Paul Krugman 01/09/2013

O declínio dos e-impérios

A resposta, basicamente, é que todos usavam o Windows porque todos usavam o Windows
Compartilhar

O anúncio surpresa de Steve Ballmer de que ele deixará o cargo de CEO da Microsoft causou uma enxurrada de comentários. Não sendo nem um entendido em tecnologia nem um guru de administração, não tenho muito o que acrescentar nessas frentes. Mas acho, no entanto, que entendo um pouco de economia, e também leio muito sobre história. Então, o anúncio de Ballmer me fez pensar em externalidades de rede e Ibn Khaldun. E pensar nessas coisas, eu argumentaria, pode ajudar a assegurar que possamos extrair as lições certas dessa agitação corporativa em particular.

Primeiro, sobre as externalidades de rede: considere o estado do setor de informática por volta de 2000, quando o preço das ações da Microsoft atingiu seu pico e a empresa parecia totalmente dominante. Você se lembra das camisetas descrevendo Bill Gates como um Borg (parte da mente coletiva da série “Star Trek – Jornada nas Estrelas”), com a legenda: “Resistir é inútil. Prepare-se para ser assimilado”? Você se lembra de quando a Microsoft estava no centro das preocupações das leis antitruste?

 

O estranho é que ninguém parecia gostar dos produtos da Microsoft. De acordo com todos os relatos, os computadores Apple eram melhores do que os PCs usando Windows como seu sistema operacional. Mas a vasta maioria dos computadores desktop e notebooks rodava o Windows? Por quê?

 

A resposta, basicamente, é que todos usavam o Windows porque todos usavam o Windows. Se você tivesse um PC com Windows e quisesse ajuda, você podia pedir ao sujeito no cubículo ao lado, ou ao pessoal do suporte técnico no andar de baixo, e ter uma boa chance de conseguir a resposta da qual precisava. Programas eram projetados para rodar em PCs, periféricos eram projetados para funcionar com PCs.

 

São externalidades de rede em ação e tornaram a Microsoft um monopólio.

 

A história de como surgiu esse estado das coisas é emaranhada, mas não acho que é injusto dizer que a Apple equivocadamente acreditou que os compradores comuns prezariam sua qualidade superior tanto quanto seu próprio pessoal. Assim, ela passou a cobrar mais caro e, quando percebeu quantas pessoas estavam optando por máquinas mais baratas, que não eram insanamente ótimas, mas realizavam o trabalho, o domínio da Microsoft já estava assegurado.

 

Agora, qualquer discussão dessas faz os fiéis da Apple se manifestarem, insistindo que qualquer coisa que o Windows faça a Apple pode fazer melhor, e que apenas idiotas compram PCs. Eles podem estar certos. Mas não importa, porque existem muitos desses idiotas, eu inclusive. E o Windows ainda domina o mercado de computadores pessoais.

 

O problema para a Microsoft veio com a ascensão de novos aparelhos cuja importância ela famosamente fracassou em perceber. “Não há chance”, Ballmer declarou em 2007, “de o iPhone conquistar uma fatia de mercado significativa”.

 

Como a Microsoft foi tão cega? É aqui onde entra Ibn Khaldun. Ele foi um filósofo islâmico do século 14, que basicamente inventou o que agora chamaríamos de ciências sociais. E um entendimento que ele teve, com base na história de sua região natal, a África do Norte, é que existe um ciclo de ascensão e queda de dinastias.

 

As tribos do deserto, argumentava ele, sempre exibiam mais coragem e coesão social do que as pessoas civilizadas das cidades, de modo que, de tempos em tempos, elas invadiriam e conquistariam as terras cujos soberanos se tornaram corruptos e complacentes. Elas criam uma nova dinastia – e, com o passar do tempo, se tornam corruptas e complacentes, prontas para serem derrubadas por um novo grupo de bárbaros.

 

Não acho que seja preciso muito esforço para aplicar essa história à Microsoft, uma empresa que se deu tão bem com seu monopólio de sistema operacional que perdeu o foco, enquanto a Apple – ainda perambulando pelo deserto após todos aqueles anos – estava alerta a novas oportunidades. E assim os bárbaros do deserto invadiram.

 

Às vezes, a propósito, bárbaros são convidados a vir por uma facção doméstica que busca chacoalhar as coisas. Pode ser isso o que está acontecendo no Yahoo: Marissa Mayer pode não parecer muito um chefe beduíno feroz, mas ela está exercendo o mesmo papel.

 

De qualquer modo, o engraçado é que a posição da Apple nos dispositivos móveis de hoje em dia se assemelha muito à antiga posição da Microsoft nos sistemas operacionais. É verdade, a Apple faz produtos de alta qualidade. Mas eles são, conforme a maioria dos relatos, apenas ligeiramente melhores, quando são, do que os dos seus rivais, apesar de seu preço mais caro.

 

Assim, por que as pessoas os compram? Externalidades de rede: muitas outras pessoas usam iAlgumacoisa, existem mais aplicativos para iOS do que para outros sistemas, de modo que a Apple se torna a escolha fácil e segura. Conheça o novo chefe, igual ao velho chefe.

 

Há alguma moral aqui? Permita-me, ao menos, apresentar um caso negativo: apesar de a Microsoft não ter conseguido conquistar o mundo, aquelas preocupações antitruste não foram equivocadas. A Microsoft foi monopolista, ela obteve muitas rendas de monopólio e inibiu a inovação. A destruição criativa significa que os monopólios não são eternos, mas isso não significa que sejam inofensivos enquanto duram. Isso valeu ontem para a Microsoft e pode valer para a Apple, Google ou outra empresa ainda fora do nosso radar, amanhã.

 

Tradução: Daniela Nogueira

danielanogueira@opovo.com.br

 

Paul Krugman

economia@opovo.com.br

Professor de Economia da Universidade de Princeton é articulista do New York Times. Recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 2008

> TAGS: 0
Compartilhar
espaço do leitor
Nenhum comentário ainda, seja o primeiro a comentar esta notícia.
0
Comentários
300
As informações são de responsabilidade do autor:

Paul krugman

RSS

Paul krugman

Paul krugman

Escreva para o colunista

Atualização: Domingo

TV O POVO

Confira a programação play

anterior

próxima

Economia

  • Em Breve

    Ofertas incríveis para você

    Aguarde

Newsletter

Receba as notícias da Coluna Paul krugman

Powered by Feedburner/Google