ARTIGO 31/03/2013

Trilha Sonora

O COMPOSITOR e escritor Eugênio Leandro passeia por 35 anos de música em Fortaleza. Fala de sua trajetória e dá conta de diferentes momentos da cidade
FOTOS ANDRÉ SALGADO/ARTE: GUABIRAS
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Passo a atuar a partir de 1978, quando chego de Limoeiro. Encontrei uma Fortaleza luminosa, em plena efervescência do movimento estudantil, sindicatos, grupos como Nação Cariri, Siriará, Grito, o Pessoal do Ceará já pelo Brasil, a Massafeira a acontecer, a Concha Acústica da UFC, a chegada da Universitária FM, visitantes como Darcy Ribeiro, Prestes, Lula...

 

Fiquei mais na Literatura, até participar do Festival Universitário da Canção, em 1979, em parceria com o poeta e jornalista Rogaciano Leite Filho. Acabamos em 4º lugar e senti firmeza de buscar espaço, pois estava a conviver com os principais da hora, como Cláudio Costa, Lúcia Arruda, Luis Sérgio, Cassundé, Stélio Vale, Casaverde, Caio e Graco... Dos bares para os atos públicos, fazíamos a nossa jornada, a abrir brecha com os amigos Dilson Pinheiro, Parahyba, Carne Seca, Amaro Pena, Pingo, Ronaldo Lopes e tantos mais. Sequer pensávamos em disco, e estar junto à geração anterior, do Calé, Chico Pio, os Fonteles, já era bom passo.


Percebíamos que o mote era conseguir gravadora e não se falava em independente. Exceções foram o compacto do Bernardo Neto, de 1978; os LPs do Quinteto Agreste; o Nordestinados, do César Barreto e Marcos Accioly, lançado pela UFPE, além da repercussão do Feito em Casa, de Antonio Adolfo, no Rio, que indicavam existir vida musical fora do esquema das gravadoras. E partimos para gravar em Natal, eu e Dilson Pinheiro, o compacto, logo esgotado. Encorajado, levei ao movimento estudantil a ideia do LP Além das Frentes, quando falaram do Encontro Nacional de Estudantes de Medicina, que seria em Fortaleza, 1986. Em seu Centro Acadêmico, gestão de Odorico Monteiro, que conhecia nossa música. Encampado o projeto, possibilitou expressiva tiragem inicial, com metade distribuída aos estudantes do encontro. No Catavento, de 1990, deu-se o mesmo, desta vez com o C.A. da Agronomia, Camilo Santana na presidência. A Cor Mais Bonita, de 1996, já em CD, em outro cenário, sem substancial apoio, quase fica pelas areias do Jaguaribe, até surgir a Hidracor.


Enquanto isso, achegava-se nova gente como Kátia Freitas, Edmar Gonçalves, Apá Silvino, Marcos Brito, Isaac Cândido, Davi Duarte, Paulo Façanha e tantos muitos, que fortificam o movimento, sempre a partir do coletivo, como vemos novamente, pelos anos 2000, nos ajuntamentos do Música Plural, Feira da Música, Bora Ceará Autoral, pessoal do instrumental, e tantos grupos que garantem a criatividade.


Em 1999, chega a fábrica de discos CD+, numa articulação do Flávio Paiva e da Mona Gadêlha, com o músico e empresário Cláudio Lucci, e a gente pode fazer o CD em casa. No início dos anos 2000 a net chega de vez e a música virtual vira festa. Reduz-se a produção de discos, fecham-se alguns espaços como The Wall, Caros Amigos, Domínio Público, Seis e Meia do TJA, o que deixa os músicos de sobreaviso, com menos visitas de shows, inclusive dos caririenses – preocupante, já que eles, com net ou sem editais, nunca param. Nessas horas, como bons cearenses, impera com maior força o clima gregário, do coletivo, combustível para a criação, que encoraja a novas investidas, o que se viu com música na rua, muitos grupos percussivos, outros no bar ou em casa, como Clube do Gato, Clube do Bode, quintal do Sardinha, agora, Cantinho do Frango, Confraria... Nessa fase, temos ainda boa resposta do público ao louvável instrumental. Segurou a onda, com choro, blues e jazz bem misturados às nossas coisas; digno do mundo. Ganhos idem para a música de orquestra, na reformulação da ORCEC (Orquestra de Câmara Eleazar de Carvalho), com Artur Barbosa, novo maestro há um ano, e no surgimento de boas surpresas, como a Sinfônica da UECE, com Alfredo Barros, Quarteto Cearense, Sax em Cena, os sopros de Pindoretama, dentre outros.


Surge o Bora, que junta armas digitais ao tempo do mimeógrafo, em produções caseiras do CD. No momento, mais maduro, apesar de mais desarticulado, na paciência de um dos mentores, Alan Mendonça, assistimos voos individuais, com canções já liberadas para downloads, como é o caso da Lorena Nunes, Davi Silvino, Marcos Lessa, Joyce Custódio, Felipe de Paula, Fulô da Aurora, Lídia Maria, além do recente CD do Caio Castelo que seria considerado um dos discos do ano, caso houvesse maior mimo com a arte por aqui.


Gosto do que vejo na movimentação dos novos, com bons artistas e boa arte, o que garante a moral da tropa, a criar por cima de pau e pedra, seja no experimentalismo do Hardy, no cancionismo de Tom Drummond, do Richell Martins, Argonautas, Dona Zefinha, Renegados, ultradiferentes e parecidos.


Se antes contávamos com certa guarda de Cláudio Pereira, Augusto Pontes, vejo seguir essa boa energia por pessoas que, até a certa distância, norteiam a movimentação, como Nelson Augusto, Flávio Paiva, Moacir Maia; Izaíra Silvino, Catatau, que, em suas mensagens sonoras, convida a correr trecho pelo País, sair um pouco do virtual, como essa boa volta do Vitoriano a São Paulo, junto a Andreia Dias, por exemplo.


Se Fortaleza nos acolheu e fez reverberar nossas canções, hoje, mesmo com reduzidos palcos, conta-se com as redes virtuais e com uma maior compreensão do que significa mesmo o sucesso.


O mais, é me solidarizar, aberto às novas movimentações, dizendo que somos muitos, no perdão de não citar todos (as), pelo espaço e por não dar conta de tanta novidade. O momento aguarda atitudes públicas e privadas de arrojo, que melhor aproveitem o que se cria, que façam a diferença e resistam ao tempo.

 

Eugênio Leandro é compositor e escritor

 

O ORIGINAL

 

O AZUL E O ENCARNADO

EDNARDO

Gustavo Portela posa no jogo dialético proposto por Ednardo em seu terceiro disco, de 1977. O projeto gráfico assinado por Fausto Nilo e Maxim - com capa tripla e um encarte - foi recusado pela gravadora e Ednardo bancou a ideia, custeando a tiragem inicial.

Eugênio Leandro .
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