Artigo 23/11/2014

Raul Seixas e o Evangelho de Krishna

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Francisco José da Silva


Não podemos negar a veia mística e espiritual da obra de Raul Seixas, dentre as diversas musicas que ele escreveu sobre a temática, destacamos a musica ‘Gitã’ (em parceria com Paulo Coelho), do LP do mesmo nome. O LP Gitã (1974) é o terceiro de Raul Seixas e seu primeiro disco de ouro, nele além de ‘Gitã’, destacamos ‘Medo da Chuva’, ‘As aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor’, ‘Água Viva’, ‘O trem das sete’, entre outras. Este ano comemoramos 40 anos de lançamento deste LP. Vejamos o que representa o conteúdo da musica que deu nome ao disco e sua relação com o texto sagrado Baghavad Gita, conhecido como ‘Evangelho de Krishna’.


O Baghavad Gitã (Canto do Senhor) é uma parte do épico hindu Mahabharata (a grande guerra dos Bháratas), composto por volta do século IV a.C., em geral divido em 18 capítulos. Este épico é maior que as duas epopéias atribuídas a Homero, Ilíada e a Odisséia, e narra o conflito dos Pandavas (filhos de Pandu) e seus parentes os Kauravas. O momento crucial se dá na batalha de Kurukshetra, onde diante dos dois exércitos compostos por parentes próximos, o arqueiro Arjuna entra em crise, então seu cocheiro Krishna revela sua personalidade divina (Baghavad) e mostra a Arjuna o caminho do Yoga e os efeitos da ação (Karma Yoga, Jnana Yoga, Darma Yoga), as propriedades da matéria (Gunas, ou qualidades), as manifestações divinas (o relato de Krishna inicia-se a cada verso com “Eu sou..”) e convence-o a assumir seu destino. Assim começa o trecho da revelação de Krishna: “Ó Arjuna, eu sou o Eu verdadeiro (Atman) que mora no coração de todos os seres. Eu sou o começo e a vida, e Eu sou o fim de todos eles. De todos os poderes criadores Eu sou o Criador; dos astros que iluminam Eu sou o sol; sou o tufão entre os ventos, e a lua entra os planetas. Dos Vedas Eu sou os Hinos, Eu sou a Força elétrica nos Poderes da Natureza; Eu sou a Mente entre os sentidos; e Eu sou a Inteligência em tudo aquilo que vive” (Baghavad Gita, cap.X).


Transpondo não apenas o aspecto místico e religioso do livro sagrado, Raulzito reapresenta-o de forma poética, reconstruindo de uma forma simples, mas, ao mesmo tempo, profunda toda a riqueza da obra indiana. Após uma breve introdução ou prelúdio, a musica começa com a suprema revelação de Krishna (que na cultura ocidental remete a figura de Deus) revelando-se diante da pergunta inquieta do homem em crise, “Às vezes você me pergunta, porque que eu sou tão calado, não falo de amor quase nada, nem fico sorrindo ao teu lado. Você pensa em mim toda hora, me come, me cospe, me deixa, talvez você não entenda, mas hoje eu vou lhe mostrar. Eu sou a luz das estrelas, Eu sou a cor do luar, Eu sou as coisas da vida, Eu sou o medo de amar...”. Raul já havia relatado em entrevistas o teor da composição e a forma como esta foi feita, destacando a importância da musica e do LP, que ele considerou na época doutrinário.


Vale lembrar que o LP Gitã surge num período em que Raulzito estava sob influencia da obra de Aleister Crowley, o mago inglês que se intitulava a besta do Apocalipse, entre seus livros destaca-se o ‘Liber Oz’ ou “Livro da Lei”, onde se apresenta a Lei de Thelema (Vontade), inserido no famoso refrão da musica Sociedade Alternativa, “faze o que tu queres, há de ser tudo da lei”. Podemos dizer que de certo modo as ideias de Crowley e o Baghavad Gitã convergem para uma concepção de que o individuo deve ser livre para seguir sua vontade, só assim pode realizar a suprema verdade universal. Em uma entrevista, Raul disse que há sete níveis de consciência e compreensão do Baghavad Gita.


Francisco José da Silva é professor é mestre em Filosofia e coordenador do Núcleo de Línguas e Culturas Estrangeiras Procult -UFCA (Universidade Federal do Cariri)

 

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