ARTIGO 19/04/2013

Lygia cheia de graça

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Grazielle Albuquerque

ESPECIAL PARA O POVO


Costumamos nos fascinar pela ideia de que os escritores que amamos têm uma vida instigante, com aventuras homéricas ou segredos nas entrelinhas. Por vezes nos agarramos tanto a esses personagens, nos quais os próprios escritores se tornam, que criamos para eles uma vida paralela. No caso de Lygia Fagundes Telles, o mais impactante é que, por trás da sua obra cheia de mistérios, está uma mulher cuja trajetória é marcada pela lucidez cotidiana. Distante de arroubos midiáticos, Lygia chega à velhice com a beleza e a elegância de sempre, assumindo as rugas, um olhar bem humorado diante da vida e a coragem de dizer que ainda está procurando “se desembrulhar”, como faz com seus personagens.


Foi essa clareza de pensamento que sempre me impressionou em Lygia. Sobretudo, porque suas palavras certeiras sempre vieram acompanhadas de leveza e graça rotineiras, de quem não espera o sobrenatural para ser feliz. Ao falar sobre seus contos, ela relata experiências banais que serviram de mote à criação. A clássica história da estrutura da bolha de sabão nasceu da inquietação de Lygia ao saber que um amigo físico de seu segundo marido, o cineasta Paulo Emílio Salles Gomes, estudava a tal estrutura. Como alguém poderia pesquisar algo tão idílico? Com aquilo na cabeça, ela relata o dia em que começou a escrever e confidenciou ao seu gato que ronronava em cima da mesa: “Não conte a ninguém, mas descobri, a bolha de sabão é amor”.


O conto “Helga” também nasceu da imaginação de Lygia diante de uma notícia no jornal, sobre um teuto-brasileiro que havia roubado a perna mecânica da esposa em plena noite de núpcias. Mais uma vez, foi Paulo Emílio que contou a história a Lygia. Ela perguntava: “Foi a perna esquerda ou a direta?” Ele respondia: “Não sei, vai escrever para descobrir, Kuko”. Aliás, este era o apelido com que Paulo a chamava, em referência ao relógio cuco de sua avó que sempre travava na portinha quando deveria anunciar a hora. A dificuldade de Lygia em cumprir os horários acabou lhe rendendo o apelido.


Estas são algumas das muitas histórias que poderiam ser tidas como pueris mas explicam o ânimo de Lygia diante da vida. Clarice Lispector costumava alertá-la para não sorrir muito porque os homens não levavam a sério as mulheres que sorriam. Não houve jeito, até hoje ela continua sorrindo. É curiosa a história de que Hilda Hilst, de quem foi grande amiga, certo dia lhe ligou tarde da noite para dizer: “Lyginha, a alma é imortal, nós todos somos imortais”. Segundo Lygia, normalmente seria Hilda a lhe pedir para falar algo cintilante, mas naquela noite foi ela quem não conseguiu dormir com a dose de esperança recebida.


É por esses e outros relatos que, em minha prateleira de afetos, Lygia está ao lado de Ariano Suassuna e Fernando Sabino, dois outros cuja graça sempre me tocaram. Para além da obra, a escritora se destaca por ter no bom humor, muitas vezes convertido em uma fina ironia, uma arma para enfrentar a vida e não se acomodar.


Grazielle Albuquerque é jornalista

 

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