Vanguarda 13/02/2012 - 01h30

Uma semana que dura 90 anos

Exatos 90 anos atrás, o público paulistano adentrava o Teatro Municipal de São Paulo para tentar, sem muito sucesso, gostar de uma arte nova, diferente e brasileira. Hoje a Semana de Arte Moderna de 22 é um marco das artes nacionais

 

Era 13 de fevereiro de 1922, uma segunda-feira como a de hoje, quando um curioso grupo de artista se reuniu buscando aplausos e assomando vaias. Não só essa segunda de exatos 90 anos atrás como também a quarta e a sexta daquela semana formaram o fatídico ínterim que tentou impor um novo ritmo à produção artística brasileira. A Semana de Arte Moderna – ou Semana de 22, para os íntimos –, se mantém presente na rotina e nos pensares de artistas nacionais mesmo que todos os escritores, músicos, pintores – performers – da época já tenham sido vencidos pelo tempo.


O objetivo dos vanguardistas de outrora era simples. Para cada um dos grandes campos artísticos da época (pintura e escultura no dia 13, literatura no 15 e música no encerramento), uma apropriação à brasileira, uma quebra do rigorismo eurocêntrico, uma experimentação. A Semana surgiu de uma visita do pintor Di Cavalcanti ao mecenas Paulo Prado. Daí surgiu uma necessidade que englobou as várias esferas artísticas e também o capital a ser investido para o “festival”. O que se viu depois foi uma saraivada de vaias e prejuízo financeiro, mas que deixaram o porvir da arte tanto quanto ressabiado.


Passadas 4.695 semanas esquecíveis, aquela semana que se passou num Teatro Municipal de São Paulo alugado, ainda levanta discussões em cima da suposta revolução que ocorrera naquele palco. “A revolução se faz contra o símbolo de status-quo, que era o Teatro Municipal – símbolo da pujança e poder do estado de São Paulo”, levantou a jornalista e doutora em História Social Márcia Camargos, em entrevista à TV São Judas sobre seu livro Semana de 22 – entre vaias e aplausos.


O que ficou para a História, enfim, não foram o Impressionismo, Simbolismo ou a Art Noveau ou a tomada de fama de nomes como Oswald e Mário de Andrade, Anita Malfatti e Di Cavalcanti. O que ficou foram seus filhos, os modernistas, e todos os netos manifestos e revistas. Se Manuel Bandeira ou Heitor Villa-Lobos eram vaiados, que a História os aplauda de pé.


O canto novo da raça

Se a vanguarda demorava em transpor o Atlântico rumo à capital cultural brasileira, a situação nordestina ficava ainda mais defasada. Assim como em São Paulo, alguns gritos tímidos de uma arte de vanguarda se misturavam ao vozeril das artes vigentes e jaziam mudos. Depois da circulação e do fracasso aparente da Semana de 22, enfim, surgiu um grito audível que saía dos punhos dos poetas Jáder de Carvalho, Mozart Firmeza, Franklin Nascimento e Sidney Netto. Um grito não, um canto, O canto novo da raça, apontado como o livro inaugural do modernismo cearense e publicado originalmente em 1927. A obra, inclusive, foi relançada pela Secretaria de Cultura do Ceará (Secult) no final do ano passado.

 

A diferença do modernismo cearense para o europeu ou até o paulista era, no entanto, imensa. Se no resto da América Latina o foco central era a urbe, o desenvolvimento das cidades, o Ceará focava na terra, sempre num caráter muito telúrico. A cearense Rachel de Queiroz, ícone da segunda geração modernista, apontava que o modernismo cearense era muito cheio de índios e plantas. Muito disso veio da parte nordestina no movimento, identificada pelo Manifesto Regionalista de 1926. Em seu O modernismo na poesia cearense, o professor e ensaísta Sânzio de Azevedo aponta também a figura do poeta Guilherme de Almeida como responsável pela propagação de ideais paulistas em terras alencarinas.


“No Ceará, as chamadas ideias modernistas só chegaram por volta de 1930. Mesmo assim, a gente não teve um modernista que bebesse daquela fonte diretamente. Todos são filhos da primeira geração e da segunda geração do modernismo”, aponta Nilto Maciel, autor do ensaio Panorama do conto cearense. Para o escritor, o modernismo cearense foi muito misturado ao parnasianismo, ainda que a Padaria Espiritual fosse um sopro vanguardístico ainda anterior à Semana de 22.


A título de curiosidade, dois dos maiores nomes da pintura modernista cearense nasceram justamente no ano da Semana de Arte Moderna, Aldemir Martins e Antônio Bandeira. Um dos antecedentes do evento, inclusive, foram as duras críticas que a pintora modernista Anita Malfatti recebeu do escritor Monteiro Lobato, num texto intitulado Paranoia ou mistificação. O artigo é considerado o estopim do modernismo brasileiro por ter provocado a união dos artistas do movimento e fomentado a necessidade de uma discussão coletiva dos rumos propostos por modernistas.

 

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