Dança 30/05/2013

Sagração centenária: os 100 de Sagração da Primavera, de Stravinski

Achincalhado na estreia, espetáculo do russo Igor Stravinski completa 100 anos como marco inaugural da música e da dança modernas
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O burburinho começou logo nos primeiros acordes do fagote. A plateia estranhou o instrumento pouco íntimo do repertório clássico – e amplamente desconhecido da elite parisiense que compareceu, naquele dia 29 de maio de 1913, ao recém-inaugurado Théâtre des Champs Elysées. A coreografia só aprofundou o desconforto que a música havia muito bem instaurado: a história de uma virgem sacrificada em favor do deus da primavera após o embate entre tribos rivais.


Em pouco tempo, a première de A Sagração da Primavera, com coreografia de Vaslav Nijinski (1890-1950) e composição de Igor Stravinski (1882-1971), se tornou um caos com apupos de toda ordem, brigas na plateia dividida entre os pouquíssimos apoiadores e a maioria de detratores e possível intervenção policial, que pode nunca ter acontecido.


As versões são muitas. A música quase não era ouvida. Os bailarinos tiveram de ser coordenados por Nijinski que contava a marcação atabalhoadamente da coxia. Stravinski correu da plateia para os bastidores fugindo das vaias. Mesmo assim, conta-se que, ao fim da apresentação, seguiram ao parque Bois de Boulogne para celebrar o nascimento do trabalho.


Como preferiu destacar o bailarino italiano Enrico Cecchetti, tudo foi realizado por “quatro idiotas”: Stravinski, que escreveu a música; Nicholas Roerich, que desenhou os cenários e confeccionou os figurinos; Nijinski, que erigiu as coreografias; e, por fim, o empresário Serguei Diaghilev, que injetou dinheiro no espetáculo. Nos dias seguintes, a imprensa explodiu em críticas. O Le Figaro qualificou de “barbárie”. Há 100 anos, estreava não apenas um espetáculo controverso à época, mas a primavera da dança e da música modernas do século XX.


Pela primeira vez, uma música colocava a percussão acima da melodia. Ademais, Stravinski rompeu com a composição clássica, harmônica, deixando ao público a dissonância ou, em outras palavras, uma profunda sensação de instabilidade. “Só existe um tema do folclore russo na abertura com o fagote. O resto é composição livre”, afirma o coreógrafo da companhia Ballet de Londrina, que remontou A Sagração e faz turnê pelo Brasil para celebrar o centenário da peça. Eles estiveram em Fortaleza no mês passado.


Por sua vez, a coreografia era um total descalabro a plateias acostumadas com o balé clássico. Nada da leveza quase etérea performada no palco – com sapatilhas de ponta e todo um código estético claro. Ao contrário, ao ritmo sinuoso da música, os bailarinos batiam os pés no chão, contorciam-se em espasmos. Segundo a bailarina Ane Adade, da companhia Balé Teatro Guaíra (BTG), por ser baseado no folclore russo, a peça tem carga ritualística forte. “Os acentos dos movimentos são muitas vezes no chão, com peso”, explica ela que interpretou a Eleita, a virgem sacrificada. O BTG também reverencia o século de A Sagração este ano com montagem própria.


O músico maturava a composição desde pelo menos 1910. “A ideia de Le Sacre du Printemps me veio enquanto ainda estava compondo O Pássaro de Fogo. Sonhei com uma cena de paganismo ritual na qual uma virgem escolhida para sacrifício dança até a morte. Essa visão não veio acompanhada de ideias musicais concretas”, conta ele numa de suas várias explicações sobre o momento de inspiração. Ao longo dos anos, em razão dos contextos, as versões se alterariam.


O fato é que aos poucos A Sagração se ramificou: a alemã Pina Bausch, o francês Maurice Béjart, a norte-americana Martha Graham ressignificaram as reflexões que a peça propõe. No centro, estão a temática do feminino, do sacrifício, da purificação tão comuns na época quanto parecem ser urgentes agora em pleno século XXI. “Hoje em dia, quase qualquer pessoa pode se tornar uma vítima e os contextos sociais do sacrifício são infinitos – família, trabalho, igreja, política, guerras, etc. – e, mesmo assim, já não existem certezas acerca da absolvição”, escreve Nadja Kadel sobre A Sagração que teve a remontagem de Cayetano Soto em Portugal em 2010.


Apesar de curta, são cerca de 33 minutos de música, a apresentação parece ter durado bem mais tempo naquele dia. Em verdade, como um marco da vanguarda, dura até hoje.

 

Visões da primavera


Igor Stravinsky

http://bit.ly/RosRYD

No vídeo, a música integral do espetáculo Le Sacre du Printemps que dura cerca de 33 minutos.

 

Nijinsky por Hodson

http://bit.ly/gQeMw

Reprodução da coreografia original de Nijinsky, reconstituída por Millicent Hodson em 1987.

 

Ballet de Londrina

http://bit.ly/11yfcHC

Ballet de Londrina faz releitura de A Sagração da Primavera. No vídeo, os momentos finais.

Pina Bausch

http://bit.ly/HnGOEp

Parte introdutória do balé na versão da alemã Pina Bausch, que produziu em 1975 montagem renomada.


Maurice Béjart

http://bit.ly/16oQU5X

Coreografia do francês Maurice Béjart, gravada em 1970, que traz bailarinos despidos de adereços.


Olga Roriz

http://bit.ly/13j0bGT

A coreógrafa Olga Roriz trabalha numa perspectiva da mulher que se dispõe ao sacrifício.

 

Alan Santiago alan@opovo.com.br
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espaço do leitor
Maclima 02/06/2013 11:47
MST SELECIONA MÉDICOS QUE VIRÃO DE CUBA PARA O PAÍS. http://goo.gl/1U6db
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Maclima 01/06/2013 16:22
NOVO CUECAGATE | PRESO MAIS UM LEVANDO DINHEIRO NA CUECA http://goo.gl/gKa9J
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