Artigo 30/03/2014

Tentação e pecados

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Francisco José da Silva


Tentação e Pecados são duas realidades bem humanas, a primeira diz respeito à condição de possibilidade de encontrar razões para pecar ou transgredir uma ordem divina, o segundo é o ato consumado de transgredir a vontade divina e seus estatutos. Mas como as duas se relacionam? Como se caracterizam? No primeiro momento iremos entender a tentação a partir das narrativas do encontro de Adão e Eva com a Serpente (no mito bíblico do Gênesis), o qual resultou no chamado pecado original, e as três tentações sofridas por Jesus no deserto, no livro de Lucas (Lc 4). No segundo momento veremos o conceito de pecado original e os principais pecados catalogados pela tradição cristã, os chamados sete pecados capitais (gula, avareza, preguiça, ira, luxuria, orgulho e inveja).


No mito bíblico do Gênesis (capítulos 2 e 3), encontramos as figuras de Adão, Eva e da Serpente (o animal mais astuto) no jardim do Éden, diante da árvore do conhecimento do bem e do mal e da árvore da vida. A narrativa nos deixa claro que de todos os frutos se podia comer, exceto da arvore do conhecimento do bem e do mal, a Serpente (figura conhecida na antiguidade como símbolo da fertilidade e da sabedoria) de forma astuta tenta a ambos insinuando ao inocente casal que nada haverá de mau se comerem do fruto, pois se tornarão como Deus, conhecendo o bem e o mal, ambos cedem à tentação, ou seja, fazem a prova, arriscam orientar-se de forma autônoma, estabelecer por si mesmos os padrões de bem e mal que só poderiam ser dados pelo Absoluto (Deus).


No relato de Lucas (Lc 4), vemos Jesus sendo conduzido para o deserto pelo Espírito para que fosse provado por Satã (do hebraico ‘Shatan’, o opositor) ou o Diabo (do grego ‘Diábolos’, acusador). A tentação se dá em três momentos, diante da fome (o prazer), do desejo de segurança e domínio sobre reinos (o poder). O tentador usa as escrituras para conduzir Jesus a um impasse, já que Deus quer nosso bem e salvação, por que devemos seguir o caminho mais difícil? Se podemos confiar nas promessas divinas, por que elas não acontecem de forma instantânea? A vitória de Jesus se dá pelo enfrentamento das astucias do Diabo retrucando com as mesmas escrituras, apontando para uma nova exegese destas. Essas três tentações sofridas por Jesus são uma espécie de exemplo da maneira como o pecado se insinua no coração humano e que consequentemente conduz aos diversos pecados derivados. Do pecado original podemos passar aos pecados ditos capitais, pois são a cabeça (capita) de vários outros.


A tradição cristã estabeleceu como sete os pecados originais , são eles: a gula, a inveja, a luxuria, a ira, preguiça, o orgulho e a avareza. Muito embora essas listas tenham variado desde a época de Gregório Magno (séc.V) até Tomás de Aquino (sec. XIV), eles permanecem como a configuração das diversas formas pelas quais o pecado se estabelece na alma humana, pois ao contrario do que podemos pensar, o pecado é algo que diz respeito a alma, não tanto ao corpo, que na verdade sofre as consequências dos pecados gerados na alma.


De todos os pecados, o orgulho é o grande pecado, pois ele é aquele que levou a queda do anjo mais próximo de Deus, Lúcifer, este orgulho que envenena a alma a ponto de sobrepor-se ao próprio Deus. Como está descrito em Isaías: “Como caíste do céu, ó estrela radiante, filho da alva! como estás cortado até a terra, tu que abatias as nações! Tu dizias no teu coração: Subirei ao céu, exaltarei o meu trono acima das estrelas de Deus e sentar-me-ei no monte da congregação nas extremidades do norte. Subirei acima das alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo. Todavia serás precipitado para o Cheol, para as extremidades do abismo” (Is 14, 12-14).


A queda de Lucifer é a metáfora da condição humana, que por sua própria arrogância e prepotência leva a si mesmo a destruição, lembrando entre os gregos o destino de Ícaro, que querendo ultrapassar seus limites e chegar à proximidade do Sol queima suas próprias asas e é precipitado no mar.


Francisco José da Silva é professor e mestre em Filosofia

 

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