29/03/2010 - 23h03

Entre a desatenção e a impaciência

Além do individualismo, a falta de atenção e a impaciência são males dos motoristas em Fortaleza. O POVO traz a opinião de especialistas e dicas de etiqueta para melhorar a convivência no trânsito da Capital cearense

Larissa Lima
larissalima@opovo.com.br


Quem vem de fora, estranha. Acostumado ao trânsito de São Paulo, o consultor de marketing Donizete Silva Leite, 51, logo viu que certas indicações de boa convivência entre os motoristas praticamente não existiam no trânsito de Fortaleza, onde viveu por um ano. O uso da seta para mostrar que vai dobrar ou mudar de faixa, por exemplo, era uma raridade. Para o consultor, não é uma questão somente de educação dos motoristas. O próprio crescimento das cidades impõe mais atenção às regras de trânsito. ``Acredito que o motorista de lá seja mais atento por causa do volume de tráfego``, julga.

O POVO não precisou esperar muito para flagrar esse tipo de falha. Por volta das 18 horas, um carro vem pela avenida Engenheiro Santana Júnior e entra na Padre Antônio Tomás. De súbito, dobra à direita para estacionar num centro comercial. O carro de trás buzina em protesto. Quando a motorista desce do veículo, explica: ``foi esquecimento``.

Às vezes, a distração é justificada por uma conversa, compartilhada entre o telefone e o volante. ``Equivale quase a você estar um pouco alcoolizado. Se você estiver ao celular, nem lembra por onde passou``, diz o presidente em exercício da Autarquia Municipal de Trânsito, Serviços Públicos e Cidadania (AMC), Assis Martins, sobre a grande quantidade de motoristas flagrados ao celular.

O português Luis Miguel Alves, estilista e professor de etiqueta social, compara os motoristas de Fortaleza aos de algumas cidades europeias. ``Eles não são mais mal educados, apenas -fervem em pouca água-. Não fazem muito uso da diplomacia e da educação em situações que são constrangedoras para todos``. O comportamento das pessoas faz do trânsito de Fortaleza um ``teste de reflexos``.

Ser ``agoniado``, impaciente, pode ser um traço cultural do próprio cearense, no ponto de vista da psicóloga Gislene Macêdo, professora do curso de Psicologia da Universidade Federal da Ceará (UFC), em Sobral. ``As pessoas pensam: -sai da minha frente, se não eu pego a minha peixeira!-. É um traço meio coronelístico mesmo``, analisa.

Ainda assim, ter mais paciência é o principal conselho dado pela professora de comportamento social na Elite Models, Eveline Duarte, para melhorar a convivência no trânsito. ``O uso de etiqueta se resume à educação, ao bom senso. Fortaleza é uma metrópole. Qualquer cidade grande vai ter esse trânsito``. E como aumentar a tolerância? ``Na hora que você entende o ser humano, você passa a conviver melhor com ele. Entender não é necessariamente
aceitar. Mas é ter respeito``, diz.

LEIA AMANHÃ
> O POVO
traz matéria com as sugestões dos internautas no portal O POVO Online. Responda ``Como melhorar o trânsito de Fortaleza?`` no www.opovo.com.br.

BATE-PRONTO
O POVO - Encontramos muitos carros estacionados de forma inadequada em Fortaleza, bloqueando o fluxo até em grandes avenidas. Isso é porque a fiscalização não é eficaz?
Renato Reis - É bem verdade que não temos uma fiscalização adequada à nossa frota crescente de veículos e que sinalização não surte o efeito desejado se não for acompanhada de uma efetiva fiscalização. Mas acredito que educação é o caminho, visto que o comportamento de uma massa não muda de forma eficaz com ações de curto período. A lei (Código de Trânsito Brasileiro) é clara em seu artigo 48 e 181 I, no que se refere as posições na falta da sinalização - paralelo ao bordo da pista, no sentido do fluxo e junto à guia da calçada a, no mínimo, cinco metros da esquina. O que falta é fazer com que a Lei chegue à população de várias formas.

O POVO - Que outros erros comuns o senhor costuma ver em Fortaleza e que podem contribuir para atrasar o trânsito?
Renato Reis - Regras básicas de preferência, de percurso (transitar pela direita), de ultrapassagem (só fazer pela esquerda), de conversão (ceder a passagem ao sentido contrário ao convergir à esquerda) são desobedecidas, leia-se ``desconhecidas``.

O POVO - Os motoristas utilizam de forma apropriada as faixas da direita e da esquerda?
Renator Reis - Segundo o CTB, em seu artigo 29 IV, se uma via tiver várias faixas no mesmo sentido, serão as da direita destinadas aos veículos mais lentos e de maior porte enquanto as da esquerda são para os veículos de maior velocidade ou para as ultrapassagens. A população grosseiramente ignora essa regra.

O POVO - O que é necessário para que os motoristas adotem outra postura no trânsito de Fortaleza?
Renato Reis - Educação, educação, educação e um pouco de fiscalização. Trabalhar o tema nas escolas, faculdades, programas locais de televisão, séries na imprensa escrita, entrevistas com profissionais da área de forma rotineira, cursos e palestras abertas à comunidade. Divulgar, divulgar, divulgar.

Renato José Reis Bezerra. Professor e técnico em legislação de trânsito pelo DETRAN-CE
E-MAIS

> Várias pessoas aguardam a chegada do elevador. Quando a porta finalmente se abre, uma moça sai do nada, passa na frente de todos e ainda praticamente obstrui a saída de quem ainda está lá dentro. Depois, o narrador pergunta: ``Se você se irrita com isso, porque bloquear um cruzamento?`` A pequena narrativa é uma das contadas em vídeo pela campanha "Sou Legal no Trânsito", produzida pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) com o Ministério das Cidades. Ela foi veiculada no fim do ano passado.

> Ela parte do pressuposto de que os motoristas veem de forma diferente a falta de cortesia no trânsito de outras faltas de gentileza, em outros ambientes. Os vídeos terminam com a frase: ``Seja educado no trânsito como você é na sua vida``. Mais sobre a campanha no site www.soulegalnotransito.com.br.

> A tese de doutorado da professora Gislene Macêdo, defendida na Universidade de São Paulo, entrevistou 500 motoristas da capital paulista sobre o que mais os irritava no trânsito.

> Além de verificar que, em geral, os motoristas não se reconhecem autores dos erros que sempre veem nos outros, ela chegou a uma lista que incluía, por exemplo: desrespeito à preferencial, parar em fila dupla, ``trancar`` outros carros no estacionamento, andar com luz alta, parar em cima da faixa de pedestres, dirigir de forma ameaçadora, como quem usa o carro para ameaçar outras pessoas, ziguezagueando ou jogando luz alta para que saiam da frente.

> A pesquisa também concluiu, em linhas gerais, que os motoristas que se consideram mais hábeis ao volante são os que mais se irritam com os erros dos outros e mais se envolvem em acidentes.

> Para a psicóloga, muitos motoristas também se irritam com os erros dos outros porque tendem a personalizar a situação e considerá-la uma ofensa, embora sejam completos desconhecidos para o ``agressor``.

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Comentários
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marcos melo 30/03/2010 23:35
Funciona mais ou menos assim:Primeiro eu. Vc sabe com quem está falando.Paro onde quiser, dobro onde quiser, interrompo qual rua quiser. Buzino mesmo.Quando estiver sendo ultrapassado, acelero.Pode multar, tenho dinheiro para pagar. Este é o perfil do motorista de Fortaleza, principalmente na área nobre. Geralmente doutores, engenheiros, empresários e outros bem sucedidos. Comprovando que informação(formação), não é sinonimo de cultura nem civilidade.
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Renato Moreira 30/03/2010 22:53
De que adianta relatar episódios particulares ocorrido no trânsito dessa desordenada quando sabemos que o problema é mais em baixo. Tem comentários aqui que sinceramente, talvez de adolescentes como o alberto, um garoto bobão que não entende que há uma crise de gestão e qualquer coisa a ser feita deverá ser induzida pela AMC ou os motoristas irão se reunir e traçar metas a serem atingidas? kkkk É um bocó literalmente falando. Falta em Fortaleza PLANEJAMENTO E AÇÕES INTELIGENTES para propagar uma atmosfera de altruísmo no trânsito. Hoje reina a Selvageria e o Poder Público é inerte na sua função de fiscalização. Quem é que quer ser multado e pagar caras multas? Talvez um alberto bocó sim, mas aí é problema mental dele é claro...kkkk
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Rogério Santos 30/03/2010 22:30
ENTRE A IMPACIÊNCIA E A DESATENÇÃO O QUE VIGORA É A MÁ EDUCAÇÃO... E SÓ...
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Jorge Campelo 30/03/2010 21:39
Trânsito lento, hoje, por volta das 18:30 h na Soriano de Albuquerque com Lauro Maia. Eis que ao pararmos no cruzamento (centenas de veículos), um desses "aperriados" "agoniados", insistiu com o jogo de luz para que andássemos mais a frente. Só que o nervosinho viu que se nós fizéssemos isso, iríamos trancar o cruzamento e ele fatalmente também. Após frustantes tentativas, nosso "apressadinho" desistiu, e depois ainda saiu com cara de poucos amigos. Ele faz parte da grande "frota" de mal educados que se dizem "habilitados" condutores de veículos. Pois, pois!
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Paula 30/03/2010 18:24
SETA é o principal erro do fortalezense. Ele simplesmente NUNCA liga seta, e quando liga é para dobrar numa via de mão única, sendo dispensável o uso da mesma. Os carros 4x4 são outro problema. Querem avançar por cima dos carros menores a todo custo. Sem falar nos engraçadinhos que furam fila! Muitas vezes, furam a fila pela contramão e quando um carro dobra não pode entrar pq tem um apressado na contramão querendo passar à frente de todo mundo, como se ele fosse melhor do que todos ali. Isso acontece MUITO no sinal da Murilo Borges. Eu não deixo entrar. Pode bater no meu carro, mas eu não coopero com quem se acha no direito de atrapalhar os outros que esperam sua vez educadamente. E isso tudo que falei, meu povo, é feito por quem acha que dirige bem, que os outros são lesados, barbeiros! É tudo trocado aqui no Ceará. Valentia,estupidez, grosseria e covardia são os valores de "um verdadeiro homem".
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