um sotaque estranho, e estranhavam nosso sotaque também. Um choque cultural, a chegada no Rio. E certamente isso me marcou. Achava que não, mas agora, escrevendo, essas coisas estão aflorando. Depois fui pra Brasília e foi um reencontro com a felicidade.

    V&A- Mesmo sem o mar?

 

    Ana Miranda- Mesmo sem o mar, é. Mas eu tinha uma nostalgia do mar, em Brasília. Eu tenho uma relação muito estranha com o mar, porque ao mesmo tempo que tenho muito fascínio eu tenho um medo terrível. E deve ser alguma coisa de infância, da Praia de Iracema - o mar era muito bravo, não sei se ainda é. Me lembro que eles colocaram um paredão imenso, talvez não fosse tão grande assim, mas na visão de criança era gigantesco, um paredão de pedras pretas. Eu me lembro do mar batendo, aquelas espumas quebrando, o cheiro.

    V&A- Você disse que agora está perseguindo essas mulheres arrancadas de suas raízes. Como se deu esta angulação de gênero na sua escritura?

 

    Ana Miranda- Quando comecei tinha uma obra quase aberta. Eu escrevo pra aprender, e acho que por isso trabalho com a história, com o outro e não comigo mesma. Não sou uma pessoa confessionária, sou voltada pra fora, gosto de descobrir o mundo. A partir daí, fiz esse primeiro livro (Boca do Inferno), mas já com um lado muito forte de paixão pela palavra. Fiz uma pesquisa quase arqueológica, de palavras, expressões. Sempre quis fazer um trabalho, mesmo no primeiro livro, do ponto de vista de uma mulher. E eu tentei. Mas no caso do romance histórico, você narrar na primeira pessoa é um pouco redutivo, porque só pode mostrar a visão dessa pessoa e não pode estar em todos os lugares. E a quantidade de informações que eu tinha, que queria aproveitar, quase tudo ia ficando de fora. O livro obriga a gente a fazer algumas coisas que a gente não quer fazer.

    V&A- Fale um pouco dessas mulheres que estão surgindo nos seus romances.

 

    Ana Miranda- São várias. A primeira é a órfã Oribela, uma portuguesa trazida pro Brasil. Depois uma dançarina libanesa. O que estou escrevendo agora é uma escrava negra, que sai em busca da filha, e aí é outro tipo de linguagem. Tenho o projeto de fazer uma índia, que é levada pra Europa, que é um pouco a história da Paraguaçu. Enfim, tenho vários projetos assim de mulheres e de linguagem, e estou tentando fazer isso. Mas, de repente, surge um livro dentro de mim, que é o que aconteceu agora. Surgiu um livro e estou numa terrível guerra, desesperada tentando me livrar dele, e ele me domina. Começo a escrever o livro que quero e, quando vejo, esse impertinente aparece.

    V&A- Que livro é esse?

 

    Ana Miranda- Não vou falar, não, porque não sei se vou fazer. Mas é uma coisa completamente diferente, não gostaria de jeito nenhum de publicar, nem de fazer, nem de escrever, mas ele existe dentro de mim.

    V&A- Vejo que a capa de Amrik, seu livro mais recente, é um desenho seu.

 

    Ana Miranda- Uma vez conheci uma alemã no aeroporto, sentou, começou a conversar comigo, uma costureira de Dresden. Ela tirou da bolsa um cartão assim, olhava pra mim com um rosto muito enigmático. E começou a fazer um bordado naquele cartão, muito esquisito. Não tinha forma nenhuma, sabe? Era um ponto aqui, depois vinha, dava um ponto aqui, depois outro ali. De repente ela terminou, aquela coisa meio confusa. Quando ela virou, do outro lado tinha uma rosa-dos-ventos, linda! Ela sabia essa técnica de bordar pelo avesso. As coisas, parece que são soltas, mas estão todas se costurando por baixo. O meu desenho, que era uma coisa que estava abandonada, esquecida, está voltando. Até por mérito do meu editor (Luiz Schwarcz, da Cia. das Letras). As minhas capas eram muito impessoais, e ele olhou aquele desenho e disse: "Poxa, dava uma capa muito bonita". A primeira capa com desenho meu foi a do Desmundo, aquele bichinho comendo o próprio rabo, um gato de asas, coisas assim, meio loucas.

    V&A- Seu último artigo na revista Caros Amigos traça uma trajetória de sua vida e da sua biblioteca, tendo um gato sempre presente, pelos telhados. E no começo você falou de Clarice, que amava os felinos...

 

    Ana Miranda- A Lygia Fagundes Telles também é louca por gatos. Eu tenho paixão por gato, adoro, sempre tive, a vida inteira. Foram casamentos que eu tive, importantíssimos. A presença do gato na minha vida é muito importante. Até fico pensando - por quê? Ele tem uma presença mágica. A doutora Nilse da Silveira diz que quem gosta do gato, gosta da alma feminina, ele é um símbolo da alma feminina, a maneira da mulher se mover no mundo, mais sinuosa. E também o gato tem uma beleza plástica que é insuperável na natureza. Nem o ser humano, nem a mais bela de todas as mulheres é tão bela quanto um gato se movendo. São lindos, os felinos! A pele é muito bonita, os olhos são lindos, o pulo que ele dá.

    V&A- Quando você acha que o livro está terminado?

 

    Ana Miranda- Nunca. Quando não o suporto mais, aí eu entrego. Mas fico desesperada, porque o romance, por suas próprias características, é um gênero imperfeito, como é a vida. Esse tipo de estruturação com que estou fazendo os meus romances, como se fossem pequenos contos, talvez seja uma tentativa de aperfeiçoar, porque fica mais fácil trabalhar texto por texto, ele é fragmentado, embora tenha toda uma unidade. Quando estou começando um livro é maravilhoso, primeiro porque você tem liberdade ainda, depois começa a se deparar com as situações daquilo que você criou e não dá pra escapar. E você se torna um escravo daquilo que inventou.

    V&A- O livro novo, o que é?

 

    Ana Miranda- Esta história partiu de um processo que existe, no Rio de Janeiro, de uma negra, uma escrava africana, Maria do Bonfim, que foi separada da filha quando ela era pequena, e nunca mais a viu. Depois ela consegue a alforria e dedica a vida a procurar esta filha. O nome dessa filha é Felicidade. Estou escrevendo, trabalhando bastante nisso. Mas de vez em quando me dá uma febre e vem o outro livro, aí escrevo pouco, pronto.

    V&A- Sobre o tal livro impertinente, que pulsa dentro de você...

 

    Ana Miranda- Não vou falar...

    V&A- Uma palavrinha só.

 

    Ana Miranda- É uma coisa em cima de lembranças minhas. É uma coisa pessoal, não tem nada de interesse lingüístico, histórico. É isto: pessoal. Essa é a palavra mágica.

Maria Teresa Ayres mariateresa@opovo.com.br
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