Social 02/01/2016 - 12h20

Desbravador do Cariri

Empreendedor nato, Francisco Assis Mangueira está à frente da Sabão Juá, uma das maiores empresas de produtos de limpeza do Estado
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Larissa Viegas larissaviega@opovo.com.br
Foto: Mateus Monteiro

Passar em um concurso público, ter estabilidade financeira e garantias para, praticamente, o resto da vida. Este parece o sonho de muita gente. Mas, indo “contra a maré”, o empresário Francisco Assis Saraiva Mangueira largou a segurança para se arriscar em algo novo: o empreendedorismo.

Iniciando sua carreira como professor, Mangueira foi, em seguida, trabalhar no Banco do Brasil. Inquieto, percebeu que não era o que queria fazer para o resto da vida. Então, em 1989, aproveitando uma crise financeira do País, buscou uma atividade que lhe rendesse um complemento. A ideia das empresas de sabão surgiu após uma análise da cesta básica. “Procurei no mercado um produto que, dentro das cestas básicas, girasse e tivesse muita frequência nas feiras das pessoas. E eu vi que sabão era um produto que girava bastante”, explica.

Assim, partiu em busca de fábricas na região para entender como era a produção. A retomada do contato com um colega da escola lhe rendeu uma proposta: comprar a sua pequena fábrica de sabão em barra, no município de Aurora. Literalmente, pagou para ver. Sem receber nenhuma instrução (administrativa ou técnica), deu origem à fábrica Sabão Nova Aurora.

Em conversa exclusiva com a revista O POVO Cariri, o empresário, natural de Aurora e também proprietário da fábrica Sabão Juá, em Juazeiro do Norte, fala sobre seu crescimento profissional, família, desafios de empreender no Brasil e vantagens de investir no interior.

Quando o senhor se desligou totalmente do Banco do Brasil?
Em 1994. A situação já estava tomando uma dimensão que eu não podia nem desenvolver a fábrica nem ser um bom funcionário. Então eu pedi licença do banco por um bom tempo e até que no final de 1994, eles me liberaram. E em junho de 1995 teve um sistema de demissão voluntária que o banco incentivava a pessoa a sair e eu aproveitei para tocar a fábrica.

E como foi a reação da família quando o senhor decidiu largar um emprego público?
Foi difícil. Era um salário razoável. Todo mundo da época vivia bem com aquele salário. Era o equivalente hoje a 20 salários mínimos. Então era um salário invejável para muita gente. Eu fiquei insistindo com o gerente, até que ele decidiu me liberar. E eu fiquei sentado, sonhando: meus Deus, como vai ser o ‘lá fora’ agora sem esse trabalho? Mas eu tive que enfrentar. Foi uma decisão difícil, mas eu enfrentei. Quando foi em 1995, nós fizemos um financiamento no Banco do Nordeste para ampliar a fábrica e em 1997para 1998 eu me desorganizei financeiramente. Não é que o produto não vendesse, eu simplesmente me desorganizei e passei por uma dificuldade financeira muita grande. Mas o produto tinha uma boa qualidade e a gente insistiu.
Um amigo que fez um curso do Empretec, do Sebrae, me falava maravilhas desse curso. Aí vi que precisava disso. Fiz o curso e ele foi a luz que estava precisando para tocar o meu negócio. Aí nesse período surgiu uma fábrica para vender aqui em Juazeiro, porque eu precisava trazer a família para uma cidade maior. Ipaumirim era uma cidade pequena, não tinha onde colocar os filhos para estudar.

O senhor morava em Ipaumirim?
Sim, fui bancário em Ipaumirim e nesse período surgiu essa fábrica e eu demonstrei interesse. A pessoa já me conhecia e nós passamos quase um ano em negociação. Eu me preparando tanto financeiramente quanto arquitetando tudo que eu queria fazer para comprar. Aí comprei a fábrica no final de 1998. Ele financiou para mim, deu um período de carência, porque eu não tinha condições financeiras. Mas eu sabia que aquele produto, se eu fizesse bem, ele iria vender bem na região. Então eu vim para Juazeiro do Norte em 1998, e a fábrica continuava em Ipaumirim, com o nome de Nova Aurora. Em 2002, eu comprei um prédio novo, comprei novos equipamentos e [tudo] foi evoluindo. Em 2007, eu comecei a construção dessa nova estrutura que a gente tem hoje e que está andando, felizmente.


Como o senhor teve o know-how? Já sabia fazer sabão?
O cara tem um time de futebol e não sabe jogar, mas procura saber quem sabe jogar. Foi o que eu fiz, procurei quem soubesse fazer, pessoas boas. Nesse tempo todinho, as pessoas que estão do meu lado são pessoas que, graças a Deus, eu posso contar. Nunca tive problemas com funcionários. Muitos deles estão comigo desde que eu comecei, há 25 anos. Tem outros com 15 anos, mas que desde que chegaram nunca saíram.

A Sabão Juá é uma empresa familiar?
Sim, trabalham duas filhas e a esposa é sócia. Ela trabalhou aqui por muito tempo, hoje cuida da casa, netos, mas no início, por um bom tempo, deu uma ajuda boa. Botou a mão na massa mesmo, trabalhou bastante.

Para quem o Sabão Aurora é vendido?
Vendemos para regiões do Ceará e parte de Pernambuco. Ele não conseguiu evoluir mais, devido ser um produto artesanal. Hoje, nos países mais desenvolvidos, o sabão em barra tem pouca utilização. Tem o detergente líquido, o sabão líquido. O sabão em barra é muito tradicional. Não acredito que vai ser extinto, mas ele não conseguiu evoluir.

Já o Sabão Juá nasceu com o sabão em barra e foi evoluindo para outros produtos.
Foi. Nossa ideia inicial era fazer o sabão em barra, que na época ainda tinha um consumo crescente. Tínhamos um conhecimento e domínio, lançamos o sabão em barra de vários tamanhos, essências e cores. Só que em 2007 veio a ideia de evoluirmos para ter um mix maior, que o próprio mercado exigia. Temos hoje, além do sabão em barra, detergente, detergente lava-louça, sabão em pó, alvejante líquido, amaciante, desinfetante, água sanitária... São nove produtos, em 32 tamanhos.

Quais estados são abastecidos?
Atendemos Ceará, parte de Pernambuco, Bahia, Piauí e Rio Grande do Norte. Nosso objetivo é, até 2018, estar bem presente em toda a região Nordeste. O maior mercado ainda é o do Ceará, com uma faixa de 70%, presente principalmente nas regiões sul e centro-sul do Estado.

Qual é o cenário atual que o Sabão Juá está inserido?
Somos a maior empresa do setor de produtos de limpeza. Mas tem grandes empresas no Nordeste. Não temos o maior volume de vendas, porque tem grandes empresas que são mais tradicionais, mais antigas, com um poder de oferta maior. Estamos buscando o nosso espaço.

Quais os principais desafios de ser empreendedor no Brasil?
Carga tributária e qualificação de pessoal. Você compra equipamentos e tem que estar treinando. O pessoal não tem o conhecimento técnico. Quando você tem o conhecimento técnico, para ir para prática é bem mais fácil.

Quais são as vantagens de empreender no interior, começar por aqui?
Tem a desvantagem de tudo que você depende de compra ser na capital, mas é mais fácil você conseguir abrir o mercado pulverizando em cidades do interior para depois chegar na capital. Até para você adquirir experiência, conhecimento. Hoje eu diria que seria melhor abrir próximo da capital, porque é onde tem grande massa do consumo, está perto dos grandes centros.

E o senhor pretende ampliar para outros segmentos, além de limpeza?
Nós pretendemos ir para a linha institucional. Estamos ampliando a fábrica para ter uma condição melhor de produtividade, sermos mais competitivos, mas pretendemos, em breve, ter um produto institucional para atender hospitais, grandes empresas, hotéis, escolas.


Quantas pessoas trabalham na empresa?
Na fábrica onde tudo iniciou [Nova Aurora], temos 26 e aqui [Juazeiro com o Sabão Juá], 134 funcionários. E temos os indiretos, os terceirizados, indo para a faixa de 180.

Qual é a produção atual?
Produzimos aproximadamente 1,2 milhão de toneladas por mês.

Como está o crescimento da empresa?
Temos evoluído bastante, mesmo com a competitividade do mercado. Em 2014, tivemos um crescimento de 31%. Em faturamento, foram 36%, um crescimento razoável para uma empresa no Nordeste que disputa espaço com as grandes empresas. Evoluímos ao custo de muita luta, com colaboradores bacanas, que dão o sangue pela empresa.

Existe crise no segmento?
Demais. É uma coisa natural, a crise atinge todas as camadas e todos. Uns mais e outros menos. Tem uns produtos que são mais supérfluos, você só vai comprar um carro importado estando com grana, perspectivas. Mas produtos de limpeza são iguais a energia, você vai economizar, mas você é obrigado a ter. Você vai pesquisar, buscar preço. A dona de casa está esperta nisso, procura comprar o que tem melhor qualidade com menor custo. Cada um quer seu espaço. Não é fácil, mas temos conseguido. Temos um produto de qualidade, que é o mais importante. Se não tiver qualidade, você não vai para lugar algum. Quando eu estava começando, tinha um cliente do banco que era atacadista, bem conhecido. Na época que eu fiz o meu primeiro produto, eu levei para ele. Quando foi com dois dias ou três, nos encontramos. Ele baixou o vidro do carro e disse: ‘seu produto não vale nada, parece que ele foi feito de água do mar’. E eu fiquei: ‘meu pai do céu, estou ferrado’. Parei tudo, fui procurar matérias-primas boas e pessoas que soubessem fazer o produto direitinho. Só depois fui procurar ele. Muita gente pode tomar isso como uma ofensa, mas para mim foi a melhor noticia que alguém poderia me dar, porque se eu não tivesse melhorado a qualidade, talvez ainda fosse bancário, aposentado.

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