Biografias 10/12/2013

Sou a favor da liberdade de expressão

O premiado escritor norte-americano Laurence Bergreen esteve em Fortaleza, em novembro, participando do Festival Internacional de Biografias
{'grupo': ' ', 'id_autor': 16415, 'email': 'elisa@opovo.com.br', 'nome': 'Elisa Parente'}
Elisa Parente elisa@opovo.com.br
TATIANA FORTES
Bergreen: casado com uma cearense, o renomado escritor americano visita com frequência Fortaleza
Compartilhar


Só este ano, o escritor e jornalista norte-americano Laurence Bergreen, 63, esteve em Fortaleza quatro vezes. Autor de biografias de grandes exploradores como Cristóvão Colombo e Fernão de Magalhães, do músico Louis Armstrong e do gangster Al Capone, Laurence pode ainda ser considerado um entusiasta da ciência e exímio cronista de exploração.


A relação com Fortaleza começou há cerca de quatro anos, quando Laurence conheceu, durante um jantar em Nova York, a empresária cearense Jacqueline Philomeno. No Ceará, o biógrafo planeja ter casa e tempo para poder desfrutar a companhia dos amigos já feitos aqui.


Certa vez, quando participava de uma conferência, conheceu um cientista da Nasa, do qual se tornou amigo e recebeu o convite para conhecer as instalações da agência estadunidense de pesquisa espacial. Neste primeiro contato, foi também convidado a escrever sobre as viagens da organização a Marte e, de quebra, identificar e nomear riquezas naturais do planeta vermelho, como montanhas, lagoas e cachoeiras. O estúdio TNT já adquiriu os direitos legais para adaptar o trabalho para o cinema.


Graduado na Universidade de Harvard em 1972, Laurence já teve seus escritos traduzidos para 25 idiomas. No Brasil, é editado pela Objetiva, que já publicou em português três de seus livros: Marco Polo - de Veneza a Xanadu (2009), Além do Fim do Mundo (2004) e Viagem a Marte - a busca da NASA por Vida Fora da Terra (2002). O quarto, intitulado Columbus: The Four Voyages (Colombo: As Quatro Viagens, em tradução livre) que narra o desvio inesperado de rota do navegador genovês em direção à América, deve ser lançado no Brasil em janeiro.


Em novembro, Laurence esteve em Fortaleza para visitar a família e acabou sendo incluído na programação do I Festival Internacional de Biografias no último minuto. Em visita à redação do O POVO, Laurence concedeu entrevista ao Vida&Arte. Acompanhe. (colaborou Alan Santiago)


O POVO - O senhor vem bastante a Fortaleza, tem três livros lançados no Brasil. O que o faz sempre voltar?

Laurence Bergreen - O que me traz a Fortaleza é a possibilidade de estar mais próximo de Jacqueline, minha esposa. Só O meu último livro, sobre Cristóvão Colombo, seria lançado agora, mas acabei de saber pela editora que foi adiado para o ano que vem. Ele já foi traduzido para o português, mas a edição em português brasileiro sairá no final de janeiro. O primeiro livro que lancei no Brasil chama-se Viagem a Marte (352 páginas, Objetiva, 2002), que é talvez, hoje, o meu livro mais conhecido.

OP - É verdade que, com este livro, a Nasa pediu que o senhor nomeasse alguns lugares em Marte?

Laurence - Sabe aqueles Mars Rovers (veículos automotivos que mapeiam a superfície do planeta coletando dados e imagens)? Eles estavam nomeando esses equipamentos com nomes bobos de personagens de desenho animado, mas alguém na Nasa me pediu que os desse um significado histórico. E porque eu tinha escrito sobre a viagem de exploração de Fernão de Magalhães (Além do Fim do Mundo, Objetiva, 2003), eles me pediram para titular cerca de 15 ou 20 pontos no planeta, que tirei a partir da viagem de Magalhães. Nunca imaginei que um dia faria isso. E foi um trabalho que levou muita reflexão, porque precisava me atentar à característica geológica de cada local, fosse uma montanha, as antigas cachoeiras - porque existia água em Marte - , os antigos lagos, que hoje estão secos. E é curioso porque Marte, hoje, é como uma folha seca deixada pelo tempo.

OP - Como foi o processo de escrita da biografia sobre do músico Louis Armstrong, que também era escritor?

Laurence - Louis Armstrong era muito engraçado e extremamente encantador. Dizia que seu segundo instrumento favorito era a máquina de escrever. Quando ventilei a possibilidade de escrever este livro, meu editor disse que tinha uma boa e uma má notícia: a boa era que havia muito material escrito pelo próprio Armstrong; a ruim, é que ele era um excelente escritor e parecia que eu teria muito pouco a acrescentar à biografia dele. Passei muito tempo para mesclar a minha fala com a de Armstrong, para que o resultado ficasse harmonioso, como é a música dele.

 

OP - O senhor gosta de trabalhar com personagens de diferentes características. Como chega a estes nomes?

Laurence - Eu tenho uma lista de 80 ideias de personagens. Alguns nomes ficam na lista por seis meses, outros por dez anos. E a sensação é de que existe o tempo certo para cada. Com Marco Polo, por exemplo, na frente do meu escritório tinha uma pizzaria chamada Marco Polo Pizza (risos). Então a inspiração pode vir de qualquer lugar.

OP - O senhor enxerga uma característica comum a todos os seus personagens?

Laurence - Todos os livros são bem diferentes, mas Louis Armstrong, Cristóvão Colombo, Fernão de Magalhães são todos exploradores e ultrapassaram o limite do que conhecemos. São também grandes viajantes. Quando estava escrevendo o livro sobre Marte, cientistas da Nasa me disseram que, quando decidiram desenhar suas viagens espaciais, a inspiração veio da época do descobrimento, de Magalhães e Colombo, de Frances Drake e outros exploradores. Magalhães, inclusive, é o nome de uma das naves da Nasa. E isso me inspirou de forma que convidei meu filho Nicholas, que veleja como competidor, para que refizéssemos a rota de Magalhães. Finalmente, eu colocaria dois interesses juntos: eventos históricos e velejar - algo fascinante, quase místico.

OP - Quanto tempo o senhor leva da pesquisa até a publicação?

Laurence - Quatro ou cinco anos. Demorei seis anos com (o compositor e letrista americano) Irving Berlin, por exemplo. Mas os escritores são sempre diferentes.

OP - Quando é o momento de parar a pesquisa e escrever?

Laurence - Em dois momentos: primeiro quando você tem um contrato com deadline (risos) e segundo quando você começar a encontrar as mesmas informações. Com Marco Polo, em especial, eu poderia ter demorado três ou quatro anos a mais, facilmente. Mas a questão é: as pessoas gostariam de ler um livro de 700 páginas sobre Marco Polo?

OP - No Brasil, estamos enfrentando uma polêmica em torno das biografias. Alguns concordam com a lei que afirma que a publicação de biografias deve estar subordinada à autorização prévia do biografado. Como é nos Estados Unidos?

Laurence - Na Inglaterra, é bem restrito. Mas, nos Estados Unidos, você pode escrever qualquer coisa sobre qualquer pessoa, desde que seja verdade e você possa provar isso. Mas há algumas exceções. Digamos que eu queira escrever a biografia de uma pessoa. Ela não pode me barrar mesmo que eu diga algo desagradável, severo. Entretanto, se eu quiser citar cartas escritas por esta pessoa, serei pego na lei, uma vez que há o conceito de “uso justo”, que eu posso citar “só um pouco”. Mas a questão é: o que é “só um pouco”? Sempre que vai a juízo a definição muda. Você precisa de permissão para citar publicações ou letras de música. Irving Berlin, por exemplo, me deu permissão para citar suas músicas, mas depois voltou atrás. Por isso, neste caso no Brasil, sou a favor da liberdade de expressão dos biógrafos.

OP - Atualmente, o senhor está trabalhando em alguma obra?

Laurence - Estou escrevendo três livros ao mesmo tempo. O principal é uma biografia sobre (o escritor italiano) Giacomo Casanova, o aventureiro do século 18. Este livro deve ter um tom mais leve, mas ao mesmo tempo uma história sobre o século 18 e o Iluminismo. Casanova era amigo de Voltaire (filósofo francês), (o jornalista estadunidense) Benjamin Franklin, (a imperatriz russa) Catarina A Grande. E sua história é encantadora.

> TAGS: bergreen laurence
Compartilhar
espaço do leitor
Nenhum comentário ainda, seja o primeiro a comentar esta notícia.
0
Comentários
300
As informações são de responsabilidade do autor:
  • Em Breve

    Ofertas incríveis para você

    Aguarde

ACOMPANHE O POVO NAS REDES SOCIAIS

O POVO Entretenimento | Vida & Arte